Árvore em meu peito

Eu queria te dizer que está tudo bem, querida árvore. Felizmente não está. Hoje em dia eu não tenho mais medo de admitir isso. De assumir os meus receios; a minha insegurança latente. Eu sou assim. Engraçado — você sempre tentou me dizer, não é?

Eu queria escrever pra você. Queria mesmo.

Queria escrever algo bonito, com métrica e fluidez.

Queria rabiscar os cartões postais, colocar citações em folhas de caderno, copiar desenhos a lápis; aquelas coisas que eu fazia pra nutrir os seus galhos de árvore-jovem.

Queria me encontrar em uma foto sortida daquela câmera que eu adorava; uma imagem bonita pra inserir nesse texto: Eu, com a cabeça raspada e um singelo sorriso, protegido por sua sombra crescente.

Talvez eu queira demais.

Queria ter feito backup do meu celular antigo; o do vidro quebrado, que me conectava com a tua voz enquanto eu estava atolado na neve, com os pés congelando, ou sozinho naquele quarto isolado, aprisionado pelos livros, marcando as páginas com as suas folhas; com as suas frases.

Queria segurar os seus pés e alongar as suas raízes. Sentir o cheiro característico da sua madeira na minha cama. Procurar a solidez da sua cintura no escuro.

Te carregar. Medir a sua densidade pelo olhar.

Recordações da minha varanda.

É estranho visitar o passado desse jeito.

Tantas vezes eu te diminui como árvore (porque era um idiota) e nunca te disse o quanto eu me sentia envergonhado. Pois você já tinha se tornado mulher, e eu, sem perceber, estava ainda podando os seus ramos, te magoando.

Eu era um menino pensando em como te escalar — você sempre foi o meu maior desafio!

É tão doloroso escrever isso! Queria te pedir perdão, bela árvore, mas sinto que eu ainda nem me perdoei!

Mas é preciso aceitar a realidade. Eu não queria, mas também preciso escrever aqui que eu lhe abandonei. Eu me rendi aos desejos, ao meu estado aflitivo. Eu me tornei pragmático, e logo encontrei outro jardim; um jardim alagado, onde você não poderia mais florescer.

Árvore, que saudades de ti.

Nem sei o que te dizer.

Só que não sou o mesmo escritor de antes — nem o mesmo amante.

Tanto que, nesses versos arrancados de mim (juntos de muitas lágrimas), só consigo te tratar assim, por árvore, pois me falta a coragem em dizer que você é, na verdade, o meu grande amor.

Aquela semente que de tanto eu amar se tornou mulher.

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