200 Filmes — #12- Hidden Figures

Existe uma variedade enorme de tipos de filmes. Não me refiro a gêneros, até porque se eu for entrar nessa contenda agora eu termino de escrever esse texto em 2022 aproximadamente. Estou falando especificamente de três tipos de filmes, os divertidos, os importantes e os especiais. Todas essas categorias podem, ou não, estar contidas umas nas outras e, na maior parte dos casos, os filmes que se encaixam simultaneamente nessas três categorias são premiados e entram as listas futuras de “100 filmes para ver em 100 dias”.

Não existe fórmula para que um filme desses aconteça, em nenhuma dessas categorias, então seria perder o nosso precioso tempo tentando descobrir uma receita. Contudo, existem características comuns a todos eles. Um filme divertido, por exemplo, ele não bate em todos os pontos de “perfeição” imaginados pelos especialistas mas consegue fazer você sair do cinema com um sorriso no rosto e satisfação no peito, imaginando que aquelas duas horas não foram perdidas. A historia te envolve, você torce para os personagens principais, ri e se emociona com eles, enquanto a musica alegre te guia por essa viagem.

Já os filmes importantes, acabam sendo um tanto auto-explicativos, tratam de temas necessários para aumentar ou iniciar uma discussão. Esses filmes acabam se tornando marcos de uma tão necessária representatividade e normalização para o publico médio de umas com que ele não está familiarizado ou não tem tanto contato assim. Tome como exemplo Philadelphia e a importância dele para o grande público, colocar dois grandes atores para falar de um tema que mesmo hoje é tabu.

Para entrar na categoria de especial, o filme precisa entregar algo que transcenda a experiência do filme, algo que, dali um tempo ao revisitar as memórias faça com que aquela história se destaque no meio de várias “pastas” dentro da sua cabeça. Todo filme devia mirar esse objetivo, em um mundo perfeito, porém isso é difícil, bem difícil. “Ah mas eu posso te falar vários exemplos de filmes especiais só em 2016”. Sim, e isso é ótimo, ser especial não é sinônimo de ser exclusivo, apenas uma característica mais rara.

Hidden Figures consegue, a seu modo, ser os três. Não pense que eu estou maluco ou sendo hiperbólico (coisa que eu talvez tenha sido chamado um ou duas vezes), dos filmes que vi para o Oscar até agora este seria um fortíssimo candidato a levar o prêmio de melhor filme, se tivesse sido nos anos 90. O cinema, a Academia e o publico mudaram muito nas ultimas duas década (não me diga Sherlock!), as expectativas para um “filme do Oscar” se transformaram junto. Uma historia que trata de temas sérios de uma maneira respeitosa porém animada, sem transformar o filme inteiro em um festival melancólico e pesado, que infelizmente parece ser o caminho para o reconhecimento em forma de prêmios. Subestimado, é o que direi no futuro quando comentarem sobre esse filme.

O jogo de palavras do título -"Figure" pode significar, ao mesmo tempo, silhueta/forma/corpo, um número ou expoentes em sua área- permeia o script inteiro do filme. Aquelas mulheres, históricas em seus campos de estudo, saíram de um como escuro e opressor em um prédio esquecido da sede da NASA em Langley para a luz da história, contudo, tanto tempo depois de seus feitos, não eram tão conhecidas fora dos seus meios, ainda se mantendo "escondidas". Esse é o motivo que esse filme é tão importante e o eleva sobre outras historias do mesmo tipo.

P.S.: Vitimismo só é vitimismo quando alguém privilegiado conta uma história em que ele passa como alvo de um sofrimento que, em situações comuns, é incabido. Como o “racismo invertido” que algumas pessoas arrotam por ai. O relato histórico de um grupo de pessoas, condensada em três personagens fortes, com arcos bem definidos, inteligentes e capazes de assumir qualquer posto em sua área que eram tratadas como pessoas de segundo -ou terceiro- escalão por conta da sua cor e gênero não é vitimismo nem de brincadeira.

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