200 Filmes — #2- Hell Or High Water

Se existe um ponto fundamental para o sucesso de um filme, mesmo que seja só na nossa “cronologia pessoal”, é a capacidade dele se conectar com quem assiste.

Essa conexão pode acontecer de mil maneiras distintas, afinal de contas, todos passamos por experiências diferentes em nossas inconstantes vidas que nos moldaram até essa personalidade que assumimos hoje. A maneira que uma obra, foquemos no cinema por agora, se conecta conosco pode ser fruto de algo pré-filme, como já conhecer os personagens ou a história, mas na maioria dos casos a ligação acontece ali, no escuro da sala de cinema ou na (desejada) calmaria da sua sala.

Via de regra, essa ligação é imperceptível, em um momento nós somos o “incauto“ espectador, que vai –ou deveria ir- de coração aberto acompanhar aquelas duas horas dentro da vida de outras pessoas e, sem aviso nenhum, já estamos na ponta da cadeira e torcendo para que o destino dos personagens bata com o que nós queremos.

Quanto mais particular e singular é o universo onde a história se passa, quanto mais “filtrado” é o público que, imediatamente, entenderá os motivos dos personagens e ficará investido na história –partindo do principio, claro, que ela seja envolvente- mais difícil é atingir esse parâmetro de ”sucesso” que vamos considerar nesse texto.

Então, por extensão, uma história sobre dois irmãos que roubam bancos e um policial “velha guarda” em vias de se aposentar (sim, eu também achei cliché), passada no interior do Texas, só pode apelar para quem se encontra ou passou por essa situação. Certo? Colocada dessa maneira, qualquer um responderia que sim. Ou, com muita boa vontade, diria que é um conto sobre como a vida é dura com todos, e acredito também não estivesse errado

Porém, a diferença de Hell or High Water para outras tantas histórias do tipo é que, sem a camada de cima a história pode ser encarada como uma visão dentro da vida de dois irmãos que, depois de perderam a mãe, resolvem assaltar alguns bancos para, assim, escaparem da inércia que o passado os deixou e garantir o um futuro melhor para eles e os seus, mesmo que para isso tenham que ir até as ultimas consequências.

Oposto a eles está o supracitado policial “velha guarda” que, muito preso aos seus modos, sua rotina e suas raízes, tanto físicas quanto comportamentais, luta para aceitar as mudanças que a sua aposentadoria trará, e vê no caso dos assaltantes de banco uma chance de uma “despedida em grande estilo”.

Tudo isso se passando num cenário que transita entre cidades pequenas, pessoas simples, lojas fechadas, casas à venda , pichações que lembram o descaso com os que lutaram pelo pais em guerras que não eram suas e outdoors que oferecem empréstimos, como o próprio filme define, que irão te oferecer somente o que for preciso para te endividar para o resto da vida.

O filme nos dá várias chances de criar uma relação com a história, por trás da roupagem tão fortemente característica do meio oeste norte-americano, por trás de todo o clima de faroeste –um policial correndo atrás dos bandidos no deserto- estão sentimentos, qualidades e defeitos tão universais e compreensíveis. Não existe maniqueísmo, todos ali são fruto do ambiente e das situações em que foram criados e equilibram, ou seja seres humanos normais.

Hell or High Water não quer ser inovador, nós ja vimos histórias como essa em filmes bons e ruins, mas nos oferece com uma boa dose de estilo — que faz toda a diferença- e uma história “crua”, despida do grosso da romantização da história natural do “western”, que nos entrega uma palpável tensão até o final.

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