200 Filmes — #9- 13th

Escrever sobre 13th é um desafio com o qual venho batalhando desde que assisti o documentário pela primeira vez. Por quê essa dificuldade toda? Como eu, um brasileiro branco posso comentar sobre uma realidade de um país que não vivo, de uma parcela da população que não faço parte em condições que não passei? Complicado, acho que ainda não encontrei uma definição mas vamos lá, ninguém disse que ia ser fácil.

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Existem pessoas que, muito cedo e com uma clareza impressionante entendem o papel que ocupam e como podem utilizar essa situação em favor de causas e como uma forma de conscientizar e trazer à luz temas importantes, acendendo a discussão. Uma dessas pessoa é Ava DuVernay. Isso tudo fica muito claro na conversa no extra do documentário, também disponível no Netflix, inclusive obrigatório como um complemento ao documentário. Ava sabe o que quer falar, como falar e quem ela quer atingir com isso. Já foi assim com o sensacional Selma e se repete agora, de maneira mais direta e didática, em 13th.

O documentário, ao apresentar todo o panorama histórico que levou um pais inteiro a acreditar que a melhor solução a um “problema” é coloca-lo longe dos olhos das classes mais altas em celas, cada vez mais abarrotadas dá todas as fermentas para que o seu espectador, nunca mais se pergunte como a situação de desigualdade chegou no ponto onde está hoje em dia. Ava, e todo o qualificado time de especialistas, testemunhas e personagens dessa historia mostram como a discriminação racial é um problema enraizado na sociedade.

O mote principal é falar da superpopulação carcerária e do aumento vertiginoso dela nos últimos 40 anos, onde os números quase quadruplicaram, contudo não é possível abordar esse tema sem entender as condições como tanta gente, negra em sua esmagadora maioria, foi parar lá.

Então o documentário começa explicando como uma emenda na constituição tornou possível, para nao destruir ainda mais a economia do Sul, transformar escravos recém-libertos em trabalhadores involuntários caso estes fossem criminosos, e por isso, negros eram presos por crimes pequenos e junto com uma campanha para colocar na imaginação popular que os negros eram selvagens e criminosos por natureza transformar toda a população de uma raça em criminosos que precisam ser mantidos longe e contidos.

O tempo passa e com essa ideia de que a população negra é inatamente criminosa é colocada entrelinhas de uma politica de lei e ordem -que serve também como uma forma de repressão de idéias progrssistas de igualdade racial- e posteriormente de combate as drogas, que sempre chegavam no resultado de mais repressão à população negra. Até que o sistema percebe que pode lucrar com as prisões lotadas e com essa politica de combate e encarceramento, e como qualquer um que tenha vivido por dois segundo nesse planeta sabe, se o sistema lucra, o bem de poucos subjuga o bem de muitos.

Assistir 13th é ter uma visao com zoom dentro do funcionamento de uma sociedade e como ela se importa com os diferentes grupos e culturas que vivem dentro dela. Ainda bem, para nós brasileiros, que esses problemas, idéias, crenças e politicas publicas para manter a “ordem” e encaceirar sem julgamento quem está “errado” na sociedade estejam tão longe de nós.

(Esse último pedaço do parágrafo é um oferecimento de Ironia. Ironia, aprecie com moderação.)

13th é uma aula, das boas. Sabe como levar a historia e progredir com os fatos, coisa rara hoje em dia. Mas mais importante que a maestria técnica, é entender que mesmo sem ação direta é possivel endossar discursos exclusivistas e participar de ações que, provavelmente, cairão no lado errado da história.

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