Cintia Tavares e a yoga livre

Texto Fernanda Cintra
Fotos O álbum

“Yoga — Eu amo, eu pratico” diz a conta no instagram da professora Cintia Tavares, a primeira a ocupar a [nossa] Academia da AHLMA com um curso livre, de média duração. Essa frase é, pra mim, uma boa forma de introduzir essa yogini de 42 anos, capaz de expressar os ensinamentos do yoga de um jeito bastante simples, com muita felicidade.

Praticante desde 2000, Cintia começou, na verdade, no core power yoga — modalidade focada no corpo, muito comum na Califórnia, onde vivia na época. Alguns anos depois, quando ficou grávida, fez uma especialização para gestantes, e aí sim, sua relação com a prática se aprofundou. Em 2010, voltou para o Brasil e teve seu próprio estúdio — onde tentou implementar, sem o sucesso esperado, um sistema de trocas para alunos e professores, entre outros projetos paralelos. Até que em 2015, Cintia voltou para San Diego; e junto da filha de 11 anos, leva a vida no yoga, com o coração aberto para uma existência de prazer e satisfação.

Como a prática de yoga transformou a sua vida? Você vê uma Cintia diferente, antes e depois do yoga?

Sim, e o ponto principal aqui é a capacidade de observação, coisa que eu não tinha. Com o yoga, passei a olhar para as coisas com mais interesse: por que de manhã eu acordo e levanto pelo lado direito, não pelo esquerdo? Porque todos os dias eu faço as coisas sempre da mesma forma? Antes, eu levava uma vida muito mais no automático. Essa foi uma grande mudança que o yoga me trouxe, uma mudança sem volta.

E você acha que essa é uma transformação que acontece de forma gradual?

É, mas por outro lado, o clique vem de uma vez só. E quando ele vem, você sabe o que quer. Mas a consciência, o autoconhecimento, esses vêm com o tempo, de forma gradual. Não poderia ser de outro jeito. Até porque esse é um processo que não termina, não tem deadline, é para a vida toda. E isso é que é incrível e bonito, viver passa a ser uma oportunidade diária de transformação.

Ontem mesmo, eu estava conversando com uma amiga sobre isso, como a busca espiritual relacionada à sabedoria do oriente pode nos levar para um expectativa “mágica”, como se, com a harmonização de chakras, ou o despertar da kundalini, pudéssemos fazer da nossa vida livre de problemas e emoções. Quando, na realidade, a mudança mora no dia a dia, e exige muito trabalho e atenção.

Não, as coisas não deixam de acontecer. Os conflitos estão aí, o que muda é cognitivo. A sua análise dos acontecimentos passa a ser diferente, de forma que você possa sair de cada situação um pouquinho mais forte. A mistificação é enorme, se mistifica até o professor de yoga. Não é por aí, sabe? A transformação está ao nosso alcance, mas precisa ser construída todo dia, a toda hora, a todo momento. Isso foi algo que aprendi na Índia. Você imagina que vai encontrar uma realidade puramente espiritual, e as pessoas serão como deveriam ser. Mas é justamente através das coisas mais precárias, mais banais, que nós entendemos que tudo está ali. E que é através dessa compreensão que nós conseguimos de fato crescer, nos desenvolver e espiritualizar.

Sim, na Índia entendi que a vaca sagrada comia lixo (risos). A gente vai com o coração cheio de expectativas fantasiosas, e quando está lá, percebe que os maiores ensinamentos acontecem por meio das coisas mais simples.

Exatamente. E que você não precisa ir à Índia: os ensinamentos estão disponíveis para todos, e em todos os lugares. Sempre ouvi da minha guru, que está no México, que a Índia estava dentro de mim e que um dia eu entenderia isso. Mas tudo bem, muitas vezes só se ganha essa compreensão indo até lá. No meu caso foi necessário fazer a viagem e cruzar o planeta para entender coisas que estavam muito pertinho de mim. Em compensação, outras coisas que eu não gostaria de ter visto, eu tive que ver. Hoje eu lembro desse período como algo bonito, que me permitiu entender muitas coisas, sobretudo as passagens, como por exemplo, a da minha mãe.

E como é o curso que você está oferecendo na Academia da AHLMA?

Esse curso vem se desenvolvendo há pelo menos 8 anos. Eu sou meio cigana, gosto de estar em vários lugares, e criei um curso que eu pudesse levar para o mundo todo. A princípio eu pensava em retiros, formatos mais imersivos, mas foi quando eu fui para San Diego que eu percebi que a maioria das pessoas precisava de experiências que trouxessem o tal do clique. Nesse sentido, o retiro pode ser um pouco ilusório, porque você sai do seu ambiente, imerge em uma situação ideal, e assim que volta para casa, tudo aquilo que você imaginava ter se despedido, retorna com você. Quando voltei para a Califórnia percebi que muitas das pessoas que eu conhecia que praticavam yoga há muitos anos continuavam saindo do eixo com facilidade, em casa, no trânsito. E a yoga é uma prática inversa a esse tipo de atitude. Eu não me irrito? É claro que eu me irrito. Mas as minhas reações já não tem tanto poder sobre mim.

Então, passei a desenhar um curso de longa duração — pois é importante ter tempo de absorção — que privilegiasse a vivência à teoria, diferente de um curso de fim de semana. São 6 encontros distribuídos ao longo de 3 meses para juntos trabalharmos pranayamas, mudras, mantras, tópicos sobre ayurveda e reiki, e é claro, ásanas. Também quero muito que as pessoas entrem em contato com o yoga nidra e a yoga restaurativa, práticas acessíveis para todos, independente das condições físicas de cada um.

Eu queria que você falasse um pouquinho mais sobre yoga nidra, porque eu vejo que é uma prática ainda recente no Brasil que ganha explicações muito diferentes.

Você já praticou?

Sim, a gente deitava no chão em shavásana* e a professora fazia uma espécie de meditação guiada. Aliás, era difícil não dormir.

É a chamada yoga do sono, né? (risos). Se você dormir, será um relaxamento e tudo bem. Mas se você não dormir, terá um encontro incrível consigo mesmo. É como se diz, a gente só recebe aquilo que a gente precisa. No shavásana por exemplo, tem gente que dorme, gente que chora, gente que experimenta certas sensações pela primeira vez. Se você não dorme em shavásana, você experienciará a absorção de tudo aquilo que foi realizado durante a sua prática. O yoga nidra, por sua vez, é um shavásana extenso. E para que você possa ir mais longe, o que se faz é guiar a mente do praticante para que ele possa permanecer ali e viver o despertar. Para que possa estar presente a cada momento. Tirando que o yoga é uma prática milenar, o yoga nidra ainda é relativamente novo para nós (risos). No ocidente, as posturas é que ainda são muito populares. Ásanas são excelentes e representam cerca de 30% do yoga, mas ninguém precisa de 40 mil posturas para praticar.

*Shavásana, para o yoga, é a postura do cadáver, em que o praticante se deita no chão de barriga para cima, com braços e pernas relaxados.

Isso me faz pensar em todas essas novas formas que a yoga tomou através de modalidades híbridas (como acro e SUP yoga), e nas muitas pessoas que hoje compartilham a sua prática no Instagram. Você acha que esse apelo à performance atrapalha?

Poder ser, mas pessoalmente, acredito que o yoga é livre. Cada um sabe o que tem e o que é. Cada um vive conforme o seu livre arbítrio, e o que você faz com todas essas fotos e posturas acrobáticas, com ou sem a sensibilidade do yoga, é do seu interesse e responsabilidade. Quando eu comecei (na Core Power Yoga) todo mundo com quem eu conversava me dizia que isso não era yoga. Como não, se eu conseguia fazer todas as posturas que o professor pedia? Naquele momento é claro que eu não entendia o porquê, mas essa foi a minha porta de entrada. Então, o que eu penso é: a crítica não faz parte do yoga. Há muitas formas de se chegar a uma compreensão profunda do yoga, você não precisa ser tão rígido. Você sabe o que é yoga? Todos nós estamos buscando e descobrindo. Eu acho o meu trabalho ótimo, mas é possível que o meu mestre, ou qualquer outra pessoa no caminho, há mais ou menos tempo, ache que não. As pessoas também precisam entender que esse tipo de modalidade, acro ou SUP, por exemplo, não são práticas diárias. Elas existem porque o ser humano precisa de novidade, diversidade, novas experiências. E qual é o problema de chamar de yoga? Quando você puder observar que tudo é yoga, com uma mente verdadeiramente liberta, tudo funcionará melhor.

Então talvez o mais importante não seja buscar o melhor professor, mas aquele com o qual você pode se conectar, do lugar que estiver.

Mas o que é o melhor, não é? Essa é a grande questão. Há coisas que precisam estar claras, como por exemplo, a importância da respiração. Se você pratica em um espaço cujo professor não fala em respiração, a minha sugestão é que você experimente outra aula. Mas indicações precisas de com quem se deve estudar, bom, isso eu não tenho. Se com o tempo você começa a observar melhoras, ou que anda se zangando menos, que as condições externas já não te abalam tanto quanto antes — fique tranquilo, está tudo bem. Eu tenho ferramentas para te ajudar a olhar e entender o que acontece aí dentro. Mas para te dizer o que é o melhor, jamais.

Mas é justamente isso que a pessoas buscam, certo? A solução infalível, a resposta pronta.

Sim. Em paralelo ao yoga, eu aplico reiki e, como sou bastante sensível, às vezes recebo mensagens durante a sessão. Conforme isso foi acontecendo, as pessoas passaram a me procurar por conta dessas mensagens, mas o reiki não é sobre isso. As pessoas querem a pílula mágica, a solução mais rápida. Não é à toa que muitas delas, até mesmo as mais jovens, usam tantos medicamentos.

Mas o que eu espero é que você saia da sua prática com uma pequena transformação. Da mesma forma que, muitas vezes, tudo o que você precisa é tomar uma pequena decisão. Uma pequena decisão na sua vida e tudo começa a acontecer.

Falando em medicamentos, como é a sua relação com a medicina ayurvédica?

O yoga e a medicina ayurvédica são irmãos. Ela é um pouquinho mais complexa para se implementar, mas também não é lá nenhum bicho de sete cabeças. Dá para fazer aos poucos, e com o tempo, fazer muito. De repente, você vive nisso. Eu mesma não sou terapeuta — frequentei cursos da Laura Pires quando ainda tinha estúdio aqui no Rio — a minha irmã que é. E ela atende pouquíssimas pessoas. Ensinar e atender dentro do ayurveda exige bastante responsabilidade. Em geral, se procura o ayurveda como uma espécie de cura alternativa, quando já se está bem doente. Ainda é raro que se procure como uma prática de saúde preventiva ou bem-estar.

A gente vive de um jeito em que tudo é tão prático e fácil, que é preciso estar às vezes muito doente para se interessar o suficiente por algo que demande “tanta” disciplina.

Eu sempre tive uma alimentação saudável, balanceada, coisa que aprendi com os meus pais e hoje procuro passar para a minha filha. Mas um grande ganho que o ayurveda me deu é que eu sempre fui muito vata*, avoada, de família cigana. Gosto do vento, do ar, do movimento. Adotando alguns temperos e corrigindo alguns horários eu pude criar raízes e baixar essa necessidade de sair voando por aí. São coisas simples de se aplicar, ainda mais se você já tem a disciplina do yoga. Nesse processo, se eu ainda comia alimentos industrializados, eu deixei de comer, assim como deixei de usar cosméticos. Mas levando essa vida de vício, com tantos medicamentos e alimentos processados, depois que a doença atinge um determinado estágio, não tem jeito: é preciso que seja tratada por um alopata mesmo. O que o ayurveda nos ensina é a observar o sinais do corpo, todos os dias, pra que raramente se precise fazer um tratamento pesado ou até uma cirurgia.

*Vata é um dos doshas da medicina ayurvédica, relacionado ao elemento ar, ao vento e ao movimento.

Então você acha que o processo de autoconhecimento e atenção que o yoga e a tradição védica promovem é muito mais sobre retirar do que, como uma gente imagina, acrescentar?

Sim, é um peeling, você se descasca até chegar em um lugar muito especial do ser. Você diz “nossa, eu sou tudo isso?”. E cada vez mais você se sente leve. Com menos necessidades. Talvez um dos aspectos mais difíceis seja deixar a vida social como ela normalmente é. A introspecção que o yoga promove faz com que a gente ouça melhor, então mesmo as pessoas mais sociáveis podem acabar tendo menos conversas e encontros.

Mas a gente fala demais, e eu percebo o quanto isso se revela através da prática. Se você está sofrendo em uma postura a sua língua é a primeira a se mexer ou tensionar.

É isso. Então a gente entende por que a concentração, a atenção na respiração e o silêncio são tão importantes. O falatório nos leva para outro lugar. Hoje quando chego no Rio, os meus amigos querem fazer muitas coisas, mas eu fico bem em casa. E nem sempre sou entendida. De qualquer forma, essa “calma” não pode se tornar um fator de resistência para mergulhar no yoga. Não é preciso ter medo de se deixar quem se é.

É o mito do zen, né?

A minha filha, por exemplo, quando era menor, vivia dizendo que não queria ser como eu porque ela gostava do agito. E a gente associa o agito ao que é legal, mas gostar de olhar pra dentro e não ter tanta necessidade de externar pode ser muito legal também. Nos Estados Unidos, há festivais de yoga maravilhosos, com uma energia fantástica, feitos para divertir. Se pula, se canta, se dança. Muito. Pode parecer que estão todos alterados, mas não tem droga nenhuma. E pra mim é isso que o yoga representa: a felicidade, o prazer total, a descoberta da potência que se é.

É engraçado pensar nisso, porque quando eu estudava ayurveda via os outros alunos espantados com o estados de bem-estar que a professora descrevia, fruto de uma rotina saudável, equilibrada. As pessoas diziam “meu deus, mas isso é a iluminação”.

A verdade é que as pessoas estão muito acostumadas com o que é ruim. Se alguém vai na minha casa, provavelmente vai achar que está sempre tudo ótimo, em paz. Mas coisas ruins continuam acontecendo, a gente só não ressalta.

Estamos fazendo essa entrevista na semana internacional do yoga, então, para encerrar a nossa conversa, como é afinal ser uma professora de yoga internacional?

É muito gostoso poder ver que estamos todos na mesma vibração. A prática não muda conforme o lugar. Como eu disse lá no início, o yoga mora dentro da gente. O dia internacional do yoga é todo dia, através da sua prática diária. Parece clichê, mas é isso mesmo, como diz um amigo meu, todo dia é seu dia de aniversário. Precisamos viver dessa forma. Mas é sim muito prazeroso ter essa profissão e viajar o mundo conhecendo gente e constatando que a gente é um só. Onde quer que a gente esteja e pratique, a energia é uma só. Vivi muitas mudanças de forma gradual, mas foi quando a minha mãe faleceu que eu tive a grande revelação de que somos todos um. E essa é a revelação do yoga, de união. Olhar para quem quer que seja com amor e felicidade é possível, se esse for o seu desejo. Porque o que eu quero para mim é também o que eu desejo a você. Não há como ser de outra forma. Simples assim.


Gostou das fotos dessa entrevista? Elas foram tiradas no Espaço AHTMA, recém inaugurado no segundo andar da [nossa] Academia da AHLMA. A partir dessa semana ele será ocupado com aulas regulares de [yoga & movimento], em uma grade variada de segunda à sexta, das 7h30 às 20h. Para saber mais, escreva para academia@ahlma.cc ou ligue (21) 3449 9167.

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