Turismo de DNA: uma viagem baseada na ancestralidade

Uma resposta científica para a pergunta que não quer calar — e a possibilidade de vivenciá-la em carne e osso

texto Marília Kodic
ilustrações
Maurício Planel

Nas entranhas do imaginário coletivo, lá estão eles: a gastronomia da França, os museus de Nova York, a natureza intocada da Tailândia, as ruínas de Machu Picchu, a rua que ilustra a capa dos Beatles, os últimos fragmentos do Muro de Berlim… Quando o assunto é turismo, alguns destinos são referência universal, e capazes de atender a grandes nichos de público. Agora, no entanto, uma nova tendência na indústria pretende elevar essas e outras experiências de viagem a outro nível, tendo como ponto de partida o DNA do próprio turista. Em síntese, o processo consiste em identificar as regiões de origem do indivíduo e, a partir daí, planejar um roteiro que o coloque em contato com as origens de seus antepassados — e seus hábitos alimentares, sua cultura e seu estilo de vida ao longo do tempo. Não dá para ficar mais pessoal do que isso.

O primeiro passo é realizar um exame de Ancestralidade Global. Graças ao desenvolvimento tecnológico, o teste, existente já há duas décadas e por muito tempo inacessível ao público geral, já é comercializado por diversos laboratórios internacionais por menos de US$ 100 — um décimo do preço a que era vendido quando chegou ao mercado. No Brasil, custa de R$ 600 a 800. A partir da análise do DNA, estima-se a porcentagem de genes que a pessoa carrega em relação a dezenas de diferentes populações do planeta — a empresa DNA Unwrapped, de Londres, por exemplo, diz ser capaz de identificar até 80 grupos populacionais diferentes. Hoje, os principais laboratórios do mundo trabalham com bancos de dados que possuem informações genéticas de 1 a 3 milhões de clientes, além de bancos de dados de domínio público, como o Projeto Genoma e o HapMap. À medida que mais pessoas têm seus dados registrados, mais preciso vai ficando o mapeamento.

O exame requer apenas uma simples coleta de saliva, e demora cerca de dois meses para gerar resultados, que podem ser acessados em plataformas online. E, quando chegam, são fascinantes. Estão ali dados diversos como a cor e a grossura dos seus cabelos, o tipo da sua cera de ouvido, a probabilidade de você ter calvície, sua tolerância a cafeína, sua sensibilidade à dor e se você tem aversão ou não a coentro. Estão, também, dados sobre sua propensão a dezenas de doenças e sua provável reação a uma série de drogas e medicamentos. Até a probabilidade de sua urina ter um cheiro característico após a ingestão de aspargos — sim, isso é sério! — está ali catalogada. Mas, como não dá para basear um roteiro turístico a partir da urina (ainda bem), a principal informação para quem quer ir atrás de suas origens é uma espécie de mapa-múndi étnico, que mostra a porcentagem dos seus genes distribuídos por diferentes regiões geográficas.

Imagine all the people

A maioria das pessoas acredita ter ao menos alguma noção de onde vieram seus antepassados, mas nem por isso os resultados de ancestralidade global têm resultados previsíveis. No ano passado, o turismo de DNA ganhou um grande impulso com a viralização da campanha “The DNA Journey”, criada pela plataforma de reserva de viagens online Momondo — segundo eles, o vídeo já teve mais de 175 milhões de visualizações. Nele, a empresa reúne 67 pessoas de diferentes nacionalidades, mas todas com uma convicção em comum: a pureza de sua nacionalidade. Spoiler: no fim, todos ficam surpresos ao descobrir origens inesperadas, alguns até de países que até então consideravam “rivais”.

“Queríamos descobrir como as pessoas iriam reagir quando soubessem que têm uma ancestralidade geográfica com outros cidadãos do mundo maior do que pensam”, diz Lasse Skole Hansen, porta-voz da Momondo. Já Brad Argent, do laboratório AncestryDNA, que fez os exames para a campanha, afirma que “quando nossos clientes recebem seus resultados, eles frequentemente desenvolvem uma paixão por explorar e até visitar os locais de suas heranças étnicas recém-descobertas, além de mostrarem interesse pela cultura, pelas pessoas e pela geografia dos lugares de onde seus ancestrais biológicos vieram”.

Além do vídeo viral, a Momondo realizou uma extensa pesquisa para confirmar o interesse do público por viagens em busca da ancestralidade. Foram ouvidas 7.292 pessoas em 18 países, incluindo 400 no Brasil. Segundo os resultados, 53% dos entrevistados gostariam de aprender mais sobre países e regiões nos quais descobriram ter suas origens, e 46% gostariam de viajar para os mesmos. A pesquisa também demonstrou a crença no impacto que o turismo pode ter para diminuir a intolerância no mundo. Para 76% dos entrevistados, viajar os ajudou a ter um olhar mais positivo com relação a diferenças e diversidade, enquanto 65% afirmaram acreditar que haveria menos preconceito no mundo se as pessoas viajassem mais.

Hit the road, Jack!

Nos Estados Unidos, o turismo baseado no DNA já começa a ser considerado um mercado promissor, especialmente entre a população negra. Enquanto grande parte dos norte-americanos brancos conhece a história da própria família remontando a diversas gerações — algo que há décadas fomenta o turismo de volta às origens em países como Irlanda, Itália e Alemanha –, a maior parte dos afro-americanos tem poucas informações a respeito de suas origens. Embora a maioria suponha possuir raízes no continente africano, a região específica dos ancestrais é envolta em mistério por conta da falta de registros como certidões de casamento, título eleitoral e outros documentos normalmente usados para reconstruir árvores genealógicas. Agora, com os testes de DNA, é possível identificar os países específicos em que viveram seus ancestrais.

Esse cenário sugere um grande potencial também para o turismo de ancestralidade no Brasil — talvez com um interesse proporcionalmente até maior, já que por aqui a miscigenação entre diferentes grupos étnicos foi muito mais intensa desde o início da colonização portuguesa, em 1500. Os relacionamentos de séculos atrás entre índios, europeus de diferentes origens e escravos trazidos de variadas regiões da África fazem com que mesmo os brancos brasileiros tenham grande porcentagem de seus genes originários de antepassados africanos — especialmente das regiões onde hoje estão países como Angola, Camarões, Gabão, Nigéria, Senegal e Togo –, enquanto muitos negros possuem traços genéticos europeus — principalmente de portugueses, mas também de espanhóis, italianos e holandeses, entre outros. Isso sem contar as vastas ondas migratórias responsáveis pela formação de nossa população — o Brasil tem a maior comunidade japonesa fora do Japão, e nossa comunidade libanesa é maior que a população do Líbano, por exemplo.

Por aqui, quem oferece o serviço de turismo de DNA, desde janeiro, é a agência Teresa Perez. Intitulada “Projeto Raízes”, a proposta foca nos destinos que revelam as raízes que compõem as heranças históricas e culturais do cliente. O exame de Ancestralidade Global é realizado pelo laboratório Genera, que envia as amostras para a Family Tree DNA, área especializada em ancestralidade da empresa Gene by Gene, de Houston, nos Estados Unidos. Para o presidente da agência, Tomas Perez, “as raízes de uma pessoa podem estar em muitos lugares que ela nem imagina — na África, na Europa, na Ásia. O resultado do exame certamente será uma surpresa para os nossos clientes. Acreditamos que a viagem para resgatar as suas origens será uma experiência ímpar, diferente de tudo o que eles já viveram até agora”.

Do it yourself

No fim das contas, as revelações científicas possibilitadas pelo exame de DNA são uma ferramenta a mais para se estudar a própria história. Afinal, o turismo de ancestralidade já existia antes dessa tecnologia, mas até então baseado apenas em documentos. “Assim como se estuda a história de um país, pode-se estudar a história de uma família. É necessário apenas ter paciência e persistência. A curiosidade humana é muito grande, e isso explica a vontade de se montar a própria árvore genealógica e fazer o exame de DNA de ancestralidade”, diz Aguinaldo Cristofani Ribeiro da Cunha, presidente da Asbrap (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia). “O exame de DNA confirma e amplia a árvore, pois vai mais longe, recua para o passado mais distante”, completa.

Nessa versão do turismo de ancestralidade baseado em pesquisas de documento, vale destacar o trabalho da empresa inglesa Ancestral Footsteps. Ela oferece pacotes de viagem que começam com uma pesquisa documental que pode levar até 12 meses e termina com um roteiro personalizado no qual o turista é acompanhado por um pesquisador-guia que dá explicações sobre cada local visitado e a relação com seus antepassados. É possível, porém, colocar a mão na massa por conta própria — em uma reportagem de 2014, o jornal britânico The Guardian, por exemplo, listou os dez melhores aplicativos para traçar sua árvore genealógica.

Ain’t no mountain high enough

Em alguns casos, o exame de DNA pode alcançar resultados surpreendentes. Isso porque, depois de fazer o teste, além de analisar seus próprios resultados, é possível também compará-los com o de outras pessoas que também o fizeram e, com isso, analisar a porcentagem de semelhança entre os dois DNAs. Claro que o banco de dados de cada laboratório possui uma amostragem limitada de indivíduos, mas não é raro que, ao receber seus resultados, um cliente descubra imediatamente um parente distante, com um antepassado de alguns séculos atrás em comum. Em casos mais raros, parentescos diretos podem ser revelados por meio dos exames. No site da 23andMe, uma das principais empresas de exames de DNA nos Estados Unidos, ao lado da AncestryDNA e da Gene by Gene, há uma página com relatos das histórias de clientes, incluindo encontros entre mães e filhos ou entre irmãos separados desde o nascimento.

Em um nível ainda mais específico (e, convenhamos, um tanto sonhador), a empresa suíça iGENEA usa como estratégia de marketing a oferta de comparativos com os perfis de DNA de personagens históricos. Entre os potenciais antepassados colocados em destaque pela empresa aparecem nomes como Genghis Khan, o faraó Tutankamon, Napoleão Bonaparte, Maria Antonieta, Thomas Jefferson e Che Guevara, entre outros. Pode até ser que encontrar ligação com um antepassado célebre tenha probabilidade similar à de ganhar na loteria, mas não custa sonhar, não é?