Estamos comendo poliéster nos frutos do mar

História publicada no blog Ecocult, no dia 27 de julho de 2017. Para ler a versão original, escrita em inglês por Alden Wicker, clique aqui.

Tradução: Ligia Deschamps

Existe uma nova praga plástica no oceano. Nos Estados Unidos, já é um problema maior do que as garrafas plásticas, redes de pescar, e outros restos plásticos que você encontra na praia. Mesmo assim, é invisível ao olho nu. E não sabemos muito bem o que fazer.

Normalmente quando você escuta “microfibra”, pensa em panos de limpeza suaves e super absorventes. Mas nesse contexto, microfibras são os fios microscópicos que soltam dos tecidos sintéticos. Menores até do que as microesferas, aquelas adicionadas ofensivamente aos esfoliantes faciais e outros produtos que foram rapidamente banidas em 2015, e muito, mas muito mais numerosas nas águas da nossa costa e lagos.

Em um estudo que testou durante um ano a água da costa da Flórida, microfibras representam 82% do plástico encontrado. De acordo com o relatório da IUCN, entre 15 e 31% da poluição marinha plástica pode ser por pequenas partículas residuais de produtos industriais e domésticos, ao invés de itens de plástico maiores que degradam no oceano, e 35% desta poluição de microplásticos vem da lavagem de tecidos sintéticos. A Europa e a Ásia sozinhas jogam o equivalente a 54 sacolas plásticas de microplástico por pessoa nos oceanos.

Caso não sinta que isso é simplesmente errado, existe uma razão pela qual você deveria se importar. Estes microplásticos acabam no estômago da vida marinha, incluindo ostras. (Ah, as ostras não! São tão deliciosas e ecológicas!) Em um pequeno estudo realizado em 2015 na Califórnia, 33% do peixe testado tinha detritos de origem humana no intestino, e 80% desses resíduos era composto por pequenas fibras. As microfibras podem absorver toxinas que estão na água, então quando o peixe as come, ficam presas no estômago e intestino e as toxinas se acumulam dentro dele… e depois dentro de você. Um estudo mostrou que caranguejos que ingerem fibras sintéticas comeram menos e tiveram menos energia para crescer, uma constatação assustadora, dado a onipresença das fibras.

Como isso aconteceu? Bem, uma jaqueta fleece de poliéster pode soltar 100.000 fibras, ou 1,7 gramas, em cada lavagem. As microfibras são tão pequenas (você não consegue vê-las a olho nu) que passam direto por filtros tradicionais e estações de tratamento de água. Um estudo de 2011 mostrou que microfibras eram ainda mais abundantes nas proximidades de estações de tratamento de água. Um estudo de 2016 estima que as estações de tratamento de água despejam 56 milhões de partículas de microplástico, quase todas microfibras, na baía de São Francisco todo dia. Aí os peixes as confundem com comida e as ingerem.

Infelizmente essa é uma questão que se mostra muito mais difícil de resolver do que as microesferas, que podem ser facilmente substituídas por areia ou outro esfoliante natural. Poliéster está presente em quase tudo que vestimos — roupas atléticas, jeans com stretch, roupas de praia, meias — por causa da sua flexibilidade. É o tecido tecnológico e leve no seu sofisticado casaco novo. É mais barato do que 100% das fibras naturais, então vai continuar a ser comprado e usado por marcas e consumidores até terem uma boa alternativa em preço e performance.

Existe um projeto da Plastic Soup Foundation na Noruega e a Parley for the Oceans para começar a entender como prevenir a perda de microfibras, mas ainda está em um estágio muito, muito incial. O varejista canadense MEC e uma marca de vestuário para atividades ao ar livre Arc’teryx pediram no início do ano aos pesquisadores do Aquário de Vancouver que desenvolvessem um protocolo para rastrear as fibras sintéticas de seus produtos até o oceano. Eles esperam que o protocolo se torne padrão da indústria e seja adotado por outras marcas também. Mas, na verdade, estamos apenas nos estágios iniciais de resolver esse problema.

Então, o que você pode fazer?

  1. Doar para o Ocean Conservancy, Plastic Soup, 5Gyres, ou para o Rozalia Project, que estão trabalhando nesse problema.
  2. Reduzir o consumo de produtos sintéticos. Se você puder escolher entre tecidos naturais ou sintéticos quando estiver comprando uma blusa, ou uma calça, ou um casaco de inverno, escolha opções naturais como algodão, linho, lã, seda, Tencel/lyocell, etc. No entanto, não acho que a maioria das pessoas conseguem cortar completamente poliéster das suas compras ou do seu uso. E ao contrário da maior parte do mercado da moda, esse é um problema gerado pelo uso, não apenas pela compra, então não recomendo que você jogue fora dois terços do seu guarda roupa. (Doar as suas roupas não resolve o problema, já que a pessoa que comprar vai usá-las e lavá-las.) Se você quiser subir em um pedestal moral e me dizer que simplesmente jamais poderia usar poliéster sabendo sobre as microfibras, eu te desafio a se livrar de todas as suas roupas que tenham sintéticos e não comprar nada com poliéster, acrylic ou nylon no próximo ano e me contar como foi. Com fotos dos seus looks. Por favor, me prove o contrário! De toda forma, no momento, estou focado em soluções de larga escala e não em pequenas e individuais.
  3. Compre de forma inteligente quando precisar comprar poliéster. Em um teste realizado por um aluno da Universidade de Santa Bárbara e patrocinado pela Patagônia, observou-se que os casacos mais sofisticados soltavam menos fibras do que os casacos mais baratos e de menor qualidade. Um estudo recente mostrou que poliéster reciclado não é mais propenso a soltar fibras do que um tecido novo, então continue a comprar poliéster reciclado quando possível. Aparentemente, a escovação durante a produção aumenta a perda de fibras, então escolha sintéticos não escovados (que não sejam fofos ou macios).
  4. Lave conscientemente, para minimizar a perda de fios. Lavando apenas roupas que realmente estão sujas. Separe as suas roupas sintéticas (acrílico, poliéster e nylon) em uma pilha e compre uma bolsa Guppy Friend para usar na lavagem. (Você também pode querer se inscrever para notícias de quando a Cora Ball será vendida). Fique longe de sabão em pó, especialmente aqueles com ação oxidante para remover manchas, mas adicione amaciantes naturais. Lave em um ciclo curto e com água gelada.
  5. Envie um e-mail para uma empresa de máquinas de lavar e pergunte quando filtros de microfibras sintéticas já virão de fábrica. Se você tem essa escolha no momento, escolha uma máquina de lavar com abertura frontal, que leva a menor perda de fibras e considere instalar um filtro externo.
  6. Envie um e-mail para uma empresa que você gosta e que venda roupas sintéticas, perguntando “vocês vão pedir aos seus fornecedores de tecido que adotem tecnologias que reduzam a perda de microfibras?” Indique a eles as recomendações das organizações de pesquisa europeias Mermaids‘ e Mistra Future Fashion‘s.
  7. Conte aos seus representantes sobre as suas preocupações com a poluição de microfibras e que você apoia que os filtros nas máquinas de lavar sejam mandatórios e um imposto de poluição sobre as fibras sintéticas.

Ainda estamos nos estágios iniciais de entender esse problema, mas espero que possamos agir para combatê-lo. Seguir as recomendações acima pode nos ajudar a caminhar na direção desse objetivo.