OVNE entrevista José Camarano

Às vésperas do lançamento da nossa primeira websérie, entrevistamos o personagem principal desta jornada em busca de autoconhecimento, vida simples e (re)conexão profunda com a natureza.

Por Fernanda Cintra

José Camarano é stylist carioca e produtor de algumas das festas mais queridas dos meus primeiros anos de faculdade. Foi consultor da Ausländer para desfiles, campanhas e festas do início ao fim da marca, e concorreu a prêmios como o Young Fashion Entrepreneur, do British Council, com a adorável Gema TV — clique aqui para matar as saudades da entrevistadora de maiô — projeto do qual foi fundador. Há 6 anos, no entanto, e apesar de todo o sucesso profissional, despontou a vontade de desacelerar: “A coisa foi ficando maior do que eu poderia gerir psicologicamente. Eu não tinha tempo para nada, e a minha vida pessoal ficava cada vez mais embolada com a profissional. Minhas viagens de férias eram viagens de pesquisa, de forma que há muito tempo eu não me desconectava”.

O processo, que começou com pequenas mudanças de rotina e alimentação, culminou no ano passado, quando, após uma temporada de três anos em Nova York, Camarano decidiu guardar todas as suas coisas em um storage, e acompanhado de apenas uma mala, partir para uma viagem de quatro meses no Havaí.

De Minas sim, mas sem puxar o S

Quem o conhece superficialmente mal pode imaginar, mas José Camarano é mineiro, nascido na interiorana Ubá, em 1979 — ano do qual gosta muito. Mas foi só aos 17, ao final da década de 90, que chegou ao Rio, para trabalhar no Mercado Mundo Mix. Vendia peças excedentes da extinta camisaria do seu pai por conta de um revival do estilo setentista na moda. Foi também nessa época que começou a tocar como dj e a estudar publicidade (curso que, mais tarde, decidiu abandonar). Aos 20, era stylist. E o Rio, a sua casa. “Foi tudo muito rápido. Desde então, nunca mais parei”.

O primeiro youtuber

A internet vivia o seu grande boom quando Camarano decidiu criar o Gema, lá em 2007. As pessoas começavam a gravar vídeos caseiros, e o portal mandava “mala direta”, em vez de newsletter. Todas as possibilidades que a tecnologia lhe oferecia — incluindo o novos lançamentos da Apple — faziam dele um homem hiper conectado, apaixonado pela web. Mas com a chegada de outras redes e o hábito de ler notícias online, José, que é atento aos comportamentos emergentes, logo percebeu que havia alguma coisa errada. “Tudo está ficando cada vez mais leve. A comida, o celular. Hoje em dia tudo vai pra nuvem, e a nossa cabeça também — está cada vez mais leve e menos profunda. Quando as selfies começaram a surgir, eu fiquei apavorado. Vi ‘nascer’ uma geração de pessoas altamente vaidosas e a internet se tornar um reality show freak da vida alheia, onde todo mundo parece gritar ‘Look at me! Look at me!”. O excesso de conexão se transformou em ressaca digital, e em 2013, Camarano decidiu deixar a noite e o audiovisual para se dedicar quase que exclusivamente à moda, inaugurando uma outra fase profissional, em Nova York.

O Havaí seja aqui tudo o que sonhares

E foi lá na gringa que rolou o segundo clique: Camarano não sabia aonde gostaria de estar. Não queria voltar para o Brasil, tampouco continuar em NY. “Então comecei a buscar dentro dos meus pensamentos qual era o meu maior desejo. O que eu sempre quis fazer, mas por falta de tempo ou coragem, eu nunca tinha feito?”. Percebeu que havia adquirido o hábito de, toda sexta-feira, pegar o trem para fugir da cidade. Passava o fim de semana na praia, na montanha, e voltava energizado. Até que nasceu a vontade de dar de volta, de cuidar da natureza e se (re)conectar com ela de forma ainda mais profunda.

Com a ajuda do universo — afinal, não há nada mais poderoso do que intencionar o que se deseja — descobriu o WWOOF, uma rede mundial de fazendas orgânicas que recebe viajantes dispostos a trabalhar “na roça”, oferecendo em troca conhecimento, hospedagem e alimentação. A princípio, José procurava por alguma coisa na Califórnia, mas ao puxar o mapa, trouxe para o meio da tela o Havaí. Seu coração disparou e decidiu, seguindo os sinais, enviar uma mensagem para uma amiga de escola, com quem não falava há mais de 20 anos, mas que morava em Honolulu. A resposta veio em um minuto. Mandou para ela uma lista com as fazendas das quais mais tinha gostado e juntos, chegaram a conclusão de que deveria entrar em contato com o Dragonfly Ranch, um healing art center com cinco quartos para hóspedes, casa comunitária para voluntários e espaços para a prática de yoga e permacultura, na Big Island.

Sincronicidades

Camarano explica que a região — onde Dragonfly Ranch está — é conhecida como 19.5 degrees, um dos portais de saída de energia da Terra, o que lhe pareceu muito auspicioso. Imagine duas pirâmides invertidas, encaixadas no centro da esfera terrestre: cada uma das pontas dessa forma configura 19.5 graus, onde, em todos os planetas, estão as grandes montanhas e vulcões. Ou, como no nosso caso, as pirâmides do Egito.

Ah, uma curiosidade: reza a lenda que a humanidade vem se desenvolvendo da direita para a esquerda do globo, em uma lógica que começa na ancestralidade do oriente, passa pelo desenvolvimento europeu, a descoberta das Américas, e hoje está na Califórnia, junto com o Vale do Silício. Nessa lógica, diz-se que a próxima “meca” é o Havaí, com a sua sabedoria e estilo de vida em harmonia com o todo.

Outra “coincidência”, foi a fazenda trabalhar com permacultura, tipo de cultivo na qual já estava interessado e que mimetiza a natureza: “Você planta sementes amigas, que se dão bem debaixo da terra, para nutrir o solo. E junto, planta flores para que as abelhas e insetos deixem os alimentos em paz, como acontece nas florestas”.

Vida antiga

Já na viagem de ida, Camarano percebeu que o seu desejo por uma vida slow começava a se tornar realidade. “Escolhi seguir para a Califórnia de trem, em uma viagem de quatro dias, de Nova York a São Francisco. Tipo vida antiga mesmo; inclusive, uma pessoa teve um ataque cardíaco dentro do trem, que precisou parar e ter passageiros interrogados pela polícia”.

O cenário Agatha Christie, pelo menos, ficou com a última estação de trem. A Big Island tem cerca de 180 mil habitantes e baixíssimos índices de criminalidade. Por outro lado, Camarano não sabia, mas levava na mala alguns medos do Brasil: “Lá, a minha casinha ficava aberta 24 horas, não tinha tranca, nem maçaneta. Meu carro, uma charanga que comprei por 800 doláres, também não tinha chave, e nem precisava. A primeira semana foi estranha, a floresta parece uma rave a noite: é barulho de sapo, grilo, porco selvagem, você mal dorme. A minha primeira pergunta foi se não tinha risco de assalto. É óbvio que não (risos)”.

Paz de espírito

Em pouco tempo, José baixava o banco do carro e dormia em qualquer lugar, até mesmo na natureza, já que no Havaí não existem animais peçonhentos ou perigosos para o ser humano. Estava cada vez mais próximo dos golfinhos, que dormiam e vivam a 5 minutos de carro do Dragonfly Ranch — outra característica das regiões 19.5 degrees. “Eu ia, em média, umas três vezes por semana, até porque chegou um momento em que eu mesmo levava os turistas para conhecê-los. Criamos uma conexão, eu mentalizava e os golfinhos vinham”.

Para a cultura havaiana, os golfinhos são animais especialíssimos, com capacidade de cura. Também há toda uma tradição em florais, cerimônias xamânicas, cultivo de plantas alucinógenas e meditação — o Ho’oponopono. É lá que habita, aliás, o Botanical Dimensions, uma mescla de jardim botânico e organização sem fins lucrativos criada pelo filósofo e etnobotânico Terence McKenna, cujo objetivo é preservar plantas de tradição xamânica (como ervas, cipós, cogumelos, etc). Envolver-se espiritualmente parecia inevitável. Entre a prática de rituais e meditação diária, às quatro da manhã, recebeu insights de uma vida toda e pôde soltar muito do que ainda lhe prendia. “Descobri que a raiz do meu sofrimento era o apego de não soltar o que precisava ir. Eu tinha medo de não trabalhar tanto, de não ter uma agenda agitada, e por conta disso, não me sentir bem sucedido. Agora, sucesso pra mim é bem estar, tranquilidade, qualidade de vida”.

Levo a vida tranquilo

Depois de 20 anos tentando, Camarano parou de fumar. Guarda o último maço até hoje, o que me parece um souvenir da descoberta de que a capacidade de discernir, sem simplesmente reagir aos estímulos externos, se adquire em um movimento de dentro para fora, e não de fora para dentro. Ele concorda: “Sabe aquela coisa de quando se está pronto, o professor aparece? Quando a gente se abre para a transformação, o clima muda, passamos a atrair coisas diferentes, e as pessoas certas aparecem para ajudar”.

Ainda sobre pessoas, ele também tinha medo da solidão. “Sempre tive muita gente perto de mim. Ainda amo meus amigos, mas perdi a conexão com a vida na noite descobrindo outras, novas, que hoje me preenchem ainda mais. É doído mudar, aceitar uma nova fase. E até você chegar do outro lado, você fica numa espécie de limbo, sem saber se vai para frente ou para trás. Mas é sempre para frente, na vida não existe andar para trás”. Quando chegou no Havaí, o desejo era mesmo esse, de recomeçar. Reconhece o privilégio que é poder “largar tudo” e viajar, mas entende que, mais importante do que a viagem, é que cada um consiga ter tempo para si, para olhar a própria vida com um pouco de distância e se (re)energizar.

Altas ondas

Uma prancha branca, bem simples, ocupa com status de obra de arte uma das paredes da sua sala. Eu pergunto se o surf veio com o pacote Havaí: “Eu já gostava de esportes radiciais, como paraquedismo ou asa-delta, mas aprendi a surfar em Waikiki, onde o surf nasceu, com três dias de ondas pequenas. Depois, um amigo surfista profissional me levou para o North Shore, onde tive aulas de como sobreviver no mar e fugir das ondas grandes. Assim que voltei para o Rio, comprei uma prancha e comecei a frequentar o Arpoador. Foi um outro ensinamento. O mar me fez entender que o propósito não está no fim, mas na jornada. Muitas vezes você fica horas sem pegar onda nenhuma, tentando ou só esperando, e nem por isso volta frustrado pra casa”.

De volta à moda

Estamos no fim da nossa conversa, o que me faz ter vontade de voltar a superfície. Ele conta que por um lado, nunca teve uma visão superficial da moda, muito embora seja esteta e trabalhe com imagem. Mas a moda, para ele, sempre foi mais sobre cultura e comportamento do que sobre a roupa, puramente. Moda é abrir a cabeça. Olhar para frente. “O que se renovou pra mim foi a percepção de que a beleza interior se revela no exterior. E o discurso que a moda oferece é mais importante do que como ela se manifesta visualmente”. Dessa forma, gosta de trabalhar com marcas nas quais acredita. Faz trabalhos regulares, imerso no universo infantil, para Fábula e Versace Kids, styling para a Handred, e agora, uma websérie para a AHLMA. Considera essa a melhor fase da sua vida.

Mas, como é o guarda-roupa de quem vive no presente? “Meu estilo mudou muito, hoje sou praticamente um minimalista. Aconteceu uma coisa: as roupas pararam de falar comigo (risos). Eu entrava numa loja e elas diziam me leva, ainda que eu comprasse sobretudo em pequenos ateliês e com amigos estilistas. Comprar é uma maravilha, mas o que comprar? Hoje eu não tenho mais a urgência de comprar nada. Esse ciclo vicioso de precisar de novidade mata, as pessoas morrem por dentro. A gente fica louco correndo atrás da próxima coisa e deixa de viver o presente. Hoje eu vivo com uma mala, que é a mesma com a qual eu fui e voltei do Havaí”.

Uma mala de poucas peças, todas lisas. “Eu era muito estampado, neon, bem montado nos looks de street wear. Encarnava personagens diferentes de acordo com a festa que fazia. Mas com o passar do tempo fui me ‘limpando’, e hoje aparento muito mais o centro do que a esfera. Descobri que consigo viver sem muitas coisas. E honestamente, eu adoro não ter mais que escolher roupa (risos)”.

Search

José Camarano se parece com alguém que encontrou o que tanto procurava. Foi só no Dragonfly Ranch que a ideia de um mini doc nasceu, com a ajuda de uma Canon nada demais, uma GoPro vencida num bingo local, e a vontade de dividir os amigos e aprendizados que conquistou. Rafaela Leite, amiga e pesquisadora, colaborou com a conceituação do projeto, e a roteirizar as perguntas que guiam os episódios sobre ecologia, espiritualidade, autoconhecimento, liderança circular, entre outros tantos assuntos. O resultado dessa viagem, que vai do coração de um mineiroca até um arquipélago no Pacífico, você confere aqui no O.V.N.E., ao longo das próximas quatro semanas. Aloha, e vamos juntxs.

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