Conheça os modern farmers

Eles vão da cidade ao campo ou trazem o campo à cidade, movidos pela busca por uma alimentação mais consciente

texto Mariana Weber
ilustrações
Maurício Planel

A vida no campo parece ter mais textura. De serragem, de espiga de milho vermelho, de tortilha de grão moído grosso, de pele queimada, de pelo de bicho, de barro. Pelo menos nas fotos do Instagram da fazenda/plataforma de comunicação Lano-Alto. Em cada cena, sombras destacam superfícies irregulares como atestados de singularidade. Ou como uma celebração do êxodo urbano em que o casal por trás do perfil, Yentl Delanhesi, 29, e Peèle Lemos, 35, resolveu embarcar. Em Catuçaba (distrito de São Luiz do Paraitinga, SP), os publicitários plantam, criam animais, cozinham, constroem. E mostram tudo nas redes sociais, ao alcance de outros novos fazendeiros, ou candidatos a fazendeiros, ou cuidadores de horta de apartamento, ou cozinheiros interessados na origem dos alimentos, ou qualquer pessoa que queira saber mais sobre o que come.

Junto com o movimento “do campo à mesa”, que valoriza o contato direto com o produtor dos alimentos, de preferência locais e sazonais, vem um interesse de gente da cidade por de fato colocar a mão na terra — ou pelo menos em uma massa de pão de fermentação natural. Em ambos os casos, trata-se de um esforço de retomar o controle, a consciência, sobre processos que nos acostumamos a terceirizar. Não à toa, a revista americana Modern Farmer (com seu site e suas redes sociais) atinge tanto gente que maneja trator no dia a dia como profissionais de diversas áreas que mantêm um canteiro no parapeito da janela de casa, contribuem para um jardim comunitário ou criam umas poucas galinhas no quintal — em uma pesquisa, 50% da audiência marcou trabalho no campo como atividade principal. “São pessoas interessadas em comida e talvez em cultivá-la”, diz Brian Barth, editor contribuinte da Modern Farmer.

Barth já teve uma fazenda “hobby” na Georgia, com galinha, porco e cabra, hoje mora em Toronto e mantém uma horta na varanda. Cozinha em parte com o que colhe e se dedica a escrever sobre os impactos da agricultura — positivos e negativos. Acredita que o movimento farm to table tenha um efeito forte em questões ambientais e sociais, ao confrontar o modelo de produção que exige alta eficiência a qualquer custo e remunera mais quem processa do que quem produz alimentos. Acha também que destacar a beleza pouco óbvia da vida no campo, como nas fotos da Modern Farmer, pode ajudar a atrair gente para ele. “Mostrar coisas como uma pilha de compostagem ou o gado de um jeito esteticamente bonito serve a um propósito. Mas é importante não romantizar.”

Casa no campo

Yentl e Peèle inicialmente compraram o sítio em Catuçaba para horas de lazer. Ela, porto-alegrense, e ele, nascido no Vale do Paraíba e criado no interior de Goiás e em Brasília, viviam na capital paulista. Queriam um lugar para ficar sem TV nem celular. Desconectar por tempo determinado da rotina na metrópole. Isso oito anos atrás. Três meses depois da compra do sítio, veio uma oportunidade de trabalho nos Estados Unidos, e para lá os dois foram, primeiro para Miami, depois para Los Angeles. Ali, um curso de queijaria se transformou em convite para estagiar em uma fazenda urbana em Altadena. Peèle, que nunca foi de acordar cedo, aceitou, e passou a cuidar de cascos de cabras (e alimentá-las, tirar o leite, fazer queijo, tratar de galinhas…) das 7h às 9h da manhã, antes de começar a jornada como publicitário. “Fui descobrindo novas moedas”, diz. “Não recebia dinheiro, mas aprendia muito.” Yentl também se envolveu e, em um instituto ligado à fazenda, os dois aprenderam a fazer conservas de vegetais, embutidos, pães, bebidas fermentadas e destiladas, torrar café, coletar plantas selvagens comestíveis…

A vida estava assim, meio urbana, meio rural, até que surgiu a possibilidade de liderar um projeto de expansão conceitual e física do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Peèle e Yentl, agora com um estúdio próprio, voltaram para o Brasil — mas não para São Paulo, para Inhotim mesmo. Passaram oito meses instalados no Instituto, “ilhados”, e gostaram. “Foi aí que começou o processo de se acostumar ao desplugue da cidade”, diz Peèle. “A gente estava pesquisando sobre o futuro, sobre a nova vida contemporânea, pensava temas como descentralização, planos de negócios que contemplem outras moedas que não dinheiro, relações de autonomia e dependência, observação da natureza para aplicar em outros campos (por que inventar a roda se ela já está inventada?)… De repente viu que estava pesquisando sobre a própria vida.”

No fim do trabalho, em 2014, o casal se instalou na fazenda de 45 hectares de Catuçaba. Defensores do “pensar global e agir rural”, transformaram a rotina em um experimento de autossuficiência conectada. Criam vaca, porco e galinha; plantam mandioca, batata-doce, milho, feijão, abóbora, banana, tomate, berinjela, hortaliças; fazem queijo, pão, kombucha. Hoje, a maior parte dos alimentos vem de produção própria ou de trocas com vizinhos; o resto da renda sai de projetos, como o MECAInhotim e a nova Bravo!, obtidos com a rede de contatos na cidade grande (haja internet 3G).

Parte dessa rede às vezes vai ao interior, e oferecer workshops de experiência da vida no campo — com direito a construção de abrigos, leite direto da vaca e banho de cachoeira — se tornou outra fonte de renda. Yentl e Peèle fazem ainda kombucha sob encomenda e entregam quando viajam à capital. No momento também estão envolvidos na construção de casas em um terreno vizinho, com peças de madeira que se encaixam, sem pregos. “O conhecimento pesquisado na internet ajuda a gente a usar técnicas de vários lugares”, diz Peèle. “O aprendizado não é linear.”

Ali perto, no mesmo distrito do município de 10 mil habitantes que é São Luiz do Paraitinga, está a Casa Modernista Caipira, projeto dos arquitetos Márcio Kogan e Lair Reis que prevê autonomia na geração de energia (por painéis solares e uma pequena turbina eólica), recolhimento de água pluvial, fogão à lenha no terraço e horta orgânica na cobertura. Integra a comunidade Casas de Catuçaba, montada dentro da Fazenda Catuçaba. Com o mote “desconectar para conectar”, a propriedade do século 19 hoje oferece uma programação de workshops com temas como sustentabilidade e gastronomia vegetariana, além de funcionar como hotel — sem TV ou internet, mas com lareira, cama king size, rodas de música ao redor da fogueira e experiências “mão na terra” na roça orgânica. Os alimentos produzidos também abastecem as residências.

Além da Casa Modernista Caipira, a comunidade tem estruturas modulares Minimod, criação do escritório brasileiro-uruguaio Mapa Arquitetos apresentada como “uma solução simplificada e sustentável de uma casa no meio da natureza”. A partir de módulos básicos de madeira laminada e alumínio, os minimalistas Minimod podem ser montados de múltiplas formas e receber acabamentos variados. São caixinhas — ou refúgios — fáceis de instalar em paisagens diversas. Um modelo de 33 metros quadrados de superfície interna tem previsão de construção em até dois meses e, transportado até o terreno onde será instalado, pode ser implantado em um dia.

Quem não tem um módulo no campo para chamar de seu não precisa abdicar do sonho da produção própria. Falta de espaço é algo relativo, um canteiro na varanda pode ser suficiente — ou os módulos Loft Up da Coza, que se prendem em barras verticais na parede como peças de Lego. Com mais ambição, dá para se inspirar no Square Roots, que cultiva vegetais nas paredes de contêineres transformados em estufas no meio do Brooklyn, em Nova York. A Minimod também lista entre seus projetos o desenvolvimento de módulos-hortas.

Minimod

No apartamento da empresária Lena Mattar, 31 anos, um puxadinho na janela da área de serviço faz as vezes de suporte para a horta enquanto, na sala, um jardim suspenso recebe iluminação graças a alterações no imóvel dos anos 1940 projetadas pelo arquiteto Fabrizio Lenci, 29, marido de Lena. As ervas caseiras abastecem receitas preparadas pelos dois na cozinha aberta que é o coração da casa na rua da Consolação, região central de São Paulo. Quintal, mesmo, ela tem na Salsada, empresa de que é sócia, instalada na Vila Mariana.

A empresa nasceu em parte de uma aflição. Publicitária que fez curso de sommelier e depois de cozinha, Lena passou a prestar serviços de comunicação para restaurantes. Seu envolvimento crescente com comida veio acompanhado de uma preocupação com a origem dos alimentos. “Fui voltando os olhos para o campo”, diz. “A gastronomia é a ponta do iceberg, a cadeia costuma ficar invisível.” Na ponta mais evidente, estão os chefs. “Eles passam a vida comprando, transformando e vendendo alimentos. Mas qual é a profundidade do conhecimento que têm sobre temas como biodiversidade e políticas públicas?”

Lena juntou-se aos sócios da empresa de curadoria de conhecimento Inesplorato — Débora Emm, Michele Okuhara, Roberto Meirelles e Carlos Alberto Consonni Martinez — para criar, em 2016, a Salsada, que tem como missão conectar agentes responsáveis pela alimentação. O trabalho se divide em três frentes: educação, intermediação e concepção. Na primeira, estão cursos e palestras. Na intermediação, entra a vontade de relacionar grandes empresas e festas regionais — a equipe catalogou 300 celebrações no Brasil (dez só para a uva) e visitou algumas, como a da polenta do bairro de Santa Olímpia, em Piracicaba (SP); a ideia, agora, é criar pontes entre os eventos e a indústria interessada em investir neles. Por fim, a área de concepção de produtos e serviços, que já ajudou a desenvolver a Kiro Switchel, refresco de gengibre, mel e vinagre de maçã (feito com ingredientes comprados de produtores agroecológicos e anunciado como “o isotônico do agricultor”). Uma cachaça orgânica “de alma caipira” está no prelo.

O tema da empreitada profissional ocupa também as folgas de Lena. As férias foram em Gonçalves (MG), com tempo para ler, pensar, colher alimentos, cozinhar em todas as refeições. No último Carnaval, a empresária e Fabrizio viajaram para a fazenda de uma tia dela no Vale do Paranã, em Goiás. “Trocamos a purpurina pela terra vermelha”, escreveu no Instagram. Escreveu na volta. Porque foram cinco dias sem luz, sem água quente, sem celular, sem TV. “Queria ver de perto a vida no campo”, diz. Isso significou acompanhar abates de carneiros e vacas; de galinha, ela já tinha visto em um dos workshops da Lano-Alto. “Quando você vê matarem o animal e pensa na carne na bandeja vendida no mercado, percebe a distância.”

Para encurtar essas distâncias brotam iniciativas como a expedição Farm to Table SP, em sua 8ª edição, que leva gente da cidade ao campo para conhecer, colher e comer orgânicos na fazenda Santa Adelaide, em Morungaba (SP). Mesmo com os pés fincados no asfalto, há opções. Cursos ensinam a montar hortas urbanas ou a caçar PANCs (plantas alimentícias não convencionais) por canteiros — vide o blog PancNaCity, da nutricionista Neide Rigo. Eventos variados viram desculpa para estender a toalha de piquenique em praças, parques ou ruas fechadas.

Em São Paulo, comprar vegetais orgânicos na feira do parque da Água Branca é oportunidade para tomar um café com gosto de manhã no sítio — concentre-se nas galinhas soltas, nos cavalos nos estábulos e nas sombras das árvores, abstraia as filas para pegar fichas e a proximidade com o corredor de ônibus da avenida Francisco Matarazzo. Mais do que alimentar um idílio rural, feiras como a da Água Branca permitem estreitar o contato com o produtor e, em consequência, com o alimento. E a partir dele fazer comida fresca, saborosa, sazonal. #comidadeverdade