Cisternas no Sertão são tão importantes quanto transposição

Cisterna é uma invenção do sertanejo, que a Articulação do Semiárido, a ASA, transformou em projeto
Família ao lado de cisterna. (Imagem: Ana Nascimento/MDS)

A instalação de 1,2 milhão de cisternas para consumo humano, pelos governos garantiram água durante a maior seca das últimas décadas no Nordeste. Esta é considerada uma das principais conquistas sociais que ajudaram a melhorar a vida de 4,5 milhões de nordestinos e faz parte de um conjunto de políticas públicas dos últimos 13 anos que permitiram a permanência dos sertanejos no Semiárido.

A concentração de riquezas, indústrias e investimentos no Sudeste provocou, durante décadas, uma migração interna que esvaziou terras no Nordeste e superpovoou as periferias no eixo Rio-São Paulo.

É verdade que a seca é um importante problema climático, mas que agora tem seu impacto social reduzido. É o que diz a ex-ministra do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello.

De acordo com ela, pela primeira vez, não se vê migração em massa para o Sudeste e tampouco situações de saques a mercadinhos e feiras e invasões a cidades, tão comuns no passado.

“O acerto da política foi o conceito de conviver com o semiárido. Não dá para combater a seca, seria como combater a neve. E não tem uma saída mágica. São várias soluções juntas, que se somam. A grande obra do São Francisco que complementa a grande obra que foi construir 1 milhão e duzentas mil cisternas de água para beber, numa área que equivale a 4 vezes a ilha do Reino Unido”, afirma Tereza.

Segundo ela, a cisterna é uma invenção do sertanejo, que a Articulação do Semiárido, a ASA, transformou em projeto e os governos Lula e Dilma transformaram em política pública. “Com as cisternas, 4,5 milhões de pessoas passam a ter água para beber. Água democrática, que cai da chuva e é armazenada na cisterna”, diz Teresa.

As cisternas amenizaram a seca e tiraram um peso da cabeça das mulheres. Por isso, são elas e as crianças as mais beneficiadas. “Em média, uma mulher andava 1,5 horas por dia para buscar água. Imagina, andar uma hora e meia no sol e voltar carregando água na cabeça? Nós não conseguimos imaginar. Todo dia”, enfatiza Tereza.

“Uma vez, uma agricultora me contava que levantava às 3 da manhã e ia no escuro para chegar antes do bichos. É como se ela fosse o primeiro bicho a chegar e beber a água antes dela estar mexida, ficar barrenta e suja. Outra contou: agora eu sei como é o gosto do café, antes eu fervia água salobra. Essas histórias vão se somar às novas, do sertão da Paraíba com aquele mundão d’água do velho Chico chegando. Estamos mudando a paisagem do semiárido”, comemora.