O homem volátil e a nova moral

Do livro “Amor Líquido”, do sociólogo Zygmunt Bauman, surgiu um texto que pipoca por aí, seguindo o mesmo teor do polonês, e que critica enfaticamente o mundo moderno: vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar! — diz.

Criticar o mundo moderno e “os vícios a que fomos submetidos pelo capitalismo” parece ter virado uma moda frequente e recorrente, principalmente entre os meios mais modernos de mídia que o capitalismo permitiu criar-se. Mas vamos lá, é fácil saber que não é bem assim, né?

A culpa dessa liquidez, segundo Bauman, seria da tecnologia a que nos amarramos, evitando assim o contato humano, por nosso próprio medo das relações reais. Culpa do individualismo, consumismo, dinheiro…capitalismo.

Curiosamente, apesar do grande sucesso do livro lançado em 2003, este texto circula ávida e livremente, justamente através da internet e é usado como forte argumento dos que usam este tipo de ideia, mais uma vez, para justificar o quão doente está o mundo atual, tadinho, por culpa, é claro, do capitalismo malvadão que nos transformou em produtos de nossos produtos.

PÁ! (efeito sonoro para valorizar a frase)

Longe de mim, obviamente, ter a ousadia de discordar do famoso, inteligentíssimo e gabaritado sociólogo, mas não me nego à audácia de seguir com minhas suposições a respeito do que bem entender, e uma dessas suposições diz respeito ao dito texto e à proporção messiânica que ele tomou.

Sob meu ponto de vista, diferente do que Bauman diz, os tempos líquidos se devem muito mais à frenética necessidade por uma contínua mudança moral do que à coitadinha da internet e da tecnologia, que são meros meios de propagação desta. Culpar a internet, nesse caso, seria como culpar a arma pelo tiro. Não resolve nada.

Esta liquefação dos valores decorre, principalmente, da quebra intransigente de tradições e paradigmas: se exigimos que nada se justifique através de preceitos comuns, objetivamos a necessidade de sermos absolutamente voláteis e volúveis.

Por este motivo não tenho receio de dizer que a segunda década do século XXI vai ser eternamente lembrada como a década do descaso com qualquer tipo de amarra moral. Não que isso seja bom ou ruim, pois a mim não caberá nunca o martelo da história, mas cá estou, apenas descrevendo um fato; vivemos a década de volatilidade moral, da sublimação humana e não do amor líquido. O próprio amor, por si só, foi mais um paradigma estilhaçado pelo rolo compressor do radicalismo amoral.

É justo e necessário, obviamente, que reformulemos e evoluamos nossas próprias estruturas culturais ininterruptamente, buscando justeza. Entretanto, devido à própria velocidade com que conduzimos nossa experiência da vida atual, essas mudanças tornaram-se uma exigência desenfreada mais maléfica do que beneficente.

Esta ideia de que devemos estar sujeitos à uma eterna renovação de toda a moral, tão logo ao nascermos, a ideia de que não existe, ou não deveria existir herança cultural agindo sobre cada tempo, como se houvesse uma renovação contínua ao ponto de zerar-se o sistema moral a cada parto, é o que permite o fator errante desta nova e nômade humanidade, e isso não é bom. Nada é referência, não há onde se apoiar. Não há nem mesmo o mundo ideal (de Platão) de onde possamos extrair anseios ou disposições de vontade: é cada um por si e Deus por todos.

O engraçado é que, na tentativa de coletivizar o mundo, a pobre consciência da Esquerda moderna jamais perceberá que só o que está conseguindo é nos individualizar aos expoentes máximos do egoísmo.

Como muito bem disse Ayn Rand (talvez não neste contexto), um dia perceberemos que a menor das minorias é o indivíduo. E desta forma, com a hipersegmentação criada pela atual diretriz da Esquerda, caminhamos para uma tentativa frustrada de coletivo, gerada a partir de arrogantes células individuais.

O que existe, pois, é uma apatia coletiva, insconsciente e generalizada, uma falta absoluta de identificação entre o homem atual, seu outro, e seu mundo. Ninguém é de ninguém, ninguém é ninguém, tudo ou nada é e tudo ou nada deixa de ser. Essa é a ordem.

É tempo de customização da moral, e embora sintamos estes efeitos de maneira mais forte na justa luta contra estigmas sociais e preconceitos, é impossível, pela própria imbecilidade e arrogância da natureza humana, que se esgote por aí: chegamos ao ponto onde cada homem é sua própria minoria, seu próprio povo, com seus próprios costumes, crenças e objetivos enquanto eu-coletivo; e o pior, muitas vezes em nome de toda uma coletividade que infelizmente só existe em nossos próprios devaneios auto-promocionais.

Nos tornamos todos Jim Jones na pregação frenética e suicida de uma amoral que é só nossa, mas queremos impor guela abaixo de todos. O homem se tornou uma máquina inescrupulosa de si mesmo por acreditar demais em sua humanidade superior e supranatural.

Agora entendam, isso é irrefutável e é o mais importante do texto todo:

a subjetivação de todos os conceitos, torna todo julgamento, inevitavelmente arbitrário.

Afinal, deixa de existir qualquer pressuposto moral, ético ou histórico que seja comum a todos e que sirva de base julgatória. O que jamais implica a futura inexistência de julgamentos. O que acontece agora, é que cada homem ainda mede o outro, mas baseado somente em sua própria régua.

E aí é tiro, porrada e bomba.

Isso leva o mundo a uma agressividade absolutamente maior, devido, em princípio, à pedra fundamental da nova moral, a que nos torna a todos, grandes ditadores boçais: estamos todos brandindo martelos, pedindo silêncio no tribunal, e acreditando que, desta forma, não pode existir maneira maior de execução da lídima justiça.

Por este lado, eu concordo com Zygmunt Bauman e culpo a tecnologia sim, pois embora eu não creia que ela tenha nos feito líquidos, sou obrigado a concordar com o Umberto Eco quando ele disse a célebre frase: a internet deu voz aos idiotas.

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