Código de Comando
Um som agudo e estridente penetrava em meus ouvidos enquanto acordava na cama. Aos poucos, a luz branca da lâmpada fluorescente tirava-me da minha cegueira. A sala era pequena e possuía paredes brancas. Ao lado da cama, um cabide com minhas roupas e uma escrivaninha com alguns objetos. Do outro lado da sala, uma privada, uma pia e uma porta metálica com sensor de identificação biométrica blindado completavam o cenário. Na janela fosca acima da cama, haviam duas figuras me observando.

-Olá? — Disse, na esperança de que pudessem me dizer onde estava e de como havia ido parar lá.
As figuras então se afastaram da janela. Desesperado, golpeei com a palma de minha mão o vidro, esbravejando que voltassem, sem sucesso e sentindo uma dor lancinante em minha perna esquerda. Uma ferida suturada abaixo na parte de trás de minha coxa pulsava em dor. Estava vestido com uma camiseta azul clara e uma calça de cor azul escuro. Por algum tempo, tentei manter a calma. Teria sido ferido e sequestrado? Decidi esperar por um tempo. Talvez em alguns minutos as figuras voltassem. Os minutos viraram horas e as horas começaram a parecer dias. Comecei a ter crises de ansiedade, nas quais espancava cada palmo de parede procurando alguma pista, saída ou esbravejando para que apagassem as luzes um pouco. Não sentia fome nem sede. Provavelmente haviam injetado algum suplemento alimentício usado nas guerras do Ártico. Elas permitiam que os soldados não sentissem fome por uma semana. Também era utilizada em campeonatos de MMO e nas principais bolsas de valores.
Foi então, em um momento que senti uma calmaria estranha (provavelmente por exaustão), que entendi que tudo poderia ser um mal-entendido. Acima do scanner biométrico, um pequeno broche metálico com o logotipo da polícia de Armada reluzia. Percebi então que estava em uma delegacia.
Não sei ao certo quanto tempo se passou depois desta descoberta. Talvez dias ou horas. Durante uma tentativa frustada de dormir, um som elétrico me fez pular da cama. A porta metálica se destravou e dois policiais fortes, acompanhados de outro policial mais magro, entraram. Nos observamos, em silêncio, por alguns segundos. Pareciam temerosos até que perguntei calmamente, tentando segurar minha aflição:
— Porque estou aqui?
— Senhor Mowkins, antes de tudo, peço que tenha calma. — respondeu o homem mais magro
— PORQUE ESTOU AQUI? PORQUE ME MANTIVERAM AQUI POR TANTO TEMPO? — berrei enquanto partia para cima do homem magro, sendo prontamente seguro pelos dois brutamontes.
De forma vagarosa e tranquila, o homem magro me respondeu:
— Acalme-se senhor, eu responderei tudo. Mas antes, preciso que me acompanhe. Precisamos fazer algumas perguntas.
Mesmo irritado e confuso com aquela situação, decidi ceder. Não tinha sentido ficar lutando contra dois brutamontes. E também eu não havia feito nada errado. Ou havia? Enquanto caminhava pelo corredor, vi um relógio digital que marcava 19:32, do dia 24 de agosto de 2027, uma quarta-feira. Isso não fazia sentido algum. A última lembrança que eu tinha era de ter ido dormir na sexta-feira após o trabalho. Como quatro dias puderam passar sem que eu percebesse ou me lembrasse de algo?
Ao chegarmos na sala de interrogatório, sentei-me em uma cadeira encostada em uma mesa, bem abaixo de uma luz forte. Ainda estava tentado trazer de voltas as memórias perdidas desses quatro dias. O policial magro parou na porta da sala e orientou os brutamontes a ficarem de olho pela janela fosca. Fechou a porta, encostou-se na parede do outro lado da sala e calmamente começou a falar:
— Senhor Mowkins, sou o inspetor Powel Libera, da Polícia de Armada. Creio que tudo isso deva estar sendo muito confuso para você, da mesma forma que está sendo para nós. Antes de fazer qualquer pergunta, lhe direi o que sabemos para que dessa forma você possa nos ajudar. Creio que, pela sua condição, mostrar os fatos talvez refresque um pouco mais sua memória e talvez dessa forma possamos identificar algum sentido para o que você fez.

— Hã? Condição? Como assim minha condição? O que eu fiz?
— Perda de memória e confusão. Isso já era esperado. Seu registros médicos apontam que o senhor sofre de uma doença chamada Síndrome de Korsakoff, que o impede de guardar lembranças de curto prazo. Acredito que o senhor não saiba quem seja, não é mesmo?
— É óbvio que sei. Meu nome é Richard Mowkins, tenho 28 anos, nasci em Norfolk e me mudei pra cá em 2018 para cursar ciência da computação na Universidade de Armada. Trabalho na WowTec como gerente de projetos.
O nome da companhia ecoou pela paredes metálicas da sala. O inspetor Powel arregalou os olhos por um instante, voltando a serenidade depois. O silêncio prevaleceu por alguns instantes. WowTec: A oitava empresa mais valiosa do mundo. Segunda maior no ramo de tecnologia. Apenas os mais geniais de cada universidade conseguiam um emprego lá. Produzia de tudo, desde celulares e televisores até armas e vírus zero-day utilizados na divisão de Ciberguerra do Ártico. O conhecimento ali era tão valioso que a ocupação de cargos era sigilosa. No registro de trabalho dos funcionários, colocavam um emprego comum em uma das mais de 80 empresas pertencentes ao grupo. Eu era um simples técnico de computador em um callcenter da cidade.
— Você possui o grão então?
Foi ai que tive um estalo. Estava ali a prova de minha inocência do que quer que tenha feito. O grão que o inspetor citou é tecnicamente conhecido Eletronic Meter of Intentions (Medidor Eletrônico de Intenções ou E.M.I.). Um pequeno chip conectado a rede da empresa, implantado próximo ao hipocampo, que teria como função detectar e medir as intenções de um individuo por meio de sua atividade cerebral. Todos os funcionários com cargos mais altos possuíam um grão. Era a forma da empresa impedir que houvesse espionagem ou venda de informação. Aparentemente, o chip apenas servia como um emissor desses registros de intenção. Os dados do grão eram mantidos em sigilo, apenas podendo ser acessados pelo funcionário que o possuía. Os únicos registros que a empresa tinha acesso eram os que indicavam sabotagem e espionagem, os quais eram verificados toda semana em um teste obrigatório que fazíamos na empresa. Apenas era preciso demonstrar os registros de intenção para provar que não havia motivo de estar ali.
— Sim, possuo. Veja aqui.
Mostrei a pequena cicatriz da cirurgia. Uma marca de um W e um T a acompanhavam, provando que era realmente um implante da WowTec. Ao ver o símbolo, inspetor Powel foi em direção a uma sacola que estava no canto da sala. Retirou de lá meu celular e estendendo-o em minha direção, disse:
— Me mostre seu registro então.
— Antes, preciso saber porque estou preso aqui. Esses dados são estritamente sigilosos e nem um mandato judicial tem o poder de abri-los desta forma. O que aconteceu? Porque minha perna está ferida?
O inspetor parou. Um aspecto melancólico invadiu sua face por um instante. Respirou fundo.
— Você realmente parece que não lembra de nada. Vou tentar refrescar sua memória. Na segunda-feira pela manhã, você e mais 3 pessoas assaltaram mais de 6 milhões de dólares do Banco de Armada. Entraram munidos de metralhadoras e explosivos. Arrombaram o cofre com termita. A polícia toda da cidade se mobilizou. Na troca de tiros, perdi 8 de meus homens, inclusive meu filho Ricky. Na tentativa de fuga do banco, um dos policias conseguiu atingir um tiro em sua perna, mas você não parecia sentir dor. Continuou correndo até desmaiar e cair na rua. Foi então que o trouxemos aqui.
— Ei-ei-ei. Calma. Um assalto a banco? Não é possível.
— Temos tudo gravado e muitas testemunhas, Richard. Inclusive identificamos seus outros três cumplíces.
O inspetor Powel me mostrou então três fotos, de dois homens e uma mulher. Todos também trabalhavam na WowTec. A mulher era Selina, que trabalhava na gerência de projetos de equipamentos médicos. Um dos homens era o Dan, que trabalhava na gestão financeira da empresa. O outro era um gerente do RH que eu não me lembrava do nome, mas tinha certeza que trabalhava lá.
— Sim, sei quem são todos eles, trabalham comigo. Mas nunca troquei mais de meia dúzia de palavras com nenhum dos três. Por que não me mostraram isso antes? Porque me mantiveram tanto tempo preso aqui?
— Após algumas horas de cuidado na enfermaria, você parecia ter retomado sua consciência, porém em um estado de transe. Ficou com os olhos abertos, sem responder a nada que perguntávamos. Pela noite, você tentou agredir um policial que estava de vigia e escapar. Fomos obrigados ate dar um tranquilizante, com medo que você tentasse fugir novamente. Foi então decidimos te manter no quarto-branco até que tivéssemos certeza que era seguro te interrogar. Agora, por favor, me mostre os registros de seu E.M.I.. Preciso entender melhor o que está acontecendo aqui.
Prontamente liguei meu celular e digitei minha senha. Abri o aplicativo do E.M.I. e digitei novamente minha senha para os registros. Lá estava todos as ações que havia feito nos últimos 5 dias. Fui rolando a lista de intenções até as 23 horas de sexta-feira, quando fui dormir. Lá estava, todo o planejamento e o crime que havia cometido. Desde a compra das armas, o planejamento da rota de fuga, a memorização da planta do banco, tudo. O que mais me chamou a atenção foram alguns comandos que indicavam que eu invadi a database do Hospital de Armada. Aparentemente eu havia mudado meus registros médicos e registrado que possuía a tal síndrome que o inspetor falou. Cada toque que dava na tela e arrastava meu dedo para cima me deixava mais temeroso. Eu não lembrava de nada aquilo. Fui até o fundo da lista novamente e a repassei completamente. Alguma coisa não estava certa ali.

Decidi checar o fluxo de envio. Foi então que entendi o que realmente havia acontecido. O pânico se alastrou por todo meu peito até minha nuca. Fiquei boquiaberto e com uma expressão de medo por alguns instantes, até que o inspetor Powel me perguntou:
— O que diz aí? Porque esta cara?
— Inspetor, não sei como dizer isso, mas aparentemente eu fui… hackeado.
— O que?! Como isso é possível?! Como você pode saber disso?!
— Olhando os fluxos de informação, não há nenhum envio de dados. Ao contrário, o fluxo indica que o chip recebeu comandos e de alguma forma os transmitiu para mim. Veja aqui.
O inspetor então leu os registros. Era a primeira vez que via aquilo. Não estava conseguindo acreditar, mas claramente aquilo era o que eu estava lhe dizendo: fluxos de comandos e não de envio. De forma seca, o inspetor disse:
— Temos que leva-lo para WowTec imediatamente. Você ainda corre perigo. Seja lá quem tenha feito isso com você, com certeza queria que pensássemos que você era louco mudando seus registros médicos. Agora tudo faz sentido para mim.
Sim, agora tudo fazia sentido. Mesmo no meio de toda aquela situação, me senti seguro com as palavras do inspetor. Ele agora acreditava em mim. Por um breve momento, dei um suspiro de alívio. Então meu celular vibrou. Olhei para a tela preta do aparelho. E lá estavam mais comandos sendo registrados pelo aplicativo.
Antes que pudesse abrir a boca para avisar o inspetor Powel, uma súbita fraqueza invadiu meu corpo e minha mente. Minha visão foi ficando turva e novamente o som agudo penetrou meus ouvidos. Senti o impacto de minha queda no chão. O zumbido abafava cada vez mais os gritos do inspetor, que parecia distante. A escuridão veio, em meio a uma enxurrada de zeros e uns.