Brasil 2018, “A Vida é Bela”

Trilha sonora: Buon Giorno Principessa — Nicola Piovani

2018. Nunca senti um clima tão pesado no Brasil como agora. No mundo a fora também, a polarização aumenta, divide, desfaz amizades, separam famílias, segregam etnias e grupos extremos ganham força, se fecham, se armam e disseminam esse separatismo através de ódio e violência.

Com a minha filha de um pouco mais de um ano de idade, me sinto, dada as devidas proporções como o personagem chapliniano de Roberto Benigni em “A vida é Bela”, onde meio que tento esconder essa realidade de disseminação de ódio, apologia às armas, ao separatismo e violência. Vejo o brilho do seu sorriso totalmente entregue, genuíno e me dói na alma, um dia ter que mostrar essa realidade que vivemos hoje.

O seu mundo é habitado por mim, sua mãe, seus avós, tios, primos, amigos próximos, Mickey Mouse, Bita, seus livrinhos e suas bonecas que as chama de “neneim”. Dentro dele há pureza, alegria, algumas broncas, claro, mas na maior parte do tempo, risadas e paz.

Vivemos todos dentro dessa bola azul, não há como fugir ainda para outro planeta, sistema solar ou galáxia. Precisamos conseguir coexistir dentro dele. A riqueza aumentando muito para apenas um por cento da população, a Apple se tornou a primeira empresa que vale mais de um trilhão. Um trilhão. Com bem menos que isso, tornaríamos muitos lugares miseráveis do mundo um pouco melhores. Não estou aqui pregando a utopia da igualdade, mas sim, a da dignidade. Todos merecem dignidade, porém isso há muito tempo é privilégio de quem tem dinheiro.

Um candidato com seus discursos insanos fazendo gestos de metralhadora, dizendo que vai fuzilar o partido adversário e seus eleitores, acabou despertando ódio em muitos que nem gostariam de senti-lo. Uma pessoa com um desequilíbrio psicológico afetada ou ofendida por esses discursos poderia a qualquer momento cometer um ato violento, como a facada.

A história do mundo é baseada em evolução e revolução. É preciso aprender a evoluir de dentro para fora e combater o fascismo diário dentro da gente como disse Foucault, através de nossas pequenas atitudes, nos olhares, gestos diferenciados com um homem branco bem vestido que fala bem, tem posição social alta em detrimento do pobre, preto, de chinelo, sotaques diferentes e outras formas sutis de fascismo.

Não queria levar esse texto para o caminho político, porém ando pensando muito em como as engrenagens no Brasil se encaixaram muito bem negativamente falando.

A maioria dos brasileiros é pobre, sai muito cedo para trabalhar e volta tarde da noite, precisando jantar, conviver um mínimo possível com sua família para dormir poucas horas e repeat. Me pergunto qual é o tempo que essa grande maioria tem para se informar sobre os detalhes que envolvem as políticas do país a seu favor ou não. É entre meias mensagens de rádio, tv e correntes de whatsapp durante ônibus, metrô, hora de almoço, que se criam as opiniões políticas. Não nos dão tempo para entender e nem querem isso.

Trazendo o assunto de volta para a paternidade, eu e minha mulher pretendemos mostrar a realidade do mundo à nossa filha por mais terrível que seja, na esperança de ela fazer uma diferença positiva, ou sem pressão, ao menos leve leveza por onde passar. A minha geração, onde muitos cresceram nessa primeira onda de condomínios fechados, hoje são adultos, pais e se acostumaram com exclusividade. Isso fez com que muitos dessa geração queiram exclusividade na vida fora dos muros do condomínio também. Com isso, começam as diferenças, a busca por mais privilégios em cima dos outros, e esse sentimento é passado para os seus filhos também. Não somos apenas responsáveis pelos nossos filhos, somos responsáveis pelo mundo.

Este texto saiu porque precisava sair, olhei para o word em branco e este assunto entalado aqui não me deixava sair do lugar pois ando preocupado com o pensamento “Foda-se” de uma grande parcela da sociedade com relação ao próximo. Apesar dos pesares, do peso do mundo e a incerteza de como os ventos soprarão, aqui em casa “A Vida é Bela”.