Uma mente condicionada com medo de ser feliz

Ulisses Freitas
Sep 4, 2018 · 3 min read

Trilha sonora: Fragile Bird — City and Colour

De vez em quando me bate uma saudade da rotina de trabalho. Interessante como quando se está vivenciando a situação, a rotina pesada, entrava às sete da manhã no escritório e saía no mínimo às dezessete horas, o ritmo frenético de ser multitask, sob pressão de todos os lados, tudo que eu queria era estar em casa com a minha filha, com tempo de sobra para viver de forma mais lenta dando valor ao que hoje em dia está cada vez mais escasso de se ter. Tempo.

Conversei com alguns ex-colegas de trabalho esses dias e todos foram super carinhosos dizendo que sentem saudades da minha amizade e da minha gestão e, com isso, eu também acabei sentindo saudades da união da equipe que mesmo sob a pressão diária era sempre guerreira e empática.

Parece que devido à eu ter vivenciado o ambiente corporativo por quase vinte anos até aqui, fiquei condicionado a viver pressionado e, hoje, sem isso, às vezes sinto uma certa culpa, “não é possível que está tudo bem!”, “não estão me cobrando mais”, “estou muito bem com minha mulher, minha filha e minha família”, “tá certo isso?”.

Pois é, a vida nos cobra tanto que chegamos a nos sentir culpados quando tudo está funcionando como sempre almejamos. Lógico que tem muito mais por vir, tenho infinitos anseios, quero viver muita coisa ainda, mas dentro do planejado para este momento está realmente acontecendo.

Acompanho de perto a evolução da minha filha o tempo todo. Desde seus movimentos até as questões mais psicológicas como suas atitudes, o que funciona ou não, o que eu e minha mulher precisamos mudar também. Vem sendo um momento único. Está fazendo seis meses que pedi demissão com o propósito de estar mais perto da minha filha e me dei conta disso hoje. Seis meses apenas, que longe da rotina empregatícia parecem infinitos em certos momentos.

Conversei com minha mulher a respeito disso, enquanto observávamos nossa filha e ela disse “fala pro pessoal da sua ex-empresa que se pagarem no mínimo o dobro você pode pensar em voltar, olha que você perderia!” apontando para nossa pequena que criou um hábito de uma fofura extremamente irritante de pegar um livrinho e folheá-lo como se estivesse realmente lendo. Algo que desde que ela era muito novinha viemos implementando, mostrando livrinhos, contando historinhas e, hoje, ela faz isso sozinha muitas vezes. Algo que, talvez, se eu estivesse trabalhando ela não teria essa vivência e teria outros interesses.

A saudade da rotina de trabalho às vezes bate, não me engano com isso, porém são meros lapsos que minha mente ainda condicionada me prega, pois a afinidade que tenho com minha filha conquistada nesses seis meses é algo sem preço, que carregarei para sempre comigo.

Eu e minha mulher temos uma rotina de dar banho na Maria sempre juntos, ouvindo uma música calma a preparando para dormir pois é um momento de união familiar, interação, conversas e comentei com minha mulher que só de pensar que ela está crescendo eu já sinto saudades dessa nossa rotina. Um momento totalmente “mindfullness”, de paz de espírito, união e amor.

Ilustração por Soosh

Talvez quando ela não precisar mais desses cuidados de bebê, eu precisarei voltar ao escritório para preencher esse espaço, ou… ter mais filhos (?!)… Sei lá. Que loucura, né.

Pai que fica em casa

Devaneios de um pai que pediu demissão para ficar com sua filha em seus primeiros anos

Ulisses Freitas

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"...mas nada foi em vão, deixei minhas pegadas pelo chão. E hoje eu sei o quanto errei e o quanto andei pra encontrar meu lugar" - Shambala

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