Abóbora

Abóbora é um desses fenômenos da natureza incompreensíveis, um furacão, um terremoto, uma onda gigante.


Conheceram-se em uma situação absurda. Ele a observava nas viagens de ônibus de ida e de volta, até que um dia se aproximou dela. Teve receio de assustá-la, como seria a reação de qualquer pessoa sensata, mas isso ela não era, e por toda a falta de sensatez dessa história, sensato serei eu lhe apelidando “Abóbora”.

Abóbora é um desses fenômenos da natureza incompreensíveis, um furacão, um terremoto, uma onda gigante. Toda a lógica e filosofia, de Sócrates a Foucault, entram em auto-combustão ao simples contato com ela. Pegue todo o entendimento do pensamento humano e o jogue no lixo. Ela simplesmente é. Simplesmente caminha. Simplesmente retorna olhares. E o resto se move em volta, ou em harmonia, ou em desespero.

Logo foi tragado para o olho castanho claro daquele furacão, o pequeno. De vítima não tinha nada, era bem o que ele queria mesmo, o danado. Todas as voltas que deu não lhe causaram mal estar nenhum. Era como uma criança entusiasmada subindo e descendo em uma montanha russa amaldiçoada e mal assombrada.

Mal assombrada, sim, e em determinado momento surgiu seu grande fantasma. Fazia meses, anos, décadas talvez, aquele furacão o pertencia. Enquanto girava, o pequeno sabia que não seria para sempre (como nada é) e que não andaria naquela montanha russa novamente depois que o brinquedo decidisse parar.

Fantasmas não têm nome, e se têm, o melhor é ficar sem saber, mas o pequeno não teve esse direito. Abóbora o apresentara pessoalmente. O nome era desimportante, o mesmo de um jogador de futebol do Flamengo. Era grande, era, mas etéreo e indiferente. Mais uma entidade distante do que propriamente um companheiro. O pequeno não o teme.

Abóbora, em contrapartida, sempre fora muito física, talvez até totalmente física, uma manifestação da matéria, sem espírito, sem escrúpulos, sem limites. Complementavam-se, provavelmente.

O fato é que houve um domingo, fim de campeonato carioca, em que Abóbora foi ao encontro do pequeno, e ela já não girava mais como antes, e já não mais olhava o pequeno com os mesmos olhos castanhos de antes, e já não mais escrevia textos apaixonados para ele como antes, e já não se importava mais mesmo. O pequeno já esperava por esse momento, e triste não ficaria, mas levou para o encontro as raspas de esperança que conseguiu tirar de si próprio. Ele tinha argumentos fortes, propostas interessantes, e o mesmo brilho nos olhos da primeira vez.

Mas aí o mundo já não se importava tanto com isso. Nos 45 do segundo tempo, era gol do Flamengo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.