Eu Sou

What Am I? por Andreea Tears no deviantart.

Eu sou.

Eu sou aquele moleque descendente de africanos escravizados e de ibéricos colonos, da favela e do subúrbio.

Aquele que arrancava o tampão do dedo chutando bola no asfalto, mas que também desgastava o direcional analógico do videogame. Fruto da década de 90.

Aquele pirralho que sempre teve medo de Deus e do diabo. Que orava por ter nascido em pecado. Que se sentia culpado por adorar obras do inimigo como… Digimon ou Shurato.

Eu sou.

Aquele que nunca foi bom da cabeça. Era emetofóbico. Via alguém vomitar e já achava que ia morrer. Enquanto não esquecesse a cena, ficava sem comer direito.

Aquele que sempre soube que suas amizades de infância seriam para o resto da vida. Que nunca foi acostumado com a solidão.

Aquele filho único que tem várias meias-irmãs que nunca pode conhecer direito até ficar mais velho.

Eu sou.

Aquele garoto de colégio particular, da rebeldia sem causa, do vandalismo por hobby.

O garoto sensível da escrita, dos poeminhas, mas também o sacana da boca suja, do desaforo, da falta de vergonha.

O não correspondido. Desleixado, pouco popular, esquisito.

Aquele que foi aprendendo a usar a razão para lidar com o pânico e a ansiedade. Transformar pensamentos em palavras, melancolia em frase escrita.

Eu sou.

Aquele rapaz do primeiro amor adolescente. Do sentimento inocente. Do grupo de amigos do pré-vestibular.

O típico suburbano perdido na cidade grande. Morador da Zona Onírica paralelepipedizado na selva de pedra, areia e sal.

Talvez por muito mais um pouco eu teria morrido de desgosto, se não tivesse fugido da Nacional.

Eu sou.

Aquele que por mais de um ano ficou refugiado por causa dos próprios demônios.

Aquele que veio parar aqui na Rural meio sem querer querendo. Fez o ENEM só para dizer que tentou, e quando viu já estava matriculado.

Aquele que, depois de um relacionamento com o divino tão sufocante, enfim conseguiu pedir um tempo a Deus para ver se valia a pena. E não valia.

Eu sou.

Aquele que resolveu escrever uma história de ficção inspirado pelo relacionamento que teve com uma de suas exs, e não satisfeito com isso, a publicou.

Aquele que por duas vezes se apaixonou por noivas. A primeira, prometida a Deus; a segunda, não.

Aquele que, por overdoses de futuro e de passado, tenta apenas se concentrar no presente. Planejar às vezes é um esforço vão. Relembrar às vezes é perfurar feridas já cicatrizadas por razão alguma.

Aquele que prometeu jamais prometer.

Eu sou.