Texto sofre de insuficiência criativa e morre

Os parágrafos não acreditam em morte natural e culpam o lide


O óbito foi confirmado após a revisão e edição do texto durante o fechamento do expediente. O vigor criativo do falecido já vinha sofrendo há algum tempo, segundo a autópsia. “Estamos arrasados’’, disseram os parágrafos finais, que apesar do resultado do exame, acionaram a semântica para investigar o caso. Segundo os amigos do texto, o lide teve papel fundamental na tragédia. “A edição foi só o golpe de misericórdia’’, afirmou o terceiro parágrafo. A avaliação semântica ainda está investigando o caso sob sigilo.

Primeiro, lhe tomaram seus adjetivos, assim, sem nenhuma boa razão. Depois disseram a ele quais advérbios empregar. A tragédia era inevitável. Agora ele é só mais um número, mais um defunto. É só isso que importa para os outros. Poucos viram o último brilho de seus olhos como eu vi. Havia tanto potencial nele, tantas metáforas ainda não escritas.

Foi triste vê-lo, já no fim sôfrego pela vida, invertido daquele jeito. Seus órgãos vitais movidos e repostos de ponta-cabeça. A culpa foi do lide, claro. A edição foi só o golpe de misericórdia. Tão logo a monstruosidade fora feita, a alma do texto já partira, e o corpo já começara a desfalecer.

Estamos arrasados.

Estamos arrasados.

Estamos arrasados.

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