Analisando dados da OD 2017 III: as mulheres e seu uso de aplicativos de transporte

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Oct 11, 2019 · 8 min read
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Divulgação/99

O estudo da demanda por transportes nas cidades muitas vezes deixa de lado importantes diferenças derivadas de comportamentos distintos entre grupos sociais. É cada vez mais consensual, no entanto, que diversos fatores urbanos afetam a escolha modal — e o fazem de maneira diferente em cada grupo. A questão de gênero, por exemplo, é uma das mais importantes.

Uma vez que as atividades realizadas e as condições sociais das mulheres são muito distintas das dos homens é natural que essas idiossincrasias se reflitam em padrões próprios nos deslocamentos cotidianos; evidenciá-los não só ajuda a endereçar questões sociais de igualdade, mas também pode contribuir no melhor planejamento dos transportes urbanos.

Assim, com a intenção de analisar as diferenças nos padrões de comportamento de mulheres e homens no uso de aplicativos, a Equipe de Políticas Públicas da 99 apresenta seu terceiro artigo da série com os dados da última Pesquisa Origem-Destino (OD) do Metrô de São Paulo.

Nos primeiros textos, buscou-se entender mais do perfil multimodal do usuário de aplicativos e da relação do uso de aplicativos com a posse do automóvel. Agora, a ideia é expandir essas e outras análises para compreender melhor o uso de aplicativos por mulheres. Mulheres fazem mais ou menos viagens por aplicativo que homens? Por quais motivos elas usam esse serviço em comparação com outros modos de transporte? E quais as diferenças no perfil das mulheres que utilizam este serviço? Essas são as questões que este texto abordará a seguir.

Nos últimos anos, mais pesquisadores e pesquisadoras vêm se debruçando sobre a questão de gênero no transporte urbano. Esse tema já foi abordado em nosso Medium anteriormente. Uma das principais pesquisas sobre o tema (1) usou os dados da Pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo, realizada desde 1977, para mostrar, dentre outras coisas, as diferenças nos deslocamentos de homens e mulheres na Região Metropolitana de São Paulo.

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Figura 1: Evolução histórica da divisão modal por gênero na Região Metropolitana de São Paulo. Fonte: Svab (2016, p. 115)

É possível ver pelo gráfico que, apesar das alterações ocorridas desde 1977 na divisão modal, algumas diferenças de gênero permanecem constantes, como o predomínio de viagens com modo “dirigindo automóvel” feitas por homens. Enquanto isso, viagens individuais como “passageiro” (seja de táxi ou de carro particular) sempre foram predominantemente feitas por mulheres.

É razoável imaginar que alterações na oferta de transportes nas cidades também refletem e impactam o comportamento de homens e mulheres ao se locomoverem na cidade de maneira diferente. Com o surgimento dos aplicativos de transporte nos últimos anos, é natural que este serviço também apresente particularidades referente ao gênero dos usuários, e é interessante explorá-las.

Para verificar como o cenário apresentado na Figura 1 evoluiu até a atualidade (incluindo o surgimento do novo modo de aplicativos de transporte), foram utilizados os dados da Pesquisa Origem-Destino de 2017. Os Gráficos 1 e 2, abaixo verificam a nova divisão modal da RMSP e as respectivas diferenças entre gêneros:

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Gráficos 1 e 2: (1) Divisão modal por gênero e (2) Percentual de viagens de mulheres e homens feitas por táxi e aplicativos de transporte

No primeiro gráfico, é possível verificar padrões parecidos com os apontados na tendência histórica, com a predominância de deslocamentos masculinos nos modos “dirigindo carro” e “dirigindo moto”, bem como a maioria feminina nas caronas desses dois modos e nos meios de transporte utilizados como um serviço (ônibus, trilhos, aplicativo e táxi). No segundo, foca-se especificamente na proporção de viagens dos “carros compartilhados” (táxi e aplicativos), mostrando que 1,19% das viagens de mulheres são feitas por aplicativos, enquanto apenas 0,57% das viagens de homens utilizam este modo.

Observando-se apenas as viagens feitas por aplicativo de transporte, a divisão de gênero é de 68% de mulheres — uma diferença maior do que a do táxi, que já apresenta uma proporção historicamente elevada, de 63%. Esse número mostra que os aplicativos de transporte já se fazem um modo de transporte importante e presente nos deslocamentos cotidianos das mulheres na RMSP.

Após analisar as diferenças na proporção de viagens feita por mulheres para cada modo de transporte, seguimos para análises mais aprofundadas, a fim de entendermos melhor o uso de aplicativos por elas. É importante compreender qual é o perfil das mulheres que mais utilizam aplicativos ou em que situações este uso é mais intensivo, comparando diretamente com o uso de homens.

Buscamos, primeiramente, compreender os motivos de viagens feitas por mulheres em carros chamados por aplicativos. Depois, foi feita uma análise de perfil socioeconômico por gênero das viagens feitas por aplicativo para entender, por exemplo, se mulheres residentes em bairros centrais ou periféricos fazem mais viagens, proporcionalmente.

Para iniciar, o Gráfico 3, abaixo, apresenta o percentual de viagens de aplicativo que é feito por mulheres, para cada motivo presente na OD e em comparação com o geral. Por exemplo, 62% das viagens de aplicativo com motivo “educação” foram feitas por mulheres (contra 38% de homens), enquanto 55% de todas as viagens com esse motivo foram feitas por elas.

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Gráfico 3: Percentual de viagens de mulheres em viagens feitas por cada motivo em aplicativos e no total de viagens da RMSP

Como mulheres são maioria entre usuários de aplicativo, é esperado que em todos os motivos de viagem existam mais viagens de mulheres que de homens. Entretanto, alguns motivos chamam a atenção pela sua diferença relativa a outros modos, por exemplo, “assuntos pessoais” e “compras”.

Também é importante notar a predominância relativa do motivo “trabalho” com relação a outros modos de transporte. Na média geral, um dos poucos motivos que possui mais viagens de homens do que de mulheres (43%) é o “trabalho”. No entanto, entre viagens de aplicativo, viagens de mulheres seguem sendo absoluta maioria (66%), mostrando como uma diferença social pode se sobrepor à motivação da viagem na escolha do modo.

Isso nos levou a uma terceira análise que segue a mesma lógica da anterior, porém, em vez de dividir os grupos de acordo com o motivo da viagem, eles foram divididos de acordo com a situação familiar. Assim, calculou-se o percentual de viagens de aplicativo realizadas por mulheres em cada grupo de pessoas de uma mesma situação familiar e comparou-se com a média geral de todos os modos de transporte, como mostra o Gráfico 4, a seguir:

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Gráfico 4: Percentual de viagens de mulheres em viagens feitas em cada situação familiar em aplicativos e no total de viagens da RMSP

O ponto mais notório do gráfico é como são mais representativas as viagens femininas feitas por aplicativos entre responsáveis pelas famílias: 63% delas são feitas por mulheres, enquanto, em outros modos de transporte, mulheres representam apenas 36%.

Assim, nessas duas análises é possível verificar como aplicativos são parte importante nos deslocamentos de mulheres que o utilizam mais do que homens para quase todo motivo e condição familiar, mas, especialmente, para trabalhar e quando são chefes de família.

Uma pessoa atenta pode apontar que as diferenças presentes nas análises anteriores podem derivar de diferenças de renda: mulheres chefes de família podem ter mais renda e, por isso, utilizar mais aplicativos. Para a última análise realizada, então, buscou-se verificar a proporção de uso de aplicativo para diferentes perfis socioeconômicos, a fim de entender em que classes sociais o uso de aplicativo por mulheres, em comparação com homens, é mais relevante.

Primeiramente, observou-se a diferença nessa variável nos diferentes quintis de renda familiar. O resultado pode ser visto no Gráfico 5, abaixo:

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Gráfico 5: Percentual de viagens de mulheres em viagens feitas em cada situação familiar em aplicativos e no total de viagens da RMSP

Por esse gráfico é possível ver que mulheres são maioria entre usuários de aplicativo em todas as faixas de renda, sendo mais presentes, porém, em uma faixa de renda intermediária-baixa (entre R$ 1750 e R$ 3210 mensais), onde superam 70% das viagens realizadas.

Posteriormente, calculamos os mesmos índices dividindo os grupos espacialmente. Assim, calculou-se o índice percentual de viagens de aplicativo realizadas por mulheres para quatro agrupamentos de área, listados abaixo e mostrados nos Mapas 1 e 2, a seguir:

  1. Área compreendida dentro do centro-expandido da capital;
  2. Área da capital externa ao centro-expandido;
  3. Município de São Paulo;
  4. Outros municípios da Região Metropolitana.
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Mapa 1: Representação geográfica das áreas 1 e 2 utilizadas para as análises espaciais
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Mapa 2: Representação geográfica das áreas 3 e 4 utilizadas para as análises espaciais

Os percentuais de viagens de aplicativo realizadas por mulheres para cada uma destas áreas estão representadas no gráfico abaixo:

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Gráfico 6: Percentual de viagens de mulheres em viagens de aplicativo feitas em cada uma das regiões analisadas

Fica claro, então, como relativamente, os aplicativos de transporte são mais importantes no deslocamento de mulheres em regiões periféricas ao invés de regiões centrais, como o centro-expandido da cidade de São Paulo.

Dessa forma, tanto a análise de renda, quanto a abordagem espacial mostram que os aplicativos são mais relevantes entre mulheres em regiões cuja renda média não é elevada, mas sim, em regiões periféricas de renda média-baixa.

Neste último artigo da série explorando os dados da Pesquisa Origem-Destino 2017 do Metrô de São Paulo, buscou-se analisar as principais diferenças de uso de aplicativos de transporte entre mulheres e homens. A ideia é que estas informações sirvam de fonte para novas discussões sobre gênero no ambiente de transporte urbano.

Dessa forma, neste artigo evidenciou-se que:

  • Assim como outros modos de transporte que são utilizados como serviço (ônibus, táxi, passageiro de carro), mulheres são absoluta maioria em viagens feitas por aplicativo (68%) na RMSP, o que mostra como este modo de transporte é importante no cotidiano das mulheres da região;
  • Relativamente, mulheres utilizam mais aplicativos de transporte para trabalhar do que homens. Além disso, uma proporção grande das mulheres que utilizam aplicativo são chefes de família;
  • Mulheres são maioria dos usuários de aplicativo em todas as regiões e faixas de renda, mas estão relativamente mais presentes em estratos sociais de renda média-baixa e em regiões periféricas, como outros municípios da RMSP.

Svab, H. (2016). Evolução dos padrões de deslocamento na região metropolitana de São Paulo: a necessidade de uma análise de gênero (Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo).

Para onde vamos?

Reflexões sobre mobilidade urbana no Brasil.

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