"Escutando" indicadores técnicos no bitcoin

Todos têm a resposta para "De onde viemos"? A pergunta da vez é: "para onde vamos"?

Felipe Gaúcho Pereira
Jan 21 · 8 min read

O texto a seguir é trecho de um relatório que cobre o bitcoin de setembro/2018 a janeiro/2019. Siga @paradigmaBR no Twitter para updates.

Acesse o documento completo→https://docsend.com/view/upkge86

A fonte de dados primária para as análises é a blockchain do bitcoin. Emprestamos interpretações e gráficos de Woobull.com, da Coinmetrics, da Delphi Digital, de David Puell e Renato Shirakashi; além de termos usado ferramentas do TradingView e da Blockchair.

Durante o ano de 2018, o bitcoin oscilou entre ~U$17.5 mil (máxima atingida em janeiro) e ~U$3.1 mil (mínima atingida em dezembro). Abrangendo uma queda superior a 80%, a trajetória pode ser dividida em duas etapas. A primeira, de janeiro até novembro, engloba todo período que o bitcoin passou acima dos ~U$5.8 mil (valor do fundo da primeira grande queda do ano): a distinção de comportamento foi notável, principalmente em função de uma volatilidade historicamente baixa, que deu tom de monotonia a um dos ativos sabidamente mais voláteis do mundo.

Sucessivas altas decrescentes se estenderam por meses. Junto à menor volatilidade histórica e um volume decrescente, culminaram no rompimento da até então mínima do ano. Este movimento deu origem à segunda etapa. Em 14 de Novembro, contrastando com o período precedente, o bitcoin apresentou uma sequência de quedas violentas até atingir mínima em 15 de Dezembro. Foram 31 dias que trouxeram de volta a imprevisibilidade, e lembraram de que a volatilidade “adormecida” era passageira. A intensidade do movimento fez o Indicador de Força Relativa (RSI) atingir um valor diário sem precedentes — sugerindo condição extremamente sobre-vendida.

Contrato de swap perpétuo de Bitcoin/USD da Bitmex (diário); volume; índice de volatilidade histórica da Bitmex; RSI. Fonte: TradingView, até 15/jan/19.

Veremos adiante uma série de indicadores extraídos diretamente de atividades na blockchain do bitcoin. Estes podem ser úteis para jogar luz sobre em qual momento e fase de ciclo o ativo se encontra, quando em comparação com evidência histórica. Em suma, o $BTC parece estar à beira de um processo de acumulação ao longo do qual precisa de tempo e volume para retomar condições condizentes com as que engatilharam ciclos altistas passados.

A análise de UTXOs (II.a) sugere que suporte importante de preço foi encontrado na queda de novembro, com pressão vendedora de moedas antigas se exaurindo. O MVRV (II.c) estima que donos de bitcoins estejam amargando, na média, uma perda de 25% — nível que condiz com as mínimas históricas do indicador.

Por outro lado, indicadores como o NVT e o Network Momentum (II.b) indicam espaço para retrações maiores durante o período de acumulação, uma vez que níveis de atividade on-chain ainda distam de patamares que sustentaram reversões anteriores.

II.a. Análise de UTXOs

A transparência da blockchain nos permite determinar a “idade” de cada bitcoin (quando foi minerado, ou movido pela última vez). Analisar a “idade” de moedas circulantes na rede nos ajuda a entender mudanças no perfil de participantes ao longo do tempo (tecnicamente, moedas já são “agrupadas” na memória coletiva da rede em UTXOs, o que é um detalhe técnico que não aprofundaremos aqui).

Na imagem abaixo, a linha preta denota o preço do bitcoin em escala logarítmica, enquanto a linha verde representa a % de UTXOs de bitcoin que não se moveu nos últimos 365 dias. Moedas paradas há no mínimo um ano. Os “quadros 1” indicam aumento na quantidade relativa dessas moedas (holders crescendo) enquanto os “quadros 2” indicam os patamares de preço em que estas moedas foram adquiridas (futuros holders comprando o rally recente).

Porcentagem de $BTC circulantes com mais de 1 ano sem movimentação (em verde) e preço do $BTC em escala logarítimica (em preto). Fonte: Delphi Research.

Em seguida, introduzimos linhas que representam moedas que se moveram pela última vez em 1–2 anos (linha laranja), 2–3 anos (linha verde clara), 3–5 anos (linha roxa), 5+ anos (linha azul clara). Vale ressaltar que declínios nas linhas podem acontecer abruptamente, mas aumentos precisam de tempo para se materializar. Uma moeda só pode migrar para a linha imediatamente “mais velha que a sua” (e para as subsequentes com o tempo) ou para a mais linha “mais nova” de todas, o que acontece abruptamente quando é movida.

Um zoom-in no gráfico nos ajuda a ter ideia a respeito das fontes primárias de pressão vendedora durante os últimos meses, no $BTC. A imagem abaixo foca no período entre março/2017 e o fim de 2018.

Podemos presumir que relevante força vendedora na queda mais recente advém de donos de moedas que vinham imóveis há 3–5 anos [2]. Esforços de venda parecem ter se aproximado de esgotamento, a julgar pelo achatamento das linhas referentes a grupos mais antigos no gráfico [1 e 3], além do fato de que a linha referente a moedas com mais de 1 ano de imobilidade encontrou um chão no primeiro semestre de 2018 [4]. No segundo semestre de 2018, esse mesmo grupo (moedas imóveis há mais de 1 ano, linha verde) adentrou trajetória de crescimento [4], em sintonia com o grupo de 1–2 anos (linha laranja), mas ainda se mostra bem distante do último topo perto dos 60%. Grupos de moedas mais velhas permanecem no mesmo nível relativo (vale ressaltar que boa parte das moedas com +5 anos de imobilidade são $BTC perdidos).

O padrão dá a entender que estamos no meio de um processo de acumulação, similar ao da segunda metade de 2014 — que culminou com o fundo do ciclo de baixa correspondente. Alguns analistas apontam para possíveis correlações entre a amplitude das faixas no último ciclo de baixa e no atual, projetando um eventual fundo no final do primeiro trimestre de 2019 ou início do segundo. Achamos prematuro buscar tais correlações, até porque o primeiro ciclo de baixa do bitcoin se desenvolveu de maneira (e em contexto) bem diferente.

Vale ressaltar que esse método de análise tem pouquíssima história. Na nossa visão, a evidência empírica é relevante por iluminar pressões vendedoras, ajudando a compreender quando começam a se abater e eventualmente cessam.

II.b. Valor de mercado / Transações (NVT) e Momentum

O NVT (Network Value to Transactions) é uma métrica obtida ao se dividir a capitalização de mercado do Bitcoin pelo valor em U$ fluindo diariamente pela blockchain. Pode-se compará-la ao price-to-earnings de ações, onde o faturamento denota a utilidade criada por uma empresa para seus acionistas. Aqui, a ideia é usar volume transacionado como uma proxy para “valor capturado pela rede”. O NVT Signal é um indicador que deriva do NVT e enfatiza o caráter preditivo das variações na métrica original. O gráfico abaixo plota sua evolução ao longo da última década.

Apesar da subida constante apresentada pelo NVT Signal ter sido interrompida no fim de 2018 (círculo azul, acima), este ainda encontra-se na faixa de 100 (eixo da esquerda, no gráfico), o que sugere uma sobrevalorização no preço do bitcoin. Como referência, capitulações passadas (2013 e 2014) viram o indicador, em mais de uma ocasião, cair até 5 — fato que aconteceu uma vez, somente, no começo de 2018 (triângulos vermelhos, no gráfico).

A queda relevante no NVT Signal ao longo dos últimos 2 meses adveio de um pico de volume que deu falso sinal bullish nesse ciclo de baixa, mas logo se revelou, mais que qualquer coisa, produto da volatilidade. O movimento dos U$6.000 a U$3.000 gerou muita troca de moedas on-chain mas não parece sinalizar verdadeiro volume de acumulação.


Network Momentum é uma métrica que denota o valor transmitido pela rede do Bitcoin, em $BTC, e o compara com o preço do BTC em dólares. Lembremos que aqui nos referimos a volume de transações on-chain, e não em bolsas — incluindo atividade especuladora.

Em retrospecto, o indicador sustentou faixas mais ou menos estáveis nos ciclos de alta de 2013 e 2016–17. Nota-se que o “nível saudável” de momentum a engatilhar um ciclo de alta foi mais alto em 2015 do que em 2012. Uma razão plausível é a de que há mais moedas em circulação — significando uma “capacidade” cada vez maior para volume de transações em $BTC — e levando a crer que o patamar que engatilhar o ciclo de alta subsequente deve ser ainda mais alto (na casa dos 250.000 $BTC/dia — sendo que estamos atualmente perto de 160.000 $BTC/dia).

Bitcoin Network Momentum. Fonte: WooBull.

II.c. Valor de mercado / Valor realizado (MVRV)

O MVRV compara a capitalização de mercado do $BTC com o preço somado das moedas em circulação na última vez em que cada uma foi movida. Quando MVRV > 1, o preço atual é maior que o valor realizado” das moedas em circulação” — pessoas estão no lucro, na média; quando MVRV < 1, pessoas estão tendo prejuízos na média, se venderem no ato. O MVRV sugere “uma camada final” de custos cumulativos de participantes do mercado, e, na história recente (2015), uma espécie de ponto de controle para a força vendedora (linha verde inferior no gráfico abaixo).

Valor de Mercado / Valor Realizado (MVRV). Fonte: CoinMetrics.

O indicador coincidiu com fundos de preço no ciclo passado quando o valor de mercado do $BTC beirou os 0.75 do valor realizado (linha verde) — faixa em que a métrica se manteve por quase um ano antes de uma nova arrancada nos preços. No fim de 2018, depois de bom tempo na faixa dos 1.25, o MVRV caiu pela primeira vez nos últimos anos para o patamar de 0.75, antes de sutil recuperação. Não vemos razão técnica para contestar a possibilidade de que o MVRV permaneça em torno dessa faixa por alguns meses. Pode-se argumentar pelo caso de que ele ainda tem fundos novos a testar (como fez em 2015), mas, por outro lado, não se deve tomar patamares no gráfico como níveis estáticos. Se assumirmos que o bitcoin deve ser menos volátil conforme amadurece com o tempo, é prudente supor que o MVRV, no longo-prazo, deve fazer fundos mais altos por estar convergindo rumo ao valor de 1 (significando pouca ou nenhuma diferença entre o preço que o usuário médio paga na compra e aquele que recebe na venda de suas moedas).

[continua]…

Leia o relatório completo aqui→https://docsend.com/view/upkge86


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Felipe Gaúcho Pereira

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Partner @ Paradigma Capital; co-founder @ Paratii

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