Conversa de bar

Por Letícia Parron

Em um dia quente típico de cidade do interior, saí com os amigos para uma rodada de cerveja e boa música. Escolhemos um barzinho pequeno, arejado, na área boêmia da cidade.

No caminho, várias buzinas e nenhuma seta, típica coisa de sorocabano. Próximo ao bar, nenhuma vaga, mas em fração de segundos surge uma pessoa. Com um uniforme amarelo, o indivíduo começa a gritar: “Estaciona aqu. Posso dar uma olhada no carro, moça?” Eu nunca tenho moeda, mas talvez seja falta de educação dizer não. Respondo sim. Já dentro do bar, fico pensando na desculpa que vou dar pra ele.

Como todo dia no bar, a bebida é gelada e a conversa sem censuras. Em determinado momento, um ser humano soltou: “E a política?”. Pasmem, nem todos estão aptos a discutir esse assunto demonizado na roda. Ou se estão, começam a voar farpas. Nesse dia a discussão não foi petralha versus coxinha, surpreenda-se.

A conversa girou em torno de um comentário feito sem muito pudor: “Tudo nesse país é um lixo”, disse uma menina de vinte e poucos anos sem muita história para contar. Se mesmo criticando o Brasil, você ainda o ama, provavelmente se incomoda com uma frase dessa. E a nossa música, cultura, diversidade, superação?

Ela continuou a falar. Em sua rede social, só dizeres na língua inglesa. Seus ídolos, todos do exterior. Suas roupas e histórias para contar foram importadas por alguns mil dólares. As viagens para os Estados Unidos da América são feitas mais ou menos três a quatro vezes por ano, mas ela não faz ideia em que lugar do mapa está o Acre.

Tudo isso passou pela minha cabeça em uma fração de segundos, durante a conversa naquela mesa do boteco. Mas todos balançavam a cabeça e concordavam com todos os verbos, substantivos, adjetivos proferidos. Sim, você está certa. Sim, a política está um caos. Sim, o Brasil não tem mais jeito.

Eles desistiram. E se não desistiram possuem ideias retrógradas para tirar a terra onde cantam os sabiás do buraco. Oh, não. Por favor não comecem com ideias para a política e economia do país. Começaram.

Fico em silêncio. Ignoram a história do nosso país Brasil. Escravocrata, colonizado, desigual, preconceituoso. Esquecem, porque pensam ser o centro do mundo.

Brasileiro não aceita ser brasileiro. Brasileiro que quer ser norte-americano, canadense, europeu. Tudo menos miscigenado, multicolorido, com jeitinho de sobrevivência, calor, dor e muito a evoluir.

Brasileiro talvez não queira descer no espaço imenso, salvar o olhar humano, como o albatroz. A menina era assim. Fechou e arrancou o pendão dos ares. Fechou a porta da nossa pátria Brasil.

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