Entrevista com
Claudio Feijó


Entrevista por Julio Boaventura Jr, Manuela Rodrigues e Marcela Jones


O fotógrafo Claudio Feijó fará o aclamado workshop
"Descondicionamento do Olhar"

nos dias 25 e 26 de setembro durante o 11º Paraty em Foco.
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Conversar com Claudio Feijó é uma experiência transformadora. Sempre gentil, nos recebeu para a entrevista ainda um pouco cansado por causa do tratamento médico que tem enfrentado. Ao longo da conversa, enquanto relembrava histórias de como se envolveu com a fotografia e dividia conosco suas reflexões sobre a área, ele parecia melhorar. E apesar de não se considerar fotógrafo, ficou claro que Feijó vive a fotografia.

Qual foi seu primeiro contato com a fotografia?

Acredito que vamos sendo esculpidos devagar pela vida. Sempre lembro muito do filme “Quem Quer Ser um Milionário?” (2008) onde o personagem responde tudo de acordo com as experiências que já viveu.

Meu pai sempre fotografou minha família, mesmo sendo uma atividade ainda bem cara na época. Me lembro quando depois de muitos dias, ele chegava em casa com as revelações e todo mundo corria pra pegar as fotos, mas ninguém ligava pros negativos. Por outro lado, eu ficava espantado de pegar os envelopes e olhar aquelas tirinhas em preto e branco com as mesmas imagens das fotos. Aquilo me encantava.

Com seis anos de idade, ganhei uma câmera 8mm francesa. Com ela me lembro até hoje de uma foto que fiz na avenida Rebouças perto da Henrique Schaumann, com minha família toda na porta da casa de um tio. Me imagine no meio da Rebouças tirando uma foto com a minha pequena 8mm, ali eu me apaixonei.

Assistir o filme “Blow-up” (1966) do Michelangelo Antonioni também me marcou muito. Ver o personagem ampliando aquelas fotos e descobrindo um crime no parque, pra mim foi decisivo. Revelar as fotos, os mistérios por trás das imagens me encantam até hoje. Logo depois do filme, como tinha algum dinheiro guardado, fui a uma loja e comprei tudo que precisava pra começar a fotografar e revelar.

Fotografias de Claudio Feijó

O que o levou a fundar uma das primeiras escolas de fotografia do Brasil, a Imagem-Ação?

Eu tinha 4 irmãos. O mais velho morreu, então ficaram três, a Beth, o Lula e a Thaís. Ficamos órfãos de mãe cedo e como passei a ser o filho mais velho ficava de olho em todos os outros, em espacial minha irmã Beth que era muito quieta e introspectiva. Então resolvi pagar um curso de fotografia pra ela. Assim poderia conhecer mais gente, conversar e se expressar melhor.

Nessa época também montei no fundo de casa um estúdio com fundo infinito e um laboratório, bem melhor do que aquele primeiro que comprei depois que vi o filme. Como tinha essa estrutura legal, minha irmã trouxe a turma do curso dela pra fazerem práticas lá. Eu mesmo não fazia nada, era o metido [risos], dono de tudo, só fiz o cenário.

A Beth foi estudando, evoluindo e virou uma ótima professora. Desde essa época ela sempre se voltou muito mais para a técnica e eu acabei indo para o lado da linguagem, que era mais fácil pra mim. Linguagem é mais mentira, mais especulativa, o que eu inventasse valia. E fui inventando!

Mas no fim acabei seguindo para o lado da educação, me formei em pedagogia e abri uma escola, um grande supletivo no Ipiranga. Que depois praticamente doei para um amigo quando minha irmã, querendo expandir sua atuação, me chamou pra abrir uma escola de fotografia.

E sua atuação como fotógrafo?

Nunca fui fotógrafo na vida. Minha mulher ainda acha que sou fotógrafo, mas preciso contar pra ela que não sou [risos]. Pra mim, você pode estar envolvido com comida e não ser cozinheiro e com a fotografia é a mesma coisa. Sempre fui muito curioso em relação a tudo isso. Tive a escola Imagem-Ação que chegou a 300, 400 alunos por semestre. Foi uma escola que formou grandes nomes, como Jr. Duran, Cássio Vasconcelos, João Wainer, e vários outros.

Eu nunca soube muito de técnica, só o básico, fui aprendendo no caminho. Como revelar filme colorido, por exemplo, quando ninguém no Brasil tinha escola de ampliação em cor ainda. Na época chamei um cara forte nesse mercado, mas ele me deixou na mão, então eu mesmo tive que aprender pra poder ensinar nas aulas.
E foi em uma sala de aula também que entendi que não era fotógrafo. Foi uma situação bem inusitada, uma aluna fez alguma pergunta e eu comecei a chorar. Ela não entendeu nada, mas naquele momento eu entendi tudo. Eu vim pra isso, pra comunicar, para trazer para as pessoas uma expressão mais espontânea. Mas não sou fotógrafo.

Existem fotografias minhas em acervos por aí, é verdade. Mas analisando bem, só fiz fotos em 90, 91 e 92 praticamente. Igual o Raduan Nassar, autor do romance Lavoura Arcaica, que fez três livros e nunca mais escreveu. Eu já vendi fotos por muito dinheiro e acho até engraçado tudo isso. Não acredito que alguém queira comprar uma foto minha por um valor tão alto, apenas porque é uma Polaroid, única. De qualquer forma, como não dá pra fazer cópias, cada foto que vendo eu perco uma do meu já pequeno portfólio [risos].

O que é a fotografia pra você?

“Sempre achei que fotografia é política, ela tem que mexer com a sociedade, tem que trazer informação pra que você mude, que você repense o que está fazendo.”

E não só beleza. Mesmo que a beleza e a estética de forma mais ampla tenham uma função também. Mas acho que a fotografia abre essa possibilidade de trazer o invisível que você projeta nela. Então, não acredito na boa foto, acredito no bom leitor, na pessoa que consegue olhar e interpretar a imagem.

Há pouco tempo encontrei um ex-aluno da minha escola Imagem-Ação. Na época, ele tinha alguns problemas, e me mostrou um trabalho que adorei. Era um trabalho totalmente esquizofrênico, desfocado e tremido, mas incrível. E quando o vi depois de muitos anos, ele chegou perto de mim e falou: “você soube me acolher, foi por sua causa que hoje eu consegui fazer alguma coisa na fotografia.” Foi a fotografia que o transformou e deu sentido pra vida dele.

A fotografia pode ser um balde de poço, que tira de você coisas profundas. Mas ela não é controlável. E por mais que você queira controlar, não tem jeito ela é sempre interpretativa. Então, como a foto não está dita, você pode dizer várias coisas que mudam com o tempo, porque seu repertório também muda.

Por fim acho que temos que trabalhar a coragem das pessoas. Gosto muito de contar que a palavra “coragem” vêm de outras duas, “ação” e “coração”. E quando você está nesse estado de “ação do coração” você consegue se abrir pra essa experiência artística, que é o tempo inteiro dinâmica, nunca estática.

Como você vê a relação entre o fotógrafo, a câmera e a imagem?

“Pra mim o verdadeiro fotógrafo não se esconde atrás da câmera. O fotógrafo está no meio, entre a cena e a câmera. Filosoficamente falando, fotógrafo é o que vem aqui na frente e interpreta o que vai pra câmera.”

Outro dia fui construindo um pensamento sobre em que momentos se é fotógrafo e cheguei em quatro principais. Primeiramente na hora que ele dispara a câmera, no clique. Esse é o momento em que é feita a captação, que se junta uma massa de imagens.

Fotografias de Claudio Feijó

Mas tem um segundo momento em que também se é fotografo, na edição, quando ele separa uma imagem da outra, e diz: “isso eu quero e isso eu não quero”. Quando ele põe os critérios novamente, depois que já colocou na coleta inicial do material.

O terceiro momento é o acabamento, onde ele põe o corte, escolhe o tamanho da foto, a moldura, define se vai pro portfólio, como vai, folha solta ou folha junta, porque tudo isso dá uma dinâmica diferente. Porque quando a foto é pequena você tem que se aproximar, mas se a foto é grande tem que se distanciar, e tudo isso é linguagem.

E por fim, considero como o quarto momento a generosidade. A hora em que o fotógrafo deve se distanciar da foto, largar mesmo e não ficar querendo que os outros aceitem e validem. Porque hoje a maioria dos fotógrafos, principalmente esses mais profissionais só querem ser autores. E pra mim a autoria é umas das coisas que acabam com a criatividade na fotografia, devido a essa falta de generosidade.

O que você pensa sobre a produção massiva de imagens na atualidade?

Dou aulas em um curso para o desenvolvimento de projetos autorais e pelo segundo ano pedi para os alunos me trazerem não mais que seis fotos selecionadas. Eles entram em pânico, me perguntam: “Qual critério? Como vou selecionar apenas seis imagens?” E respondo “não sei”, o exercício é inventar critério. Pode ser uma foto diferente da outra, ou qualquer coisa do tipo. O que eu queria saber era do critério e não das fotos.

Um dos meus alunos respondeu uma vez que era impossível, e quando eu perguntei por que, ele disse que tinha 56 mil fotos guardadas. Lembrei de um conto do Ítalo Calvino, “A Aventura de um Fotógrafo”, do livro “Os Amores Difíceis”, que fala do Antonino, um fotógrafo que fotografava tanto que na verdade não fotografava.

“Então parto do principio que fotografia é critério. Fotografia é justamente você pegar pedaços, e se você fotografa muito, você não tira pedaço de nada.”

Como você vê alguma coisa com 56 mil fotos? Ok, é possível selecionar, separar por tema, mas é um desespero. Estamos vivendo nessa era da velocidade, numa ansiedade muito grande. Acho que Deus nos abandonou. Ninguém fala pra parar. Então o que tento é dizer esse “para”, não pode fotografar tanto. É preciso de menos, porque se faz muito e não se faz nada, não tem essência, só aparência.

Além dessa questão das imagens, qual a maior dificuldade que você vê na formação de novos fotógrafos?

Percebo dois tipos de fotógrafos hoje. O primeiro deles eu até gosto. Um tipo totalmente inconsequente e ensimesmado. Não estuda nem conhece nada. Vai fazendo e não pergunta pra ninguém. E o segundo é o cara que quer ser o melhor fotógrafo de um dia pro outro, por atalhos.

Fotógrafos tem uma mania de querer fazer uma foto, pra uma foto boa. No cinema é preciso fazer vários takes para escolher o melhor. Os fotógrafos gostam de fazer uma pra uma. Se fizer duas pra escolher a melhor, ele já acha que não é bom fotógrafo. Com essa ideia de querer ser certeiro, a pessoa desconsidera a possibilidade de editar, escolher. Ele não percebe que editar também é fazer fotografia, ele só sabe que faz parte do pacote.

Eu tenho uma teoria de que geralmente os fotógrafos perdem uma boa foto por dois “As”: o da ansiedade e o da ambição.

“A ansiedade o leva a clicar a foto antes da hora. E por causa da ambição de querer fazer algo incrível, ele deixa o momento passar. Então como saber quando fazer o clique? Pra isso, é preciso estar presente, cem por cento presente.”

Um fotógrafo precisa então de muita dedicação?

Dedicação, fazer mais e abaixar a crista. Não adianta ficar buscando um estilo. Estilo a gente faz depois que passa por ele, é natural, as vezes seu estilo é a coisa mais esdrúxula do mundo.

Então, outra coisa importante e que tento levar com o workshop “Descondicionamento do Olhar” é a liberdade, inclusive de libertar os fotógrafos dos leitores de portfólio. Porque muitos deles falam sobre si mesmos e não do trabalho que está sendo mostrado. Por isso também não se pode acreditar plenamente no que te dizem numa leitura de portfólio. Já vi destruírem muitos talentos nessas críticas. Acho até que é preciso ter um curso de formação de leitores de portfólio.

Você faz leituras de portfólio?

Li pouquíssimas vezes. Não gosto, acho perigoso, porque nessas situações a pessoa vai mostrar o melhor dela.

Considero que durante a leitura é preciso conduzir esse aluno (“aluno” que vem do latim “sem luz”). Você pega o aluno que “não tem luz” e dá uma chama para o cara. Acho que o bom leitor de portfólio tem que ser um pouco leitor de tarot, tem que antever o caminho. Tem que ser bom, por isso não pode ser qualquer um.

Uma vez fiz uma leitura de portfólio que tinham três horas disponíveis. Eu usei metade desse tempo apenas para conversar sobre fotografia, para os fotógrafos saberem o que penso e pra que eu também conhecesse o que eles pensam sobre fotografia. Os organizadores ficaram aflitos e eu dizia que se sobrassem cinco minutos pra ler o trabalho de cada um, era suficiente. Não precisa mais que isso, porque aqui nessa conversa já foi lido, já foi falado.

E o que você pode nos falar sobre o workshop “Descondicionamento do Olhar”, que você dá há mais de 30 anos e vai fazer novamente no 11º Paraty em Foco?

Descondicionamento do Olhar com Claudio Feijó

Acho que não precisa explicar, ninguém lê o que tá escrito no site. Aquele texto tem mais de vinte anos e nunca tive coragem de mudar, porque tanto faz. A verdade é que o “Descondiciona-mento do Olhar” tem um nome muito sedutor, então as pessoas só ouvem o nome e já querem fazer.

Também sempre me perguntam se eu não vou mudar o workshop, e respondo que não, tenho medo de mudar. Também sou condicionado. O dia que eu não for, o curso acaba.

Mas quando você faz esse workshop em empresas, como explica a proposta?

Nessas horas mando a minha filha Tatiana Feijó ir na frente, porque se eu for, perco o cliente [risos]. As empresas não querem correr riscos, eles querem é controlar a gente, muitos RH’s solicitam o passo a passo antes de contratar.

Tenho um roteiro básico, mas o que mais faço é ouvir. Consigo parar e ouvir uma pessoa por horas. Ouvir de verdade, sem fingir. Acho que por isso que sou terapeuta. Nos momentos em que eu “fujo”, é porque estou querendo dar um recado.

Então eu chego, converso e conto um pouco da história, mas a experiência é principalmente vivencial. E as pessoas também tem medo disso, porque tem que levantar a bunda da cadeira. Sempre deixo bem claro que quem não quiser participar ou se sentir ameaçado pode ir embora. Se pagou eu não devolvo o dinheiro, porque a decisão de fazer foi da própria pessoa, mas eu deixo fazer outra vez, quando se sentir mais preparado, e de graça.

Quem se dispõe a ir até o fim, gosta da experiência? Você recebe bons retornos?

No workshop a gente constrói uma inteligência do grupo. Outro dia eu li em uma revista que a criatividade não é pessoal, ela é do grupo, como se quando você criasse alguma coisa, virasse o Chico Xavier. Todos os elementos que você aprendeu descem na sua alma naquele instante, mas você é só o veículo.

Descondicionamento do Olhar com Claudio Feijó

Em relação aos retornos, tenho muita aflição se a pessoa vem agradecer a mim, porque eu não fiz nada. Não quero que ninguém me diga que sou legal, não me interessa isso. Ao mesmo tempo eu também não consigo dizer isso direto pra pessoa, parece grosso. Por e-mail é mais fácil, eu escrevo “não, você já tinha tudo isso dentro de você, você tropeçou numa pedra, num gatilho e deu no que deu, eu sou essa pedra.” Não tenho controle sobre as pessoas. Cada um vai ser o que é e o que consegue. Porque as vezes também não consegue apenas em um workshop, pode demorar anos pra entender. Outro dia recebi um e-mail de um cara que fez o workshop vinte anos atrás dizendo que ainda tem ficha caindo [risos].

O workshop é aberto a todos os públicos?

Antes era mais para fotógrafos, mas hoje é aberto pra todo mundo. Gente de cinema, de outras artes, profissionais liberais, qualquer um. No Paraty em Foco mesmo acho que pode ser um ótima oportunidade pra quem não quer fazer algo tão técnico, ou vai acompanhando algum amigo(a), namorado(a), enfim deixo o convite a todos que estiverem por lá.


Vai ficar de fora dessa experiência?
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A edição do blog do 11º Paraty em Foco
é de Érico Elias e do
Oitenta Mundos .