*Domingo, 30 de Novembro de 2016, 11h. Sala do Diretor Executivo de Futebol da S.E Palmeiras, Centro de Excelência.

- Mattos?

- Fala, Cuca. Entra aí, fica a vontade

- Ficou chique isso aqui, hein?

- É rapaz, é tudo novo, de ponta, só o melhor. Acho que semana que vem os jogadores já vem visitar.

- Muito bacana mesmo. Mas viu, a gente precisa conversar..

- Imaginei. A família respondeu?

-Pois é…

- Não vai dar mesmo?

- Não vai, rapaz…eu fiz o que você pediu, dei um tempo para eles pensarem, mas a Rê falou que combinado não sai caro.

- Poxa Cuca, que pena. Tamos com o centro aqui, conversei com o destaque do Atlético da Colômbia lá, o Guerra, com o Felipe também, tá quase tudo certo.

- Felipe?

- Melo, volante.

- Rapaz, esse é bom. Pode segurar o meio pros meninos, e ainda tem a saída de bola.

- Imagina com o Borja lá na frente, então.

- Borja? Mas já tá certo? E o Pratto?

- Que nada. O Pratto foi só pra mostrar pra eles que se bobearem mais ninguém vai pagar 30 milhões no cara.

- A não ser a Leila.

- Exato. Fora que já dei uma ideia nele que um craque como ele não pode se contentar com China, que nada.

- Cê é bom mesmo, hein, Mattos.

- Ah, procuro ser. Tô trazendo uns caras calejados também. O Bigode tá mal com a torcida lá em Minas, o Michel Bastos também tá mal aqui do lado.

- Aí junta com os três meninos lá…

- Isso mesmo. Vai ficar bom o negócio.

- Ai só falta um lateral esquer-

- Já disse pra você que com lateral a gente não mexe. E pronto.

- Ok, ok, desculpe, quem sou eu, tô saindo mesmo.

- Sobre isso, tenho uma proposta para você.

- Ah, lá vem ele.

- Calma que essa é boa. Você sai agora mesmo, vai lá pra sua família, pro seu sitio, descansa. Enquanto isso, a gente traz um cara novo, desses estudiosos, curso da CBF e o caralho. Ele treina o time bem treinadinho, faz linha de 4, marcação por zona, essas coisas.

- Mas treinador novo? Com esse elenco? Essa pressão?

- Não aguenta.

- Ma-mas, e aí?

- Aí você entra, meu querido. Chega com todo mundo já em ritmo de jogo, sabendo o rendimento dos reforços, onde colocar quem, ele vai deixar tudo acertadinho, e sem pegar mal para você por ter tirado férias, que eu inclusive acho um direito seu.

- Olha Alexandre, é tentador, mas não é certo…

- Ah! Esqueci de dizer que até lá a gente se livra do Barrios.

- Maio, Junho tô te ligando, então. Até

- Até.

*Este texto é obviamente uma obra de ficção. Mas se você contar as histórias dos últimos jogos da Libertadores também vai parecer….

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A Demissão

A demissão de Eduardo Baptista, por incrível que pareça, vai na contramão das atitudes tomadas com técnicos nestes últimos tempos do País. Há, neste caso, uma máscara da demissão pós derrota, que faz parecer aquelas em que o técnico, com dois meses de clube, na corda bamba, garantido após uma ilusória goleada na primeira fase do Copa do Brasil, cai após uma derrota em clássico ou num 2 a 0 para o Avaí em casa na terceira rodada do Brasileirão.

Por trás dela, no entanto, tem a tão cobrada análise de desempenho. Queria antes pontuar aqui que eu não demitiria, prefiro meus técnicos por uma temporada inteira (mesmo que os últimos tenham sido Felipão e Gilson “Pinguim” Kleina). Mas não tenho como dizer que ao olhar para o desempenho e tempo de trabalho, a demissão de Baptista tenha sido completamente injusta.

Melhor campanha do Paulistão? Sim. Primeiro lugar no grupo e classificação encaminhada na Libertadores? Também. Esta é uma situação reversa do que geralmente ocorre na dualidade resultado x desempenho, em que o primeiro esconde o segundo.

Desde dezembro no Palmeiras, Eduardo fez, até o primeiro jogo contra a Ponte, tudo o que TINHA de fazer. No entanto, não foi capaz de dar sua cara ao time, em cinco meses de trabalho e com direito a pré-temporada e o escambau. A cara de equipe lutadora, aguerrida, que ganhou os jogos épicos que provavelmente deram sobrevida ao comandante, essa já existe desde a Copa do Brasil de 2015. E ao contrário dos últimos 10, 15 anos, não é possível reclamar do elenco (a não ser da lateral esquerda, mas depois falamos disso).

Ao contrário, o Eduardo desconfigurou a equipe sólida do título brasileiro, tentando, de maneira justa, trazer suas idéias ao campo. Essas idéias você pode ver aqui e aqui, e o que deu errado aqui e aqui. Um time organizado, sim. Mas cujo desenho pouco fazia diferença, especialmente no primeiro tempo.

É bom dizer também que o elenco, cuja gerência é muitas vezes usada como desculpa para uma fritada, aparentemente tinha simpatia e confiança no ex-treinador. Talvez ele só não tivesse sua liderança.

Cuca já é alvo, apesar de fazer seus costumeiros joguinhos. Se confirmada, sua volta será muito comemorada pela torcida, assim como muito diferente. Novos desafios, novos jogadores, novas cobranças. Eu vou gostar, mas tenho um pé atrás. O roteiro do ano do Palmeiras me parece as vezes estar chegando ao seu ato da confrontação…