Por que ninguém gosta do RH?

Sejamos sinceros: a maior parte das pessoas que não é de RH não gosta do RH. Se precisassem tirar uma área da empresa, boa parte votaria no RH. O RH é chato. Só aparece quando tem problema. O RH não entende o negócio. O RH é burocrático. O RH só tem psicólogo-mala e por aí vai. Ok, peguei pesado na parte dos psicólogos, mas sabemos que isso povoa o imaginário de algumas pessoas.

Na minha vivência em Recursos Humanos, como cliente, business partner, fornecedora e consultora, já ouvi todas as frases acima e me pergunto: se essa imagem já virou lugar comum por que não mudamos essa realidade ainda?

“Mas é claro que estamos fazendo esforços nesse sentido!”

Sim, isso é verdade. Diversas empresas já perceberam essa falta de conexão do RH com o negócio e já realizam ações para tornar a área de Recursos Humanos mais estratégica. São práticas que tem dois objetivos: aproximar os profissionais de RH do negócio e profissionalizar as entregas de RH, com métricas e metas objetivas.

Acredito que essas ações elevam a qualidade da entrega e conseguem fazer com que a voz de Recursos Humanos seja mais ouvida, mas ainda assim o distanciamento permanece.

Desconsiderando os conflitos naturais do negócio e até mesmo uma certa competição, áreas como o Comercial, o Financeiro, Marketing, Supply Chain, entre outras, atuam em pé de igualdade. Dependendo do setor de atuação da empresa, uma pode ser mais estratégica que a outra, mas suas opiniões e impactos são considerados em qualquer discussão, inclusive são necessários. E quantas vezes você não ouviu alguém falar, depois de uma acalorada discussão de negócio: “Hum…precisa envolver Recursos Humanos. Vamos falar com o fulano do RH.”

A sensação que fica é que o RH não agrega. Ele só será envolvido no momento de operacionalizar algo e não como parte da construção de uma decisão, e eu enxergo duas razões para que a área continue estigmatizada.

Mania de terceirização

Talvez esse motivo nem seja a razão direta para o cenário que vivemos, mas vale uma reflexão. Uma das áreas que mais terceirizam suas atividades é o RH. São consultorias e mais consultorias que fazem desde o desenho da cultura organizacional até treinamentos e processos completos de recrutamento e seleção.

Entendo que essa terceirização seja necessária quando os processos têm grande volume de operação, mas o que incomoda é a terceirização da criação do conceito de processos-chave da área.

A expertise e o conhecimento do que de fato gera impacto está fora da empresa. “Mas o RH conhece o negócio, a consultoria agrega com a especialidade técnica”. Acredito que deixar totalmente na mão de uma consultoria a construção do conceito e do processo que embasa a seleção de uma empresa é semelhante a uma área de Finanças que terceiriza o planejamento financeiro. O RH perde força quando não possui expertise interna ou quando se apoia quase que completamente em consultorias externas para criar os processos-chave da sua área.

Isso só reforça o RH como uma área operacional e não estratégica.

Se mais processos-chaves forem desenvolvidas dentro do próprio RH, provavelmente as outras áreas do negócio seriam mais envolvidas nessa construção, melhorando a percepção do que Recursos Humanos faz. Sabe aquela história de que ninguém sabe o que RH faz? Então, talvez não saibam porque está sendo feito fora de casa.

Quem é o RH?

Aqui acredito que minha proposta seja ainda mais ousada.

Hoje em dia o RH já é mais heterogêneo no quesito formação dos profissionais. Administradores são facilmente encontrados nas áreas de Gestão de Pessoas, assim como alguns engenheiros e comunicólogos, mas talvez seja necessário dar um passo a mais.

A integração entre Recursos Humanos e as outras áreas de negócio precisa ir além da relação baseada nos processos de RH. É preciso haver troca e é preciso criar uma cultura em que a pessoa de RH de fato consiga agregar no negócio do seu cliente interno.

Vamos a alguns exemplos: imagine a área de Marketing, que lida diariamente com conceitos de marca e entende a importância do design e da construção de mensagem na comunicação. E agora imagine o profissional de RH que atende a essa área enviando um convite para um treinamento em Word. Mal formatado. Nada atrativo. Pode ser o profissional mais incrível de RH, mas toda sua bagagem profissional pode não ser suficiente para ele ser reconhecido como estratégico por esse público.

Outra situação: como a área de TI vai encarar um profissional de RH que por vezes vai até a mesa de um de seus clientes internos para pedir ajuda quando o mouse quebra ou para desbloquear um aplicativo no celular novo? Afinal, eles são de TI, não é mesmo?

Trazer o RH para perto do negócio na verdade pode significar levar o negócio para RH.

É buscar profissionais que tenham uma formação similar àquela da área de atendimento e formá-lo nos processos de RH necessários. É poder levar um business partner de TI para uma reunião em que ele de fato compreenda o que está sendo tratado e tenha uma opinião relevante. É encontrar alguém que fale a língua dos marqueteiros e possa traduzir RH de forma que agregue.

Buscar no próprio negócio ou na área técnica os profissionais que terão o papel de RH, traz inclusive um olhar crítico sobre o que a área de Recursos Humanos pode agregar ou não, quais os processos são efetivos para esse público ou não, e quando e como o negócio precisa de RH.

Pode parecer uma quebra de paradigma grande e até mesmo algo que levará tempo, afinal não tem muita gente pensando em sair da sua área e ir para RH, mas depois de viver na pele o papel de uma publicitária como RH de Marketing e de observar outros colegas de trabalho, percebi que não adianta ensinar a língua de RH para o negócio. O RH é que precisa aprender a língua do outro e enquanto não fizermos esse movimento continuaremos sendo a área “estratégica” mais operacional de todas.

Originalmente publicado em Passa no RH!