Andrea Uccini

Elena Ferrante: “Mesmo hoje, depois de um século de feminismo, nós não podemos ser inteiramente nós mesmas”

Tudo tem sido codificado em termos da necessidade masculina — mesmo nossa lingerie, práticas sexuais, maternidade

Como princípio, eu me recuso a falar mal de outra mulher, mesmo se ela tenha intoleravelmente me ofendido. É uma posição que eu me sinto obrigada a tomar precisamente porque estou bem ciente da situação das mulheres: é a minha, eu observo isso em outras, e eu sei que não existe nenhuma mulher que não faça um enorme e exasperante esforço para chegar até o fim do seu dia. Pobre ou rica, ignorante ou educada, bonita ou feia, famosa ou desconhecida, casada ou solteira, trabalhadora ou desempregada, com ou sem filhos, rebelde ou obediante, somos todas profundamente marcadas por um jeito de ser no mundo que, mesmo que reivindiquemos como nosso, é envenenado desde a raiz por um milênio de dominação masculina.

Mulheres vivem entre permanente contradições e obrigações insustentáveis. Tudo, tudo mesmo, tem sido codificado em termos da necessidade masculina — mesmo nossa lingerie, práticas sexuais, maternidade. Nós temos que ser mulheres de acordo com papéis e modalidade que deixam os homens felizes, mas nós também temos que confrontá-los, competir em lugares públicos, fazê-los mais e melhores do que eles realmente são, e tomar o cuidado de não ofendê-los.

Uma mulher jovem pela qual eu tenho muito carinho me disse: é sempre um problema com os homens, que eu tive que aprender a não carregar isso comigo. Ela quis dizer que ela se treinou para não ser bonita demais, inteligente demais, compreensiva demais, independente demais, generosa demais, agressiva demais, agradável demais. O “a mais” de uma mulher produz reações masculinas violentas e, além disso, a inimizade de outros mulheres que, todo dia, são forçadas a lutar entre si pelas migalhas deixadas pelos homens. O “a mais” dos homens produz admiração geral e posições de poder.

A consequência é que não apenas o poder feminino é sufocado mas também, pela segurança da paz e do silêncio, nós sufocamos a nós próprias. Mesmo hoje, depois de um século de feminismo, nós não podemos ser inteiramente nós mesmas, não pertencemos a nós mesmas. Nossas imprefeições, crueldades, crimes, virtudes, nosso prazer, nossa própria linguagem são diligentemente inscritas na hierarquia masculinas, são punidas ou louvadas de acordo com códigos que não pertencem realmente a nós e, portanto, nos esgotam.

É uma condição que facilita nos tornarmos odiosas para outros e para nós mesmas. Para demonstrar o que nós somos com um esforço autônomo, é requerido que nós mantenhamos uma vigilância implacável sobre nós.

Então eu me sinto próxima de todas as mulheres e, às vezes por um razão ou por outra, eu me reconheço nas melhores assim como nas piores. É possível, pessoas me dizem vez ou outra, que você não conheça nenhuma desgraçada? Eu conheço algumas, claro: a literatura está cheia delas e a vida real também. Mas, considerando todas as coisas, eu estou do lado delas.

Traduzido do inglês, da tradução de Ann Goldstein: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2018/mar/17/elena-ferrante-even-after-century-of-feminism-cant-be-ourselves