A Odisseia Jalapão
Teimamos em conhecer o parque do Tocantins e não nos arrependemos jamais
DESLUMBRAMENTO: estado de espírito de quem é tomado por viva admiração; encantamento.
Ficamos eufóricos e até meio sem jeito… Agradecemos uns aos outros, olhos nos olhos e sorrisos nos rostos sujos de poeira; nos abraçamos e nos preparamos para entrar no Fervedouro Bela Vista.
Pedimos licença à família que já estava ali e ouvimos as recomendações: Não pular para não machucar a nascente, não levar areia embora, permanecer em grupo com no máximo 10 pessoas, não fumar, beber ou comer naquela área e tempo de permanência controlado.
Entramos! E foi muita felicidade e sensação de batalha vencida, em um dos lugares mais lindos e especiais que tivemos a oportunidade de conhecer.

Quisemos experimentar. Batemos mil vezes os pés no chão, próximos às bordas arredondadas do fervedouro, para sentir a areia dura feito piso liso no chão — efeito da pressão da água. Depois mergulhamos para pegar essa areia fina, branca e brilhante e vimos ela se espalhar nas nossas mãos, o oposto da dureza anterior. Passamos a areia na pele, fizemos esfoliação, brilhamos ao sol.
Apostamos corrida de um lado ao outro, e também dando a volta completa pelas bordas. Nadamos estilo cachorrinho e de costas, admirando a mata verde, o bananal e os buritis ao redor da piscina natural.
Caminhamos para o centro do fervedouro e sentimos o chão de areia dura sumir de repente. Quase caímos na nascente, o que descobrimos ser impossível… ela não deixa nada afundar, nos joga de barriga para cima. Pode até se equilibrar, quase em pé, mas ali no centro é muita areia fina em movimento, em uma mistura quase homogênea que parece mesmo estar fervendo sem parar, embora a água seja fria.



A gente estava explodindo de alegria, aí chegaram Gilson e Hugo, dupla mineira parceira que conhecemos na segunda atolada na estrada. Conversamos, rimos dos percalços do caminho e tiramos fotos na Go Pro de um deles. Parecemos amigos desde sempre, mas havíamos nos conhecido poucas horas antes.
Nosso tempo também foi controlado, mas contamos bastante com a empatia da família que administra o Fervedouro Bela Vista. Eles viram quando chegamos no Fox Raposinha e ficaram surpresos, ouviram sobre a nossa odisseia de Palmas a São Félix e gostaram da gente, deixaram a gente ficar na água mais ou menos uma hora.


E, com tempo, também conversamos com a família de paulistanos que já estava ali quando chegamos. Ao contrário de nós, que havíamos acabado de chegar, eles estavam no Jalapão há uma semana e conheciam grande parte das atrações. Fecharam um pacote com guia/motorista para percorrer o parque em uma caminhonete 4x4, como a maioria dos turistas, e estavam hospedados ali na Pousada Bela Vista. Eles foram legais com a gente, conversamos sobre as viagens e os lugares… mas uma das mulheres da família não parava de reclamar.
Reclamava de tudo. Da demora para percorrer aquelas distâncias nas estradas de areia, da areia, de sacolejar no carro, de quase ter caído na cachoeira da Formiga… Reclamou de tudo mais de uma vez. E aquilo nos incomodou… “Poxa, em um lugar maravilhoso! Se ela soubesse como foi para chegarmos até ali…” Eu, Pedro e Bruno nem íamos falar nada, os mineiros estavam só observando, mas a Jéssica deu um piti bem conveniente e colocou ela para pensar.
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ODISSEIA: longa perambulação ou viagem marcada por aventuras, eventos imprevistos e singulares; narração de viagem cheia de aventuras singulares e inesperadas; travessia ou investigação de caráter intelectual ou espiritual.
A gente queria ir para o Jalapão, mas não podia contratar guia ou motorista, alugar carro 4x4… Chegamos a pensar em deixar para lá, voltar no futuro, mas acabamos convencidos de que era possível.
E se tornou possível com a companhia do casal Jéssica e Bruno. Eles também estão mochilando há alguns meses e, assim como nós, ficaram “de cara” com o custo e a dificuldade de conhecer o Jalapão, este parque tão inexplorado, tão bruto.

Saímos cedo, seguindo as recomendações, mas não tanto, pois havíamos trabalhado até tarde no dia anterior. Inocentes, pensávamos “são só 271 kms…”
A gente não tinha a menor noção!!
Foi tranquilo no trecho entre Palmas e Novo Acordo, distante 123 km. Mas na segunda parte da viagem começamos a perceber a odisseia em que nos metemos.
Entendi o que são as “costelas de vaca” quando elas começaram a fazer tudo o que havia dentro do carro tremer… Mas seguimos devagarinho…
Aí chegamos nos areiões, onde a estrada se resume a um caminho de areia finíssima e muito fofa. A dificuldade no volante aumentou e o clima no carro ficou tenso; a gente torcia pelo Pedro, para dirigir da melhor forma possível; pelo Fox Raposinha, para aguentar a estrada foda; por nós mesmos, para mantermos a calma.
Foram mais 148 km de Novo Acordo até o Fervedouro Bela Vista… demoramos mais 8 horas para chegar.

Na primeira atolada a gente não fazia ideia de como agir; esperamos ajuda. O primeiro que passou nos salvou com uma corda, ajudando a empurrar o carro e dando uma dica ou outra. Seguimos, tentando manter os pensamentos leves.
Na segunda fomos mais ousados na tentativa de desatolar sozinhos, mas nos vimos aguardando e pedindo ajuda mais uma vez… Quem nos acudiu foram os mineiros que mais tarde fizeram festa conosco no fervedouro!
Eles desceram do carro (guerreiros como nós, estavam em um Gol) com uma enxada, analisaram toda a situação e nos coordenaram na missão. Levantamos o carro com o macaco, tiramos a areia que estava prendendo ele por baixo e ao redor das rodas, calçamos as quatro com galhos e gravetos, estudamos o terreno ao redor e planejamos o movimento — que incluiu a empurrada da galera e a aceleração do Fox Raposinha. Foi uma atolada foda, mas conseguimos escapar.
Um pouco mais adiante, comemoramos quando a estrada cruzou o Rio do Sono. Nos banhamos, os 6, para recarregar as energias e continuar a estrada mais desafiadora das nossas vidas.



A areia fina não deu trégua e logo veio a batida. Era um areião dos bravos, comprido, e o Pedro se desesperou sentindo que talvez atolasse mais uma vez, acelerou demais e não viu a pedra, furou o pneu. Com o barulhão que fez, ficamos todos em silêncio e chateados, arrependidos da cilada em que nos metemos…
Daí em diante mudamos a tática. Quando havia um areião à frente os quatro estavam atentos e alguém já mandava o alerta. Descíamos para estudar onde havia pedras e qual deveria ser o caminho para atravessar a área com menos dificuldade. Onde o terreno estava irregular demais a gente afofava, tentando diminuir os buracos e as chances de o carro se prender. Também ficávamos fora do carro para não pesar nestes pontos mais tensos.
Foi um dia longo, quente, seco e empoeirado. As horas passavam e a gente parecia avançar tão pouco naquela estrada bruta… Tão tensos que não dava nem para comer; bebemos quase 15 litros de água e lutamos contra os pensamentos negativos e de arrependimento.
Quando começamos a sentir que o fim da estrada estava próximo, chegamos a um córrego do Rio do Sono. Só que dessa vez não havia ponte. Descemos para estudar a possibilidade de uma travessia, mas acabamos convencidos de que um caminho alternativo poderia nos levar até o outro lado. Que engano! Depois de 20 minutos a estrada alternativa acabou e tivemos que voltar.
Salvos mais uma vez por um nativo, tomamos coragem e atravessamos o córrego, com o cuidado de conferir se o carro ainda estava com placa depois. A pequena travessia é conhecida como “arranca placa”; os mineiros perderam a placa do Gol que alugaram e um guia até contou que um conhecido teria uma coleção com mais de 80 placas encontradas no tal córrego.

Para quem acredita que os nossos caminhos importam tanto quanto os nossos destinos, vou contar que a volta para Palmas, duas noites após a ida, também foi muito difícil. Atolamos mais uma vez, tivemos que descer do carro outras tantas, ele já estava machucado pela batida… Então nos agarramos nas lembranças recém criadas para que o clima continuasse leve.
Uma hora o carro fraquejou em um trecho de subida. Sabíamos que ele já não estava ok, não seria certo forçar. E também não tínhamos tanta gasolina no tanque para arriscar o caminho alternativo.
Escolhemos esperar. E dessa vez a ajuda foi GRANDE. Acabamos empacando quatro caminhões, e os caminhoneiros desceram para ver o que tava rolando.

Nos distraímos embalados no linguajar e na conversa deles, que estavam na estrada levando materiais para o programa Luz para Todos, do governo federal. Quando percebemos, o carro já estava livre de um dos barulhos mais assustadores (adeus, correia do ar condicionado) e o caminho alternativo já havia sido testado a pé por um dos rapazes mais novos. Eles também nos indicaram onde comprar gasolina e nos tranquilizaram: faltava pouco e havíamos sido muito corajosos.
Simbora! Em Novo Acordo paramos no borracheiro e no mecânico e nos banhamos na praia municipal.
Quando já estávamos na rodovia, vibramos com a ultrapassagem dos caminhoneiros. Eles foram legais demais até na despedida… gigantes buzinando e ziguezagueando na rodovia, fazendo graça para o Fox Raposinha!
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ÊXTASE: estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente etc.
Valeu a pena escangalhar tudo na estrada para conhecer o Jalapão? Muito! E não só pelo deslumbre que descrevi no início do texto, no nosso primeiro encontro com o fervedouro…
Além do Bela Vista, também conhecemos o Fervedouro do Alecrim e a Praia do Alecrim, tudo em São Félix do Tocantins — para não piorar a situação do carro, que já estava mal. Colocamos um pézinho no Parque Estadual do Jalapão, sentimos o êxtase da experiência e já pensamos em voltar para conhecer o resto, ou mais um pouquinho, até a visita seguinte.


Renovamos a nossa fé na bondade das pessoas, contando com tanta ajuda na estrada, fomos surpreendidos com o acolhimento e a generosidade da família do Fervedouro Bela Vista, e fizemos muitos amigos.
Quando tudo indica que a gente fez a maior cagada, é importante manter a mente leve e sem julgamentos — esse talvez seja o maior aprendizado dessa viagem. Vimos na prática que os desafios são vencidos com mais facilidade quando se tem calma, paciência, compreensão, informação e um bom combo de pensamentos positivos.
Mais uma vez, a natureza deixou a gente besta com a sua riqueza, enquanto as pessoas fizeram o rolê todo valer a pena.

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Esse texto aí foi escrito pela Isa, com pitacos do Pedro! Continue acompanhando os Nômades Camaleônicos também no nosso Instagram!

