Viagem à América do Sul e da Cor
América do Sul, tu surpreendes os meus olhos brasileiros acostumados às praias de águas mornas e azuis.

Aqui me mostras rústicas paisagens: a lagoa salgada e vermelha, águas semi-congeladas, paralisadas no instante em que a onda se formou.
Os Andes me trazem montanhas onde pessoas são pontos perdidos no verde de outros tempos, outras eras.
O vulcão solta o seu respiro na fumaça branca que avisa da sua força interior. O gelo pinta de branco o topo distante e belo.
América, quando eu penso que acabou teu espetáculo, abres outra janela, me mostras um novo esplendor. Às vezes é uma alpaca distraída com seu perfil elegante recortado contra o céu. Ou então, vejo a marca esquecida de um rio que já morreu. Será que morreu de frio?
Salares no Chile, na Bolívia e até aqui na Argentina, onde não os esperava encontrar. São monumentos ao branco, banhados no dourado do sol. Criam imagens fugidias e iludem o meu olhar.

Montanha de sete cores. Só sete? São muitas mais.
Vejo um tom que nunca existiu, mas, que foi inventado agora na linha do horizonte.
Há traços na cor marrom que emprestam nuances ao verde e se juntam ao ouro para compor a paisagem.
Desço um vale inesperado — eu continuo encantada — uma árvore amarelo-outono à beira de um rio inexplicável na aridez do deserto.
As diferentes paisagens estão em batalha constante tentando sempre mostrar, um detalhe inesperado seja na forma ou no tom.
E povos com tantas cores. Sorrisos nos rostos marcados pelos extremos do ambiente.

Crianças de pele corada, bracinhos gordos de roupa desafiando a intempérie.
Menino, teu riso me diz que estás feliz assim sozinho.
Teu chapéu te protege? Teus pés estão aquecidos?
Assim, à beira do abismo e longe de tua mãe não tens medo de cair?
Não te assusta o penhasco ao lado da tua mão?
E você, menino pequeno que balança o bebê, não te alarma esta estrangeira com sua fala cantada que te joga um beijo de longe?
Menina, não tens escola? E nem amigas na rua?
Que rua? Tua vizinha é a lagoa. Tua brincadeira é ver o vento enregelar as gaivotas que planam e te divertem no mesmo balé de sempre, dançado à meia luz.
Vidas marcadas pela poeira que se infiltra, pelo sol que escurece a pele. Cada uma com seus traços de quéchuas ou aimarás. Desde muito pequeninos a natureza os acolhe, e o medo não tem lugar. São feitos da mesma matéria forte deste espaço hostil. Ele arrebata o ar e o calor do corpo, mas dá o alimento e uma beleza sem fim.
Há grupos de estrangeiros que também estão extasiados diante da beleza da nossa América do Sul. Outra melodia na voz. Pele e cabelos claros, olhos pintados de céu.
A comunicação se concretiza em frases entrecortadas de um idioma que se completa nos gestos e que transforma palavras e inventa novos sons. “Para onde vais? Donde vens?”
O clima é de aconchego entre hospedeiros e viajantes.
Quem chega, quem recebe e quem parte quer reter um pouco dessa nostalgia leve que o contato breve produz. Há um clima de saudade, na chegada e na partida, frutos de um mesmo sentir.
Azul, o contraste perfeito para a dureza das montanhas.
Azul sobrepondo o azul. No céu, no lago, no reflexo branco do sal.
Vento, o que dizes quando sopras de leve nos meus cabelos? E o que gritas à lagoa quando sopras furioso? Depois, charmoso te envolves com a poeira na curva, num redemoinho imenso. Estás convidando a brincar?
Por que não posso entender a tua linguagem cifrada? As llamas erguem seus olhos saturados de amarelo dos arbustos do deserto. Elas estão atentas. Prestam atenção à sabedoria das montanhas. As vicunhas conversam contigo e se isolam no alto.
Os flamingos te ignoram já sabem teu gélido discurso, só querem ouvir a lagoa.
Minhas palavras não dizem o quanto essas rústicas paisagens atordoam meu ser.
A altitude maltrata, meu peito arfa. Tenho sono, mas não consigo dormir.
São 4.900 metros. Como viver aqui? É isto que se discute?
A natureza tem sua fala feita de silêncio e luz.
América, esqueço a caneta e tua poesia me invade.

América do Sul, sou tão tua filha que me sinto pertencer a qualquer de teus espaços. Montanha, deserto, mar. Sal, lagoas, silêncio. Quero me perder nas tuas cores, me inebriar com tua luz. Quero sentir tua gente, escutar tuas histórias, envolvida por teu vento, teu sol, tua noite e teu frio.
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