Você não é a droga do seu emprego. — Vai com medo mesmo: parte 1

17 anos.

Com essa idade até quem me via na fila da padaria dizia: — Esse aí vai ser jogador de basquete. Do alto (literalmente) dos meus 1,92 m de altura que mais tarde se tornariam 1,94 m, não havia dúvidas. Mas a verdade é que bem longe dos esportes, meu primeiro emprego foi num escritório cadastrando seguros de vida.

Acho que nunca vi meus pais tão orgulhosos como no dia em que anunciei: 
— Mãe, pai passei na entrevista (nem quando ganhei uma bolsa integral para faculdade).

Entre as 03 paredes da baia finalmente me encontrei no que eu era realmente bom, no trabalho. Um workaholic incorrigível, um rato de escritório.

Minha mesa era o meu habitat natural.

Os anos passaram, com eles veio a experiência, depois as promoções, transferências de área e com elas um nível insano de cobranças.

— Topa trabalhar de madrugada? Sim. E de final de semana? Sim. 
De casa? Sim
.

Sim, sim, sim.

Uma das coisas mais importantes que aprendi nesses anos é que quando a gente diz “Sim” para tudo por muito tempo, meio que de um jeito mágico, a gente perde o direito de dizer “Não”. — Será que ele topa trabalhar nesse feriado? Ah, claro que topa. Ele sempre topa. E o mesmo acontece com o “Não”.

Talvez o segredo para uma vida profissional saudável, ou para A Vida em geral, seja o mesmo que para aprender a andar de bicicleta. Equilíbrio.


Só sei que quando dei por mim, eu já não era mais só eu.

Eu era o carinha Y que trabalha na empresa X. O meu trabalho se tornou meu sobrenome. Até meus amigos e família passaram a me apresentar assim:— Esse é o meu amigo/ filho/namorado. Ele trabalha na empresa X.

Sem perceber, o que eu fazia das 9h às 18h, aos poucos, assumia minha personalidade.

Sabe, seu trabalho pode ser incrível. E você pode ser o Vice Presidente de Marketing da América Latina da Sbruballs S.A. Mas nenhuma carreira, por melhor que seja, pode suprir todas as suas necessidades e se tornar O CENTRO DO SEU UNIVERSO.

E isso por dois motivos bem simples:

  1. Isso vai te deixar doente;
  2. E isso é um saco.

Eu era um saco. Gente que só sabe falar de trabalho é um saco.

Carreira, trabalho e realização profissional são importantes. Mas viver também é.

Me pergunto. — Será que colocam alguma coisa na água do escritório?

Porque de algum jeito muito doido nós invertemos o propósito primordial de se ter um emprego; sobrevivência.

A gente trabalha para adquirir recursos para custear um estilo de vida. Uma vez que este objetivo foi alcançado, só a partir daí, projetamos nossa realização profissional (ou não).

No entanto, mais parece é que a gente vive para trabalhar. Talvez você diga: — Eu não sou assim. E talvez você esteja mesmo certo. Mas antes de tirar conclusões precipitadas, se pergunte:

  • Qual a última vez que você tirou um dia inteiro para se divertir ou passar um tempo com as pessoas que você ama?
  • Quanto tempo faz desde que você aprendeu algo novo?
  • Quando foi a última vez que você praticou um hobby, foi ao cinema, ao parque ou a um show?

Uma semana? Um mês? Anos?

Está tudo bem, eu te entendo.

Nesse ritmo frenético em que a gente vive fica fácil até esquecer de jantar depois de chegar em casa que dirá de se divertir, cultivar hobbies, relacionamentos ou até descansar.

A lista de pendências é infinita. E quando se trata dos compromissos que assumimos com nós mesmos, o prazo é sempre renegociável. Até não ser mais.

E depois de quase 6 anos dessa rotina insana, foi o que aconteceu comigo.

Eu me demito.

Depois que assinei as 03 vias de desligamento, fui imediatamente inundado por um mar de emoções.

Alivio, pânico, incredulidade. Tudo ao mesmo tempo. Era como se uma represa tivesse se quebrado em mim. — Eu fiz mesmo isso? Nunca pensei que tivesse coragem.

Quando cheguei em casa, meu pai estava a minha espera. — Acabou? Ele me perguntou. — Acabou, pai. Assim que respondi desabei num abraço.

E agora? — Pensei. — Que droga que eu vou fazer da minha vida?

Depois da inundação, me vi vazio. E só então percebi o quanto o trabalho preenchia a minha vida.

Por mais consciente e planejada que fosse a decisão, não conseguia evitar de pensar que todas as pessoas com quem eu me importava iriam deixar de me respeitar ou até mesmo de gostar de mim. Agora eu não era mais o carinha Y que trabalhava na empresa X.

Eu era o desempregado.

Desempregado. Essa palavra me pesava mais que uma tijolada na cara, porque pelo menos para mim, ela significava “sem valor”.

Engraçado. Eu nunca pensei nos meus amigos dessa maneira quando eles deixaram seus empregos, mas pensei assim de mim.

Foi então, à duras penas, que percebi. Eu não era e nem nunca fui a droga do meu emprego. Meus amigos, minha família e todas as pessoas com quem eu me importava continuavam lá por mim.

Eu não era quem “eu sou” por causa da minha carreira. Minha carreira “que era o que é” por causa de quem eu sou.

Parece um pouco confuso, eu sei.

Mas o que quero dizer é que o valor nunca esteve em cargos, salários ou empresas. Se você chegou onde está pela sua garra, determinação, competência e oportunidades que te foram ofertadas, o verdadeiro valor está em você, na sua essência. E isso, é algo inalienável.


Foram precisos 07 longos meses para encontrar as respostas que precisava. Uma busca que me levou à lugares que eu nem imaginava. E toda essa experiência me fez tão bem que decidi compartilhá-la com você.

Por isso, essa é a primeira parte da história de como eu larguei meu emprego e usei todo o meu dinheiro para viajar o mundo trabalhando como voluntário, tentando colocar ordem na bagunça dentro de mim.

A gente se vê na parte 2 (é só clicar aqui).

Até lá. :-P