Centro da cidade

O apagar das luzes é belo, é bonito. Tem seu charme e sua poesia. Adoro as luzes do dia, amo as luzes da cidade, sou fascinado pela noite. E o encontro dos três é simplesmente fascinante.

Ao ver esse encontro, cheio de uma mágica diária do cotidiano, me vem à memória as memórias de todo dia, as lembranças que ficaram impregnadas nas retinas, e que novamente saltam aos olhos.

Como uma simples caminhada pode revelar um universo tão vasto, tão complexo e ao mesmo tempo tão cotidiano?

É um lugar predominantemente cinza, branco e preto. Até o céu parece meio cinzento às vezes, mesmo com o dia lindo e ensolarado. Os matizes variam mas as cores parecem ser sempre as mesmas, destoando os letreiros coloridos que tentam chamar atenção de alguma forma.

O passeio sempre começa pelo mundo de gente que circula, cada um carregando um universo único e pessoal, caminhando numa determinada direção, com um determinado fim. Vão e vem, circulam, falam, trombam uns com os outros; vestem-se de maneiras diferentes, andam de maneiras diferentes, falam e pensam, às vezes sozinhos, ás vezes em grupos. Estão nas ruas, nos bares, nos restaurantes, nas lanchonetes, nos camelôs.

Os camelôs poderiam ser um texto á parte, com seus chapéus, roupas, acarajés, balas de coco, biscoitos, bonecos, tecidos, livros, jornais, revistas, e o que mais a imaginação permitir. Acho que, se você procurar bem, algum sempre tem o que você procura. Alguns são discretos, ganham a freguesia nas trocas de olhar. Outros são barulhentos, chamam a atenção, insistem, gritam, tocam música. E há os que fazem as duas coisas.

E as ruas? Talvez você nunca tenha reparado, ou sequer ache isso importante. Mas aqui há ruas de todos os tipos: grandes e modernas avenidas, ruas largas que atravessam grandes espaços, ruas menores e barulhentas e até aquelas pequenas travessas onde carros não entram, e onde todos se acotovelam para passar. E ainda há as ruazinhas silenciosas. Sim, aqui às vezes também faz silêncio.

Mas só às vezes.

Os locais verdes são poucos em meio a esse mar de asfalto, cimento e concreto. Sua aura é de um oásis no meio do deserto, e você pode jurar que neles o vento é mais fresco e o ambiente é mais agradável. É quase um respiro de tranquilidade em meio à energia que pulsa por todos os cantos, como num grande organismo vivo.

E como há criatividade na hora de comer! Caminhando se encontra restaurantes com “almoço executivo”, com cardápio, a quilo, lanchonetes, comida japonesa, italiana, brasileira, árabe, e há os que fazem um pouco de tudo isso. Não basta simplesmente descer para comer, é preciso ter um critério, determinar bem o que se quer ou para onde se vai, ou ser aos poucos engolido pelo mar de opções.

E como há lojas nesse lugar. Caminhando se encontra de tudo, da forma desejada, da maneira que preferir; às vezes penso que você não precisa sair para procurar nada, pois nesse lugar as coisas te encontram. Pode escolher o preço, a opção, a forma de pagar; e se não estiver satisfeito, basta sair que outra opção “te encontra” no meio da rua.

Um universo vasto e cotidiano aos olhos de qualquer um, mas que talvez seja visto e sentido por poucos.