Correndo Atrás: Capítulo I -
A cor escondida nas nuvens da rotina

Era uma tarde qualquer. Caminhando pelos corredores da empresa, já perto da porta de saída, Mauro sentiu uma lufada gelada de ar. Mal botou o pé do lado de fora, o mormaço o atingiu como se fosse um tapa no rosto.

Ele atravessou uma rua pequena, com pouco movimento, e caminhou mais alguns passos até entrar num bar.

“Me dá um café, por favor?”, pediu Mauro ao balconista.

Enquanto esperava, ele apoiou as costas no balcão e ficou observando o lado de fora. Estava próximo de uma grande avenida, conseguia vê-la, mas o cruzamento com a ruazinha formava um cantinho, quase uma esquina do mundo, onde se resguardava da energia pulsante da avenida.

Mais um dia de trabalho. Vivia em meio às nuvens da rotina, sem se preocupar em descobrir cores escondidas: enxergava basicamente branco, preto e cinza, e ao contrário dos colegas, para ele era bom assim.

Observando o movimento, ele notou uma mulher caminhando na calçada. Por um instante ela lhe pareceu familiar; ele então fixou o olhar e a observou passar pela frente do bar. Mauro fixou o olhar nos olhos dela…e então um relâmpago iluminou as sombras de sua memória.

A mulher seguiu se afastando enquanto Mauro, imóvel, pensava no que fazer.

Tinha que agir. Mas ao mesmo tempo não podia, precisava trabalhar. Não, era mais importante aquilo. O que era mais importante mesmo? Trabalho. Ela. Não, nada disso. Rotina. Quanto tempo fazia desde a última vez? O café, o café. Era besteira ir atrás, tinha que se concentrar em coisas importantes. Como é mesmo que era o apelido dela? Não, isso fazia tempo. O trabalho, o trabalho! Mas e se perdesse essa oportunidade, teria outra? Ela. Precisava ir. O trabalho, o trabalho! Precisava ficar. Ela, ela! Mas e se não fosse?

“Ei moço, seu café! Moço!”, gritou o balconista enquanto Mauro saía apressado pela rua, ainda a tempo de vê-la dobrar a esquina.


Correndo Atrás é um conto semanal de ficção em quatro capítulos.