O Espelho do Tempo

Via os lugares não como simples lugares, mas como espelhos do tempo.

Quando encontrava um deles, a realidade ia aos poucos se distorcendo e, em pouco tempo, aquela rua, aquele ônibus, aquela paisagem, aquele restaurante não pertenciam mais ao presente, mas ao pretérito. E no instante seguinte era ele próprio o reflexo de um tempo que não existia mais.

Adorava as memórias. Dançava com cada uma delas, buscando conduzi-las com sutileza e leveza, como se estivessem juntos em uma bela valsa. Ao menos até levar um pisão no pé — nem todas eram exatamente delicadas.

E assim se recordava dos tempos passados, de como possuía outras cabeças naquelas épocas. Bailava com as bobagens que disse, levava pisões no pé das as brigas que teve, sorria se sentindo conduzir pelos bons momentos que passou.

Em sua cabeça, relia e revisava as matérias que escreveu para o jornal e o site, refazia as perguntas das grandes entrevistas que fez, sentia novamente o gosto das comidas que comeu, repetia as risadas dos amigos que já não estavam mais presentes e os bons momentos dos que felizmente teimavam em permanecer.

Refazia as longas viagens pela cidade, para lá e para cá, em diversos e variados meios de transporte enquanto tudo parecia passar rapidamente em volta.

Em muitos casos, via a si próprio — sentado na janela do ônibus, na mesa de bar, andando na rua. Sempre achava que poderia ter feito algo diferente, e em muitas ocasiões sentia mesmo vontade de conversar com o próprio reflexo pretérito.

Mas nessa hora perguntava-se: “E se eu falar com meu reflexo no tempo e no espaço, será que não criarei um paradoxo temporal pelo fato de que o que sou é que é o reflexo do que fui? Ou seja…se eu falar com meu eu do passado, desaparecerei aqui para reaparecer em outro lugar?”.

E então os locais passavam, apressados, e à medida que o espelho do tempo se afastavam, a mágica ia lentamente perdendo suas forças, como a dança que termina nos últimos passos — para dar lugar à próxima ou, quem sabe, ao fim do baile para que outro possa começar.


Rafael é escritor, jornalista, carioca, Relações Públicas e adora o tempo e os reflexos.

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