A onda da Energia Nuclear

Um passeio pelas formas de energia e o porquê de as usinas de Angra serem extremamente inteligentes.

O Ser humano costuma sabotar a si próprio como sociedade.

Com nossa atual tecnologia e matemática financeira podemos, em pouco tempo, eliminar a pobreza do mundo e evitar por um longo período que a fome, a mortalidade infantil e outros índices negativos em relação à qualidade de vida volte a subir.

Vivemos num sistema em que se a porcentagem do valor necessário para essa grande obra — erradicar a pobreza no mundo — for retirada dos que podem, milhares de ações teriam de ser vendidas.

Dessa forma, entra em ação uma das leis do mercado: a da oferta e da demanda. Se um grande acionista decide vender suas ações, esse valor cai. Portanto, para erradicarmos a fome no mundo, automaticamente teríamos de causar uma violenta recessão financeira. Seriam grandes empresas, empreendimentos e bancos falindo por todo o mundo.

Como eu disse, nossa espécie costuma sabotar a si própria. O que é mais importante: crianças morrendo de malária numa floresta africana e um mendigo passando fome em Nova York, ou um sistema em cadeia que gera empregos de alto custo ao empregado? Temos o mundo dominado pelo Homem, mas com limites impostos por nós mesmos, sejam eles naturais como os erros humanos num laboratório ou imaginários como as fronteiras entre países.

Morador de rua em Nova York. Credit: NBCNews

Dessa forma, percebemos que não é tão simples lidar com o Ser humano.

Uma das formas de dividir e definir a formação e a evolução do intelecto humano é por base de nossos meios para produzir energia, assim como com o quê gastamos essa energia produzida. Um país pode estar entre os cinco que mais produz energia, mas utilizá-la apenas nas indústrias, liberando uma pequena porcentagem à sua população, como acontece em muitos países.

Começamos com o fogo, há mais de dez milênios. Com ele cozinhamos a carne, o que proporcionou o desenvolvimento dos nossos neurônios, de acordo com a neurocientista Suzana Herculano-Houzel.

O aquecimento da carne até certo ponto facilita sua digestão, começando já na mastigação. Dessa forma, passamos menos tempo comendo e mais tempo consumindo essa energia produzida na alimentação, seja com atividades físicas ou mentais.

De lá pra cá (e por isso), o Homem teve um salto em inteligência levando outras espécies de animais como referência, o que nos possibilitou a descoberta de novas formas de energia.

Hoje há eletricidade pulsando por todos os cômodos de uma casa. Você, ao ler esse texto, está utilizando da eletricidade. Com a ajuda de geradores, conseguimos transformar diversos tipos de energias mecânicas em elétricas, como é o caso das Usinas Termoelétricas.

Pense que você tem uma gigantesca panela de pressão cheia de água. Com o aumento da temperatura, o vapor só consegue escapar em alta velocidade por um tubo contido no topo desse grande recipiente. Isso movimenta uma turbina que faz o gerador gerar eletricidade.

Usina Termelétrica de de Battersea, em Londres, uma das primeiras do mundo. Credit:

Essa é, de forma pragmática, a evolução do nosso primeiro tipo de energia: o fogo. Porém é muito difícil encontrar uma forma de se fazer fogo, ou seja, esquentar essa água, sem que um grande número de substâncias tóxicas e poluentes sejam geradas. A natureza e o estado dessas substâncias, em sua maioria gases, tornam ainda mais difícil a contenção e, portanto, não poluição dos arredores das Usinas Termoelétricas.

A ideia do moinho vem logo a seguir, para superar e elevar um pouco mais o nível de geração da eletricidade. É a chamada Energia hidrelétrica.

A água cai por um cano sobre um tipo de escada circular e infinita, gerando seu movimento. Esse movimento circular do moinho funciona como a turbina da termoelétrica, gerando energia por meio de um gerador.

Represa/Usina de Itaipu, a segunda maior do mundo.

Quanto mais rápido esse moinho girar, maior a quantidade de eletricidade criada pelo sistema, então quanto maior a vazão da água, maior a velocidade do moinho, e é nisso que entram as grandes represas.

Normalmente, uma represa serve para conter um grande volume de água e utilizá-lo na hora certa. O líquido é liberado sobre uma turbina, que também gira, movimentando o gerador e repetindo a geração de eletricidade.

Muitas espécies de peixes sofrem durante sua vida pela construção dessas represas. Depois de serem lançados para fora, pequenas usinas hidroelétricas podem ter sistemas de escadas (como nesse vídeo) para que muitos consigam subir o rio para a desova ou a reprodução. Mas outras acabam ficando inerte à geração de energia humana. Muitas espécies regionais podem chegar a sumir se uma grande pesquisa ecológica não for feita.

Há também os riscos de inundação, os tantos quilômetros de hectares de árvores vivas perdidas, além dos animais mortos pelo afogamento nos primeiros meses de construção dessas usinas e represas.

Durante muito tempo, o Energia Hidroelétrica foi estampada como “renovável” e “limpa”, porém hoje, com a Era da Informação, sabemos também dos seus defeitos e estragos ao que não cabe à civilização humana decidir se merece viver ou morrer.

Nossa espécie costuma colecionar diferentes formas de se produzir energia elétrica. Temos também a solar, a eólica, a ondomotriz, isso é, pelo movimento das ondas do mar. Citá-las como um todo seria um desperdício de tempo sendo que eu já cheguei onde eu queria chegar.

Em meio a tudo isso, surge uma nova possibilidade:

A Energia Nuclear

Não encontrei os devidos créditos para essa imagem, mas o autor está de parabéns.

Para você que não sabe, no centro de todo átomo há uma quantidade gigantesca de energia contida para que o núcleo não se desfaça. Essa energia potencial pode ser quebrada e liberada de duas formas diferentes: pela fusão e pela fissão. Não nos cabe nesse exato momento explicar como são feitos os dois processos, mas aqui você deve saber que em ambos os casos, uma quantidade contida dessa energia pode ser liberada em complexos sistemas denominados reatores nucleares.

Essa energia, também em forma de calor , libera um vapor em alta velocidade que faz uma turbina girar, movendo outro tipo de gerador e criando ainda mais energia elétrica.

E onde estão os átomos capazes de nos permitir isso? O Urânio, o Plutônio, o Hidrogênio, são encontrados em muitos países e locais — inclusive o ar, como no caso desse último citado. O Brasil é um dos países com grandes reservas de urânio, permitindo um desenvolvimento nuclear independente de qualquer outro país. Já temos tecnologia o suficiente para criar reatores 100% brasileiros, de acordo com a Marinha.

Para podermos utilizar desses átomos, eles devem estar em um ponto especial, e o processo para se chegar nisso chama-se “enriquecimento”. Agora temos um material com uma característica perigosa: sua radiação.

E ainda por cima, depois de passar pelo reator, os restos liberados continuam malignos à saúde humana, tendo de se criar espaços para armazenar adequadamente esse lixo nuclear.

De forma básica e rápida de ser entendida, para se chegar à tecnologia de enriquecimento e reação nuclear um Estado deve ter tempo e dinheiro, porém depois disso o custo da produção de Energia Nuclear cai drasticamente.

Com poucas toneladas de urânio podemos abastecer cidades enormes como São Paulo durante meses, mas ainda teríamos o grande problema do lixo nuclear, que deve ser armazenado em local vedado e com cuidados de segurança especiais.

Além disso, durante todo o processo de enriquecimento e reação nuclear, o vício inerente à evolução intelectual da nossa espécie se manifesta: o erro humano.

Um relatório interpretado errado, uma vírgula colocada onde não deveria estar e o simples apertar descuidado de um botão podem render prejuízos inimagináveis.

Muito desse medo pôde ficar no século XX junto com as saias de bolinha e o celibato pré-nupcial, já que nossa tecnologia evoluiu muito. Uma nova Chernobyl já não é possível.

E Fukushima?

Fukushima, além de na época da Tsunami ser uma das mais velhas usinas nucleares do Japão, não foi construída para suportar uma onda daquela magnitude. Nenhum engenheiro conseguiria prever que isso poderia acontecer.

Foi uma das piores formas de se aprender um pouco sobre a criação de usinas no litoral de determinados países.

No Brasil, o fato de nossas principais usinas estarem no litoral é um feito extremamente inteligente.

Logo atrás de Angra I e Angra II encontra-se a Serra da Bocaína. Ela impede que o vento contido em Angra dos Reis e em outras partes do Rio de Janeiro se desloquem serra acima em direção ao interior de São Paulo e Minas Gerais.

O local da construção também marca um encontro dos ventos que vêm do norte e do sul, que se encontram e são lançados em direção ao oceano. Se num acidente, gases radioativos fossem liberados pelas usinas de Angra I e Angra II, os ventos direcionariam esses gases para o mar, salvando grande parte da população que mora num certo raio das usinas.

Talvez ainda não estejamos preparados para o uso total da Energia Nuclear. Muitos avanços são feitos — principalmente nas áreas médicas — , mas a manipulação desse tipo de energia pelo Ser humano cria uma grande chance de erro — conceito conhecido por qualquer pessoa que já teve aula em laboratório.

Em Goiânia na década de 80, uma pequena amostra de césio-137 utilizado em instrumentos de radioterapia foi descartada como lixo comum e encontrada por catadores de sucata, que ficaram curiosos por seu estranho brilho. Um deles deu a amostra para a filha mexer. Um mês depois, tanto a criança quanto a irmã do catador morreram.

Caixão da menina, lacrado para a não-dissipação de qualquer substância radioativa contida no corpo da garota.

Ainda assim, o potencial energético da produção nuclear não pode ser descartado. Muitos países com poucos recursos de geração de energia podem utilizar desse processo para o abastecimento de milhares de residências, levanto eletricidade a diversos pontos onde o vento não sopra forte, em que a água não corre e o Sol não queima.

Esse é um dos grandes dilemas que vêm intrínsecos à nossa contemporaneidade, e o lado a ser tomado só será revelado com o tempo, com a evolução do intelecto humano, e uma profunda união contra nosso próprio desejo de auto-sabotagem social.

Usina nuclear na Suíça.