Brevíssimo comentário sobre Jair Bolsonaro
Igor Natusch
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Bolsonaro (uma resposta)

Após a leitura do “Brevíssimo comentário sobre Jair Bolsonaro” escrito pelo Camarada Natusch (#humor), não resisto a dar esse pitaco. Não resisto porque discordo de algumas posições do Igor, como a de que o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro “representa um mundo tosco, grosseiro e vulgar que está desaparecendo” ou que ele seja “incapaz (por postura e por discurso) de qualquer articulação para um voo mais alto”.

Bolsonaro parece um estereótipo de si mesmo porque tem palanque para tal, mas há nessa atuação dele particular um ódio legítimo que a gente não deve tratar como um problema menor. O ódio que ele propaga é real. Seu desprezo a direitos humanos, a retórica de torturador é muito atual. Sua figura está no Congresso Nacional desde 1990 porque desde então ele sempre encontrou eleitores que encampassem as suas propostas e ideias — que já deram frutos: seus filhos Carlos e Flávio também são representantes eleitos para o legislativo, Carlos é vereador e Flávio deputado estadual, ambos no Rio de Janeiro. Bolsonaro parece um fantoche, mas é uma realidade.

Os votos de Jair Bolsonaro não se originam apenas no discurso de ódio: ele é um defensor da carreira dos militares. Seu surgimento se deu quando quase foi expulso das Forças Armadas liderar manifestação por melhoria dos soldos, sem a autorização de seus superiores, caracterizando um possível ato de indisciplina e imoralidade.

O perigo do discurso de ódio e intolerância que ele propaga é que esse discurso encontra muitas orelhas atentas dentro da nossa sociedade, que é racista, machista, preconceituosa em tudo que é esfera possível. A gente não pode se esquecer que somos o país mais católico do mundo (65% da população), ou seja, somos conservadores até a medula. É essa gente que enxerga a cruzada de Jair Bolsonaro contra, por exemplo, a luta por direitos dos homossexuais não como um discurso patético e ultrapassado, mas como a voz da razão.

“Certa esquerda prefere não acreditar que a direita existe, mesmo quando tem 2 mil malucos fechando a av. Paulista e pedindo ditadura”, registrou em seu tuíter o comparsa Matheus. Esse é o perigo de enxergarmos o Bolsonaro apenas com nossos olhos. A gente pode estar deixando a famosa maioria silenciosa, aquela massa cinzenta que não fede e nem cheira, não emite opiniões, não defende bandeiras políticas, entrar na onda do Bolsonaro porque ele defende seus valores morais (a pátria e a família). E nunca é demais lembrar que a maioria silenciosa gosta de dizer que não tem lado, mas aplaude de pé quando a polícia tortura e mata e desaparece com quem assume posições de esquerda (terrorista!), por exemplo. Lembram que o Gigante™ não queria bandeira de partido (vermelhos!) nas passeatas de Junho de 2013?

(O comportamento da maioria silenciosa é mais ou menos como o povo do LIBERALISMO, que não se assume de direita, mas quando quer criticar alguma coisa, sempre lembra de falar mal da esquerda.)

Se Bolsonaro sabe que tem platéia para as suas performances, ele certamente já deve estar calculando como aumentar seu potencial de votos, porque, tal e qual os ex-BBBs e a ex-vice-Miss Bumbum, o deputado pertence a nossa esfera midiática de subcelebridades em geral. Esse é o outro grande perigo dos nossos tempos: a gente não precisa mais de conteúdo, só de imagem. Com suas declarações criminosas, o parlamentar é presença constante em nossos corações e mentes, nos debates públicos, nas mesas de bar, nas colunas de jornal, nas filas de motel porque a mídia o considera “polêmico”. O inimigo está vivo e vende jornal, minha gente.

Em suma, não podemos dar mole pra mané, Igor.

(Um abraço. Leandro)

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