Três ou menos coisas sobre o jornalismo

Eu trabalho com jornalistas faz 10 anos. Convivo com jornalistas e estudantes do meio há quinze. Eu não sou jornalista. Eu quis ser, e houve uma época em que eu queria muito mesmo ser jornalista — repórter fotográfico em coberturas de guerra ou crítico de rock, quiçá um meio-termo disso (cobrindo a cena musical iraquiana). Acabei mesmo foi numa assessoria de comunicação de um órgão público (o Ministério Público), longe, a milhas de distância de napalm pela manhã ou cocaína em bancos de limosine.

Enfim. Zapeando o tuíter ontem (ou antes de ontem), passei o olho por umas postagens do grande Igor, que ironizava a respeito de uma arroba do tuíter que satirizava um portal de notícias daqui de Porto Alegre, o Sul 21, veículo assumidamente de esquerda e que conta com uma linha editorial bem favorável ao PT, por exemplo — chamava-se Sul 22 (pois é).

Escreveu Igor: “Sul22 jamais poderia ser de jornalistas. Além de ser contra a seriedade da profissão, é falta de coleguismo! Justo nossa classe, tão unida!”

Na hora eu pensei mandar em pvt ao nobre barba ruiva um link que recebi no início da semana (via newsletter do Farol Jornalismo). Um dos temas tratados era justamente sobre um particular da profissão que é bem particular aos jornalistas brasileiros: são profissionais que trabalham para grandes empresas, prestam um serviço essencial para a sociedade mas, por ser o jornalismo um ambiente onde convivem com o poder e o saber (são fontes, quando não são companheiros de redação) muitas vezes são proletários que não se identificam com proletários, ainda que a maioria esteja longe de ser patrão. A newsletter falava sobre um texto publicado por um professor de jornalismo holandês, Mark Deuze, onde ele discutia a respeito da diversidade no jornalismo.

Deuze fala que foi muito criticado por retratar os jornalistas como uma “classe alta” ou “elite” da sociedade. Ele justifica a caracterização citando estudos que encontram semelhanças entre o perfil de jornalistas e as camadas mais altas da sociedade: “altamente educados, moldados pela (e moldando a) cultura dominante, em termos de valores, e expectativas de autorrealização e sucesso pertencentes à classe média”. Ao mesmo tempo, diz que esses profissionais também “tem um pé” na classe trabalhadora, pois não detêm o controle dos meios de produção. [Trecho copiado da Newsletter Farol Jornalismo #28 (09/01/2015)]

Deuze diz ainda que, após um período onde minorias socioeconômicas ganharam mais voz nas redações, as mesmas começaram a encolher — estão aí os vários passaralhos recentes de prova — o que tornou o acesso à profissão mais restrito a todos, e numa sociedade desigual onde vivemos, muito mais restrito a minorias. “Esse panorama faz o jornalismo menos acessível para qualquer um que tenha interesse. Na verdade, é, hoje, o campinho de uma classe abastada: aqueles que podem se dar o luxo de trabalhar anos (ou a maioria de suas carreiras) ganhando abaixo de um mínimo de vencimentos; aqueles que, como um jovem, podem se manter com ganhos de poucas centenas de dólares/euros por mês (enquanto vivem e trabalham nas maiores e muitas vezes mais caras cidades, que é onde estão localizadas as principais organizações de notícias).

jornalistas estão cada vez mais sendo explorados por uma indústria que não mais investe neles. (Grifo meu) O acesso à profissão está se tornando, assim, mais exclusivo. Está se tornando impossível, particularmente para as pessoas pertencentes aos escalões socioeconômicos mais baixos, participar de tais profissões. Na Inglaterra e em outros lugares, este “elitismo nas profissões” é fontes de preocupações justificadas sobre a diminuição da mobilidade social na sociedade.”

A equação é simples: com cada vez menos profissionais na mídia que chegam às redações vindo das periferias (das cidades, do capital, das culturas), o resultado é que a cobertura vai estar cada vez mais distante desses locais e das pessoas que os habitam/frequentam — inclusive porque, com redações menores, fica mais difícil para o profissional apurar uma história que precisa de meses ou mesmo semanas de dedicação, por exemplo. No final temos menos variedade de conteúdo para nos informarmos e as pautas acabam sendo pautas mais próximas à realidade dos profissionais da imprensa (classe média, residente de zonas abastadas, frequentadoras de específicos círculos sociais e culturais) — é o que é possível para esses profissionais.

Some-se a isso o desaparecimento de veículos do mercado e temos, na prática, um grande veículo (que acaba sendo o grande empregador dos profissionais) a navegar solitário dentro da seara de vender notícias. Este grande veículo vai selecionar as pautas e montar a agenda de notícias conforme seus interesses (o interesses de seus donos). Quem não lograr sucesso em alcançar as bordas de tais veículos acabam numa situação meio chata.

Esse descolamento das pautas dos jornais, somado ao discurso de certos jornalistas, das demandas de grande parte da nossa sociedade fez com que um grandes alvos das Manifestações de Junho de 2013 fossem justamente emissoras e redações da grande imprensa — assim como a fonte quente de informação das coisas que aconteciam nas ruas eram veículos novos, fora das grandes redes, coletivos de pessoas (jornalistas ou não) que, munidos de celulares multimídias e redes de internet 3G, transmitiam os fatos em primeira mão, quase sem edição.

É aqui que queria chegar. Nessa hora, houve jornalistas que trabalhavam nesses grupos alvejados pelas manifestações que, ainda que compreendessem a marcha, discordavam do modo como ela enxergava o seu local de trabalho. É nesse ponto que a crítica do Igor acerta no alvo. Afinal, de que lado queremos estar? As manifestações serviram pra mostrar exatamente isso, que quem não está de um lado, está de outro. Teve muito profissional de imprensa que adotou o discurso de defender a postura dessa grande mídia.

Em Porto Alegre, por exemplo, a maioria das marchas tinha como destino (ou caminho ideal) a redação de Zero Hora, símbolo do grande meio de comunicação do estado, o Grupo RBS. Os jornalistas que cobriam as manifestações sabiam disso. O problema é que ao tentar se aproximar da redação, sempre havia em certo ponto uma barreira policial que delimitava para a marcha um ponto final. Neste ponto, se davam os maiores enfrentamentos — a polícia dispersava a multidão na base do cacete e do gás, e a multidão reagia porque ninguém nessa vida nasceu pra apanhar calado. A porrada comia porque a polícia (o Estado) estava protegendo a redação. Como a ZH (ou qualquer outro veículo da RBS) iria noticiar isso aí, compreendem? A RBS tirava esse fato do noticiário sempre que possível. Vem muito daí a construção da imagem dos vândalos, a pecha de terroristas gratuitos dos black-blocs, porque a narrativa da grande mídia era distorcida com o fim de omitir os protestos que haviam contra ela própria. (Em São Paulo e no Rio, jornalistas da grande mídia também foram ofendidos pelos manifestantes, ainda que repórteres tenham sido igualmente alvejados pela polícia.)

Essa é a tal ironia que o Sul22 professava, satirizando a cobertura (e o trabalho do Sul 21) como se fosse errado ou ridículo um veículo assumir claramente uma postura política enquanto sua linha editorial. Goste-se ou não do noticiário e da análise feita por seus jornalistas, o Sul 21 joga limpo conosco. E ser assumidamente de esquerda no jornalismo brasileiro é como se assumir negro, ou mulher, ou bicha. É defender o mais fraco. É meio que trair esse espírito de corpo da profissão que se ufana de ter anel de doutor, de ter diploma na parede, de ser diferenciado, ter direito a prisão especial. A cobertura da imprensa que se diz imparcial jogou a cavalaria pra cima das pessoas que marchavam nas ruas em editoriais que pediam que as forças da ordem agissem com rigor logo na primeira hora.

E talvez faltem mais veículos comprometidos com o ponto de vista de parcelas da sociedade que não frequentam o instagram ou a Orla do Leblon porque faltam profissionais que pertençam a estas minorias, que possam olhar para a cobertura das notícias com outros olhos, mais capacitados para analisar os fatos ante uma ótica diferente da média que vemos entrar nas faculdades de comunicação e depois nas redações.

Como a pessoa que se acredita superior a outra porque nasceu branca, completou curso superior e arranjou emprego vai olhar para uma negra que entra na faculdade porque, entre outras coisas como dedicação e competência pessoal, teve a sorte de nascer após a implantação de um sistema que visa incluir os negros dentro da educação superior se ela é incapaz de entender o que é ser mulher e negra no Brasil? Existem certas coisas que a gente simplesmente não vai aprender — vai, quando muito, aceitar a ideia de que aquilo existe, mas não vai entender de fato o que aquilo é.

Ninguém precisa de canudo de bacharel pra sacar essas coisas. Basta procurar ouvir o próximo. Mas o jornalista não precisa apenas ouvir, ele também precisa saber analisar aquilo que ouve. E é aí que a porca torce o rabo.

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