A máquina de café compensatória

“Morning Coffee”, por YoungToymaker (Flickr/Creative Commons)

Dava para perceber em seus olhos, Muriel estava acabada. Mal dormira à noite. Ficara se revirando na cama, pensando no que dera errado na entrevista. Precisava de um café. O carrinho de guloseimas demoraria a passar em sua sala. Pensou em ligar, chamar a garota e pedir sem açúcar. O azedo percorreu-lhe o céu da boca e se misturou com o fracasso.

Na noite anterior, seu marido tentou lhe dizer várias vezes: “A culpa não é sua”. Por fim, Muriel concordou, mas só porque queria que ele dormisse logo para ela poder terminar o livro que ganhara de aniversário.

Horácio percebeu os movimentos no colchão durante a madrugada. Voltado para o canto da cama, sorriu por um breve momento: imaginou a mulher se esforçando para disfarçar a inquietação sem sucesso.

Então ouviu-a contendo um choro, e seu coração quebrou em milhares de pedaços. Queria se virar, beijar a testa dela e abraçá-la. Abraçá-la até que tivessem que se levantar. Mas a conhecia com a palma da mão. Aquele momento era dela, e somente dela. Não podia interferir.

Ele só se perguntava por que diabos ela aceitara aquele outro emprego.

“Droga, vai ter de ser o café da máquina mesmo”, concluiu.

Embora a máquina de café do terceiro andar fosse apenas uma das coisas que detestava em seu emprego — talvez a mais insignificante, mas já vamos chegar nisso —, Muriel conseguia se irritar profundamente com ela.

Vivia quase sempre com defeito, a desgraçada. Às vezes se esquecia de adicionar açúcar quando pediam, servia mais água do que café ou só aceitava moedas de cinco centavos.

Muriel já enfrentara todos esses problemas, além de outro que só acontecia com ela: a máquina nunca, jamais, em nenhuma ocasião, dava-lhe a colherzinha de plástico para mexer a bebida. Não se incomodou com isso no início, mas os dias foram se tornando insuportáveis, e tudo era motivo para derrubá-la.

Ela aproveitou o espaço livre em sua mesa, pousou a cabeça e estirou os braços sobre ela. Seus membros pareciam mais pesados que o normal. “Que se dane se alguém me ver”, e bufou.

Impaciente, tentou se levantar um minuto depois. Quase deixou escapar um “filho da puta” bem alto quando o salto do pé direito virou e ela caiu sentada sobre a cadeira giratória de novo.

Desta vez, usou as mãos. Apoiou-se sobre a mesa de mogno até que encontrasse o equilíbrio. Mas parou debaixo do batente da porta da sala, fitando o fim do corredor, onde estava a máquina de café. Havia algo de diferente nele, algo muito, muito estranho. Estava mais estreito, mais extenso, e se movia como um barco em alto mar. Muriel piscou algumas vezes para se certificar do que via. Já não sabia se era o sono ou o…

— Boa tarde, garota! — saudou Karen enquanto passava por ela, na mesma direção. — Como vai? Trabalhando muito?

Muriel não quis responder, nem sua colega de trabalho deu um tempo na caminhada apressada para ouvir a resposta. Boa tarde?! Muriel queria, sim, puxá-la pelos cabelos; quem sabe, arrancar-lhe alguns dentes. Karen foi a responsável por plantar em sua mente a ideia mais estúpida de sua vida.

Quando desempregada, Muriel aceitou a ajuda de seu melhor amigo, Gabriel. Horácio já sustentava sozinho o apartamento há quase um ano, e o casal começava a enfrentar alguns problemas financeiros. Gabriel afirmava ter a solução perfeita. “É um escritório de advocacia dos grandes no centro. Eles pagam muito bem. Minha namorada pode colocá-la lá dentro.”

Mal sabia ele no que estava fazendo sua amiga se meter.

Encontraram-se, então, os três, num restaurante no fim de março. Karen parecia simpática: quis saber como era a vida dela, que experiências tinha e tudo mais. Muriel ouviu atentamente a descrição do emprego, mas em nenhum momento se sentiu atraída por ele.

— Com licença — aproveitou a brecha, enquanto o garçom anotava os pedidos. — Preciso ir ao banheiro.

Estava preparada para dizer não e acabar com aquilo o quanto antes. Contudo, acabou ouvindo uma conversa indiscreta entre Gabriel e Karen quando retornou. O restaurante estava lotado e os clientes guerreavam para ver quem falava mais alto.

— Karen, por favor, pode parar. Ela não está com cara de quem vai aceitar.

— Não vai aceitar? Como ela pretende ter o filho que tanto quer neste ano então? Esse tal de Horácio, ele é marceneiro. Como vai sustentar uma família? E duvido que sua amiga encontre outro lugar que pague tão bem!

Muriel fingiu não ter escutado nada. Mas, durante o jantar inteiro, aqueles questionamentos martelaram sua mente. Quando terminaram, Karen jogou suas últimas cartas.

— Preciso da sua resposta o quanto antes, para começar na segunda. É pegar ou largar.

Muriel pensou em Horácio, no apartamento que eles tanto lutavam para quitar e, por fim, no bebê que o teste de gravidez feito naquela tarde confirmara.

Karen dava os primeiros goles num expresso que acabara de tirar da máquina. Estava quente, pelando. Muriel recolocava seus pensamentos em ordem.

O corredor parava de balançar, mas continuava mais longo que o normal. Que ele girasse, portanto, não importava. Naquele momento, tudo que ela queria era pegar um cappuccino e se trancar em sua sala novamente.

Como se reaprendesse a andar, Muriel começou com passos curtos e lentos. Aos poucos, foi se livrando do amparo da parede.

Na medida em que fazia seu caminho, observava através das divisórias de vidro os colegas de trabalho que não a deixavam em paz. Karen e ela eram as únicas mulheres do terceiro andar. As outras 18 salas eram ocupadas por homens, ou melhor, garotos, que agiam como se estivessem no colégio, maltratando novatos.

Muriel, o único rosto novo do escritório, era obrigada a suportar piadas sobre seu nome e Horácio todos os dias. E, ainda por cima, sozinha: Karen sequer a defendia. Na verdade, foi ela quem revelou ao grupo os detalhes da vida de Muriel. Por ter mais tempo na empresa, sempre entrava na onda dos rapazes, muitas vezes ajudando-os com os comentários machistas ridículos.

Podia ter denunciado os abusos. Mas podia ter também perdido o emprego e tornado complicada a situação financeira de sua futura família antes mesmo de ela se formar. Eles saberiam de quem seria a ligação.

Não bastasse a imaturidade, aquele cargo era, para Muriel, um desperdício de seus 25 anos de estudo e carreira e de suas ideologias. A maioria das tarefas que lhe eram delegadas, por um chefe que ela nunca conheceu pessoalmente, podia ser “executada por macacos”, como ela mesma avaliava.

Além disso, trabalhava a favor de corporações gigantescas cujo lucro vinha da destruição da vida das pessoas e do meio-ambiente, como as das indústrias do tabaco e petrolífera. Na faculdade, no entanto, jurou a si mesma que lutaria contra elas.

Por isso, desde a segunda semana de trabalho, Muriel tentava conseguir um novo emprego no qual fosse respeitada, pudesse seguir seus princípios, não menosprezassem sua inteligência e lhe pagassem tão bem quanto.

Mandou o currículo para cinco escritórios de advocacia: o primeiro a rejeitou; o segundo não lhe respondeu; os outros três a convocaram para a bateria de testes e dinâmicas de grupo. Mas apenas o quinto a chamou para a entrevista final.

Era quinta-feira, o grande dia. Inventou a desculpa de que sua avó estava no hospital para faltar no trabalho e foi conhecer seu possível novo empregador, confiante de que na semana seguinte mudaria de vida. A resposta veio no fim da tarde daquele dia mesmo. E foi desanimadora.

Ao perceber que Karen a observava a caminho da máquina de café, Muriel tentou fingir um sorriso, mas só sentiu os músculos da cara trabalhando involuntariamente para expressar desprezo. Desejou atacá-la, talvez pudesse tapar-lhe a boca e enforcá-la, assim ninguém a ouviria. Mas o impulso foi rapidamente enfraquecido pelo cansaço. “Primeiro, o café, pelo amor de Deus”, implorou para si mesma. “Depois cuido dessa loura.”

Estava prestes a colocar na máquina o monte de moeda de cinco centavos que tirou da bolsa antes quando o toque do celular a fez pular de susto. Atendeu a ligação sem verificar o número, só para cessar a música, e, ignorando o olhar curioso de Karen, correu para o banheiro feminino.

Lá ninguém podia ouvi-la. Sabia disso porque era onde convertia seu ódio em lágrimas sem incômodos.

— Sim? — disse, enfim, após um bocejo.

— Amor? — era Horácio. O tom da voz era de preocupação: sua mulher saíra de manhã para o trabalho sem tomar o café e ele nem chegou a vê-la para lhe perguntar se estava melhor. — Você tava agitada ontem à noite. Conseguiu dormir?

Ali, perto da janela do banheiro, Muriel se sentiu abraçada, segura, o centro de um universo. Quis por um breve instante mentir, dizer que sim, que estava tudo bem, melhor que nunca. No entanto, não podia continuar escondendo a verdade. Uma hora ou outra, ela seria visível a todos.

— Estou grávida, Horácio. Estou grávida. É por isso que aceitei este emprego maldito. Para que não tivéssemos problemas quando essa criança nascesse. — Ouviu-se apenas o silêncio, seguido de outro bocejo que ela não conseguiu segurar. — Amor, você está bravo?

— Mas é claro que tô, Muriel! Não por causa do bebê, mas porque você decidiu fazer esse sacrifício sozinha. Disse para você no dia em que te pedi em casamento e vou repetir: estamos juntos nessa. Não quero que continue aí dentro. Esse trabalho tá acabando com você.

Em nenhum momento, Horácio levantou a voz ou gritou, mas Muriel sabia que havia errado. Ela se repreendeu por ter duvidado do potencial de seu marido, por não ter confiado nele, e sussurrou um pedido de desculpas.

— Você me deu uma boa notícia. Agora, é minha vez. – A testa de Muriel franziu de estranheza e curiosidade. — Acabaram de te ligar, da Watson & Bennett. Encontraram seu currículo na internet e queriam que você fosse a uma entrevista no escritório deles. Disseram que era mais uma burocracia, da sede americana. Mas, para eles, você já tá contratada. Que tal?

Muriel não sabia o que dizer. E, mesmo que soubesse, não conseguiria dizer nada. Seu coração estava a mil por hora. Ela ria e chorava ao mesmo tempo, soluçando entre vocábulos incompletos.

A Watson & Bennett era uma das maiores firmas social e ecologicamente responsáveis da cidade, e suas missões e valores não eram apenas fachada. Foi lá que seu pai trabalhou durante anos, combatendo a corrupção e lutando pelo ambiente onde ela crescia.

Uma das memórias mais nítidas de Muriel é a de seu pai lhe contando o que fazia, os olhos dele sempre brilhando. Muitas vezes, as histórias do trabalho substituíam os contos de fada antes de dormir.

O pai era humilde o bastante para narrá-las em terceira pessoa, mas, no imaginário da filha, a capa vermelha esvoaçante sempre caía sobre os ombros dele. Muriel sonhava em fazer parte dessa luta desde criança.

Só havia um porém: Muriel nunca colocara seu currículo na internet. Foi quando teve certeza de que era uma das pessoas mais sortudas do mundo.

— Eu te amo, Horácio — era o suficiente.

Quando saiu do banheiro, sentiu que flutuava. Acabara de tirar um peso enorme das costas, e, assim que encontrasse Karen, livrar-se-ia de outro. Não, nada de violência: ela pediria demissão. E diria a ela, antes de bater a porta e ir embora:

— Espero que você e o Gabriel não durem.

Estava mais calma, e sua mente parara de lhe pregar peças, mas a maquiagem borrada lhe intensificara as olheiras. Muriel lembrou que ainda precisava de algo para aguentar até o fim do expediente. Tudo bem, a máquina de café a aguardava.

Adicionou a moeda, apertou o botão e segurou as mãos à frente do corpo, com um sorriso — de verdade dessa vez — que ia de uma orelha à outra.

Desceram o copo (clique), o açúcar (clique), o café expresso (clique) e então o leite (clique). Antes de tirar sua bebida, pegou um copo de plástico perto do bebedouro para mexê-la, como sempre tinha de fazer.

A máquina ainda fez mais um clique, mas Muriel já estava longe para escutá-lo. Acontece que haviam descido não uma, mas duas colherzinhas de plástico para ela misturar o cappuccino.