A chegada e os primeiros dias em Zahko

Divulgação: Associação Amigos da Arte de Educar

Reinaldo Nascimento faz parte de uma equipe internacional de educadores que trabalham com jovens em situação traumática. A partir de hoje ele escreve o diário Pedagogia de Emergência em Zahko

Terceira maior cidade iraquiana depois de Bagdá e Basra, Mossul foi capturada pelo Estado Islâmico em 2014. A cidade é a peça mais importante no califado que o grupo terrorista tenta implantar com a ocupação e consequente eliminação de fronteiras de parte da Síria e do Iraque. A tentativa de retomada do controle de Mossul por uma coalização de forças oficiais iraquianas vindas de Bagdá, de soldados do Curdistão baseados em Erbil e de milícias xiitas apoiadas pelo Irã, com o apoio aéreo e logístico norte-americano, faz da cidade o palco de uma guerra sangrenta. O EI, para defender o território ocupado, usa de todos os armamentos, inclusive ataques suicidas com carros e motocicletas e franco atiradores posicionados nos telhados das casas. Nas residências ocupadas, armadilhas explosivas são instaladas e seus moradores são tomados como reféns. Um verdadeiro inferno.

Não há números exatos, mas estima-se que antes da ocupação do Estado Islâmico, Mossul tinha uma população de mais de 2 milhões de pessoas e, segundo a ONU, 1 milhão e meio lá permanecem. Ainda segundo a ONU, 1 milhão de habitantes devem ser desalojados pela guerra e 700 mil vão necessitar de abrigo.

Campos de refugiados, a poucos quilômetros de Mossul, crescem aceleradamente. Entre as vítimas do conflito, milhares de crianças e adolescentes que passaram por experiências traumáticas. Elas sofrem opressões étnicas, vivenciam guerras e são torturadas. Algumas são usadas como soldados.

A associação alemã Freunde der Erziehungskunst Rudolf Steiner (Amigos da Arte de Educar de Rudolf Steiner) atua em campos de refugiados a fim de trabalhar com crianças e adolescentes com traumas psíquicos em regiões de crise. Uma equipe de oito educadores sociais da associação está, neste momento, em um campo de refugiados em Zahko, no Iraque, perto de Erbil, cidade curda, a 80 quilômetros ao norte de Mossul. Entre eles, o brasileiro Reinaldo Nascimento, de 38 anos, nascido na cidade de São Paulo.

Nascimento está lá para fazer o que chama de Pedagogia de Emergência, uma intervenção pedagógica para esses jovens em situação de extrema vulnerabilidade. Por meio de artes, jogos, tempo livre para brincar e fases de expressão criativa e artística, cria-se recursos de sobrevivência para jovens soterrados por conflitos.

Reinaldo Nascimento escreveu o diário da Pedagogia de Emergência em Zahko, onde esteve a partir do dia 4 de novembro.

O DIÁRIO

Dia 4 de novembro de 2016

A viagem do Brasil para a Alemanha foi bem tranquila! Nem a turbulência me abalou. As poucas horas que dormi foram suficientes para eu chegar bem na Alemanha.

O controle do passaporte mais uma vez queria saber o motivo de um brasileiro ir para o Curdistão-Iraque, principalmente agora onde as coisas não estão fáceis? Expliquei o trabalho e o policial, com uma cara de espantado, me desejou muita sorte.

Depois de uma corrida, consegui pegar o trem e fui direto para o escritório. Tinha ainda muitas coisas para arrumar. Conferir os capacetes e os coletes à prova de bala. Mochilas, lanternas, documentos, spray de pimenta, canivete. Tudo conferido!

No hotel, encontrei duas colegas. Jantamos e fomos direto para os nossos quartos.

Hoje, 4 de novembro de 2016, acordei às 4h e fomos direto para o aeroporto. Check-in, café e fomos para Viena. Lá, encontramos os outros colegas. Somos oito desta vez. No voo para Erbil, fica claro o medo que as pessoas têm do Iraque neste momento. Esta é minha quarta viagem ao Curdistão-Iraque e os voos sempre estiveram lotados. Desta vez, somente 25% do avião estava ocupado!

Quase todos jornalistas. Alguns médicos sem fronteiras, alguns curdos e nós, pedagogos de emergência. O voo foi bem tranquilo. Do lado de fora do aeroporto, já era possível ver helicópteros do Exército. As pessoas estão mais tensas. Tudo pode acontecer nos próximos dias.

De Erbil fomos para Zahko e essa viagem normalmente dura quatro horas. Mas precisamos de quase seis, pois o motorista não queria passar muito perto de Mossul, que foi ocupada pelo Estado Islâmico e agora está num processo de liberação. Todos estão apreensivos, pois qualquer que seja o resultado final, milhares de pessoas deixarão suas casas e se refugiarão em outras cidades.

Amanhã, teremos uma reunião para nos atualizarmos e ver o que realmente devemos fazer. Nós nos encontraremos com o time de pedagogos de emergência que se formou nos últimos anos e com os outros times que devem ser formados nos próximos meses!

Aqui já é quase uma da manhã. Volto amananhã com mais detalhes, ok?

Reinaldo Nascimento escreve o diário Pedagogia de Emergência em Zahko para Brasileiros. Divulgação Amigos da Arte de Educar Rudolf Steiner

Zahko, 5 de novembro de 2016.

Os dias escurecem mais cedo agora aqui no Curdistão e eu sinto falta dos dias longos de verão que já vivenciei aqui! Era sempre um teste de limites. Era muito estranho ver os termômetros marcarem 50 graus, porém acho estranho hoje ver o mesmo termômetro marcando 13 agora, às 22h, e saber que durante a noite chegará a 8.

Ainda estamos bem cansados da viagem. Para os outros colegas, foram 19 horas de viagem. Para mim, foram 31 horas. Mas acordei bem. Sabia que veria os colegas curdos e é sempre uma grande alegria estar ao lado deles.

Campo de refugiados Chamuski. Foto: Reinaldo Nascimento/Divulgação Amigos da Arte de Educar Rudolf Steiner

Jakob, Haman, Najila, o senhor Ramid. Bom abraçar este povo! O senhor Ramid é uma inspiração. Esse senhor perdeu tudo o que tinha. TUDO mesmo! Estou seguro de que muitas pessoas cometeriam suicídio se tivessem vivido o que esse senhor viveu! Foi preso e como castigo ganhou um livro, mas um livro escrito em inglês e ele não falava este idioma. Com esse livro, aprendeu inglês e, quando saiu da prisão, foi trabalhar com o Exército americano, pois falava muito bem o idioma. Ganhou muito dinheiro. Construiu a casa dos sonhos e casou todas as filhas. O Estado Islâmico chegou e destruiu tudo. Não ficou nada de pé! Teve de correr para não morrer. Hoje vive no campo junto com mais de 20 mil pessoas numa barraca pequena, mas não perde o sorriso.

É honesto consigo e com os outros.

Lembro-me com muito carinho de um dia em que o sol era mesmo de matar! Era difícil respirar e muitas pessoas estavam reclamando e ele me disse “Reinaldo, este povo está reclamando do sol. Está quente mesmo, mas você imagina se o sol não existisse?” A única coisa que consegui fazer foi apertar a sua mão e convidá-lo para dividir a água que eu carregava comigo. Ainda pensei comigo que aquela água sem aquele sol não seria tão especial.

Haman se casou e só dá risada. Seu inglês melhorou muito e ele está super orgulhoso! Najila era muito tímida e não tínhamos certeza se ela aguentaria trabalhar com tantas crianças. Ela não só conseguiu como virou referência para os novos colegas curdos.

Crianças do campo de refugiados Chamuski. Foto: Reinaldo Nascimento/Divulgação Amigos da Arte de Educar Rudolf Steiner

Hoje, trabalhamos com um time curdo formado por 20 colegas, a maioria moradores dos três campos, Berseve I e II e o Chamiska. Juntos esses campos acolhem quase quarenta mil pessoas. Eles estão trabalhando muito bem. As crianças vêm para os centros de proteção Infantil e juvenil com muita alegria. Ficam tristes quando não há atividades. Os centros estão muito bonitos, limpos, coloridos e até árvores e flores foram plantadas. É fácil perceber que o trabalho aqui tem sido um grande sucesso!!!

Os campos em si me surpreenderam. Quando cheguei ao Curdistao-Iraque pela primeira vez, a situação era desastrosa. Muita gente nas ruas, muito caos, muito desespero. Os campos estavam lotados e as pessoas não paravam de chegar. Mas eu percebia certo desejo de não arrumar as coisas, pois eles queriam voltar o mais rápido para suas casas e de certa forma, acreditavam que isso era possível.

Hoje, os três campos estão muito calmos. A impressão que tive é que as pessoas não acreditam mais que poderão voltar às suas casas… Alguns colegas me disseram que em suas cidades não sobrou nada a não ser milhares de minas espalhadas por todos os cantos. Voltar para quê? Eles não têm dinheiro para a reconstrução e a situação econômica do Curdistão e do Iraque não são as melhores há muito tempo… E realmente a situação dos campos melhorou. O comércio no campo cresceu muito. Pode-se encontrar quase de tudo. Frutas, roupas, colchões, celulares, etc e é possível tomar o famoso chá preto com muito açúcar! Uma pequena cidade tranquila!!!

Mas o grande medo ainda é a incerteza do que do que acontecerá com Mossul, caso ela seja liberada pelas tropas iraquianas e pelos aliados. Ninguém está seguro. Ninguém quer dar um palpite! Muitos acreditam que se o Estado Islâmico deixar Mossul, mais de um milhão de pessoas deverão deixar a cidade em busca de refúgios. As pessoas estão sempre acompanhando os noticiários.

Para terminar ainda quero que saibam que decidimos investir na formação de mais educadores. Estamos nos preparando para o pior e isso significa realmente contar com a chegada de mais de um milhão de pessoas, a maior parte é sempre formada por crianças e jovens. Também sabemos que muitas mulheres são mantidas como escravas e escravas sexuais.

Para receber tantas pessoas, precisaremos de mais pessoas capacitadas e nessas duas semanas, vamos trabalhar nos campos com os colegas que estão em formação e à tarde teremos seminários com teoria e muitas oficinas práticas. Também trabalharemos com os pais, com os professores e provavelmente realizaremos um seminário na Universidade de Dohuk.

Uma boa noite!

Reinaldo

— 
Zahko, 6 de novembro de 2016.

A noite foi longa para mim. E não foi só por causa da longa viagem e do fuso horário.

Como já escrevi antes, esta é a minha quarta vez no Curdistão-Iraque e sei que não será a ultima e mesmo assim, muitas vezes me pergunto por que tanta maldade neste mundo? Fiquei pensando nas tantas pessoas que me perguntam o tempo todo o motivo dessas minhas viagens, por que me arriscar tanto por pessoas tão desconhecidas?

As montanhas de Zahko, Iraque. Foto: Reinaldo Nascimento

Minha cabeça fervia e assim não consegui dormir. Acordei muito cansado e fui para o terraço do hotel onde estamos hospedados. A visão é magnífica e rara de ver. Como chove pouco por aqui, a poeira é enorme e pouco se aprecia a beleza das montanhas. Hoje, deu para ver tudo. A fronteira com a Turquia estava clara como nunca tinha visto antes…

Mas foi a chegada ao Campo Chamuski que tive a resposta… Os nossos colegas curdos estão trabalhando muito bem. O ritmo, as músicas, o cuidado, a alegria é fácil de perceber. As crianças chegam correndo com seus crachás balançando no pescoço e vão direto para o centro onde a roda está sendo formada. Juntos, falamos um verso, cantamos uma canção curda e fazemos um trabalho de movimento. Tudo com muita harmonia. As crianças me olham com aquela cara espantada e se perguntam como este homem sabe as coisas que sabemos. Nadja tem só 4 anos e corre para segurar a minha mão, Ahmed tem 7 e segura a outra. Depois a dura decisão de ter que escolher a sala da Nadja ou do Ahmed. A Nadja foi mais forte. Ela me mostra tudo, onde tenho que tirar e deixar o meu tênis, onde posso me sentar e que temos que esperar um pouco. Tudo isso em curdo e ela explica tudo como se eu estivesse entendendo tudo. O que eu entendo de curdo foi somente o suficiente para saber que eu estava me comportando bem!

Duas horas de trabalho. O tempo passou muito rápido. Nadja já estava cuidando de outras crianças com o desenho e com as outras brincadeiras… No intervalo, encontrei o Ahmed com aquele sorriso enorme correndo em minha direção com os cabelos loiros brilhando com o sol. Mais explicações em curdo. Me mostra a sua sala, o seu desenho, o seu chinelo. Meu colega explica para ele que sou brasileiro e que não falo muito bem o curdo. Ele me olha, balança o ombro e diz que sou um bom homem.

A resposta é esta. De onde vemos é o que menos importa. Ele nunca ouviu falar do Brasil. Vive há cinco em campos diferentes e está feliz! O que estas crianças querem são pessoas boas aos seus lados!

De volta à sala, Nadja me pergunta se está tudo bem comigo. Eu digo que sim. Ela me deixa e vai se sentar ao lado de uma outra criança.

A roda final é feita com muita alegria. Muitas crianças não querem deixar o espaço! Querem ficar…

A vida escolar nos campos aqui em Zahko, onde estamos trabalhando não é muito fácil. Temos contato com uma escola onde 750 alunos são divididos entre 17 professores, ou seja, quase 45 alunos por sala. Salas que só deveriam receber 30 alunos. Muitos dos professores perderam suas casas, muitas de suas esposas ainda estão presas pelo Estado Islâmico. Ou seja, a maioria destes professores precisam de ajuda e estão recebendo. Eu só consigo respeitá-los e admirá-los. Conversei com o professor de inglês, mas ele não fala inglês. Achei que tinha se candidato ao cargo para ter um salário, mas a verdade é que ele realmente lecionava inglês, mas depois que teve que se refugiar, não consegue mais se concentrar num outro idioma. Ele acha que está falando inglês, mas o que realmente sai de sua boca, são frases incompletas e difíceis de entender. Ele, no momento, entende mais do que fala!

Espero dormir melhor hoje, o dia será longo amanha!

Um forte abraço deste país onde também se pode comer arroz com feijão!!!

Reinaldo