Liberalismo de barões

O Liberalismo surgiu em uma época marcada pelo absolutismo, foi revolucionário em se posicionar contra privilégios e, pela primeira vez na história, afirmar que todos deveriam ter direitos iguais. Atacava um estado onipotente e uma nobreza exploradora. Acreditava que o fruto da criação de riqueza era o trabalho e que, por consequência, nada mais injusto que uma aristocracia viver às custas de um campesinato. Os burguêses, ainda não alinhados ao estado, que, pelo contrário, os marginalizava, foram fortemente defendidos por essa tradição liberal.

Os séculos se passaram e a elite rural foi substituída pela econômica, a terra pelo capital. O estado, que antes reduzia a posse da terra aos nobres, passou a então beneficiar, à mesma medida, os grandes empresários. E os liberais, outrora críticos dos privilégios, foram influenciados por essa elite burguesa à defende-los. Não estranhamente menos de uma década após a publicação d'O Capital, por Marx, três economistas diferentes independentemente propuseram alternativas à secular teoria do valor que dava subsidio à retórica da mais-valia. Por mais interessantes e válidas que foram essas contribuições, claramente o que as motivou foi um anti-marxismo e uma demanda de empresários querendo manter suas regalias.

O liberalismo contemporâneo não é muito diferente desse surgido no século XIX, de uma luta contra o poder e uma aristocracia rural, se tornou uma apologia a empresas privadas. Viciados na crítica ao Estado, os liberais se esqueceram de atacar grandes corporações, que mais se parecem com os senhorios do Antigo Regime. Repetem cegamente um discurso construído sob um contexto em que burgueses ainda eram oprimidos pelo poder e se negam a discutir problemas reais, como a concentração de capital. Podem até defender, com má vontade, que não vivemos em um livre mercado verdadeiro; mas não tardam a defender o empresário como o personagem bondoso que dá emprego aos trabalhadores, simetricamente ao abençoado que cedia a terra a ser cultivada pelo camponês. Acreditam que por um acaso, ou pior, pelo mérito, um grupo acabou tendo propriedades para servir àqueles sem nada a oferecer além do próprio trabalho, mas ignoram que isso é fruto da coerção estatal que tanto dizem combater.

O capitalismo, confundido pelos próprios liberais com o livre mercado, não passa de um sistema em que monopólios — como o do capital, das tarifas, das patentes etc. — são garantidos através da força, e os detentores, grandes empresários, vivem do privilégio de controlar o acesso a eles, de maneira análoga à nobreza portadora de terra. Muitos dos princípios usados por Adam Smith para atacar mercantilistas e senhorios poderiam, sem tirar nem por, ser replicados para criticar as grandes empresas e o capitalismo moderno: "Arriscar-me-ia a afirmar que dificilmente existe na Inglaterra um pobre de quarenta anos de idade que em algum período de sua vida não tenha sentido em sua própria pele a opressão cruel dessa infeliz lei sobre a residência.", troque lei da residência por leis que garantem a concentração do capital, e o comentário três séculos depois se mantêm atual. O próprio Chomsky, auto intitulado anarco-sindicalista, reconhece esse desvirtuamento da tradição liberal e defende o liberalismo clássico dentro de sua obra anarquista: "É superficial e equivocado aceitar as conclusões que foram feitas em uma sociedade diferente e não considerar os motivos que levaram a essas conclusões. O raciocínio, creio eu, é fundamental. Eu sou liberal clássico neste sentido. Mas eu acredito que isso me leva a ser um tipo de anarquista, um anarco-socialista.". É ele, inclusive, o autor da precisa descrição de capitalismo como: A socialização do risco e do custo, e a privatização do lucro.

Em 1846, Almeida Garrett já se sentia traído pelos liberais. Hoje, mais que nunca, vivemos seu liberalismo de barões.

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