
É mais difícil falar sobre alguns livros, seja pelo seu peso histórico ou pelo quanto você amou (ou odiou) a história contada e se apegou àquelas páginas. Talvez seja por isso que esse texto demorou tanto para sair e a quantidade de vezes que o reescrevi. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, é um marco na literatura e uma das minhas leituras favoritas, como convencer você a dar uma chance para um livro que fala sobre a queima de outros livros?
Na trama, conhecemos o bombeiro Guy Montag, e, se você está achando que seu trabalho é o de apagar incêndios, está completamente enganado. Montag incendeia livros — aliás, é daí que vem o título do livro, já que 451 são os graus necessários na escala fahrenheit para que o papel incendeie. Parte de todo um sistema, ele é como uma peça que cumpre seu papel na sociedade para se divertir de maneira vazia e mergulhar numa felicidade aparente e oca. Porém, o personagem pouco a pouco lê e reflete, começando a quebrar esse modo irreal e alienado de ver a sociedade em que está inserido, observando as coisas que o circundaram durante toda sua vida sob uma nova perspectiva crítica. E o que lhe sobra quando o seu mundo é virado do avesso sem sobreaviso?
O alarme sempre chega à noite. Nunca de dia! Será porque à noite o fogo é mais bonito? Mais espetacular, um programa melhor?
O vazio de uma personagem como Mildred, que não apenas está na ignorância, como quer permanecer nela, é o contraponto para o próprio desenvolvimento de Montag e para a presença de pessoas como Clarisse na trama. É o contraste entre uma existência pasteurizada e despretensiosa e a vida real.
Ao evocar textos e frases célebres, como “Aja como homem, mestre Ridley; havemos hoje de acender uma vela tão grande na Inglaterra, com a graça de Deus, que tenho fé que jamais se apagará“, de Nicholas Ridley, Bradbury cria um cenário ainda mais preocupante, por colocar nessas páginas o que a humanidade perdeu em troca de viver de forma estrondosa.
O futuro proposto por Bradbury parece ainda mais obscuro do que os de outros clássicos da ficção científica como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, que são construídos em cima de governos autoritários. Em Fahrenheit 451, a censura se fortifica em função do desinteresse da sociedade pelo conhecimento, mais preocupada que está em manter sua felicidade barulhenta e vazia. Deste vácuo nascem ruínas intransponíveis.
Fahrenheit 451 é, certamente, a distopia clássica que mais me apavora. Não por vê-la como o futuro mais cruel, mas por que ao contrário de romances como Nós ou 1984, não temos uma sanção imposta arbitrariamente por um regime, temos apenas a institucionalização de um apelo geral da sociedade pelo fim dos livros.
Aliás, esse sempre foi um ponto que Bradbury defendeu muito em entrevistas após a publicação de 451, a de que seu livro não descrevia uma sociedade com uma censura total de material impresso, apenas imaginava uma sociedade em que os ditos meios de comunicação em massa — televisão e rádio — alienavam as pessoas a ponto do livro ser considerado obsoleto.
Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo!
O melhor de tudo? Ray Bradbury amarra tantos temas e reflexões de maneira consciente e lógica dentro da narrativa, não fazendo com que o livro soe didático em momento algum. Pelo contrário, a narrativa do autor é fantástica e torna a leitura super fluída.
No fundo, Fahrenheit 451 é um livro sobre relacionamentos, que apenas se vale de uma sociedade incendiária para questionar o que nos torna humanos no fim do dia. É um alerta de Bradbury feito há 60 anos que soa alto e claro em tempos em que as informações (ainda que vazias ou sem profundidade) chegam aos montes pelas redes sociais.

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Autor: Ray Bradbury
Editora: Biblioteca Azul
Número de páginas: 215
Ano: 2012
Sinopse: Escrito após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1953, Fahrenheit 451, de Ray Bradubury, revolucionou a literatura com um texto que condena não só a opressão anti-intelectual nazista, mas principalmente o cenário dos anos 1950, revelando sua apreensão numa sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. Agora, o título de Bradbury, que morreu recentemente, em 6 de junho de 2012, ganhou nova edição pela Biblioteca Azul, selo de alta literatura e clássicos da Globo Livros, e atualização para a nova ortografia. A singularidade da obra de Bradbury, se comparada a outras distopias, como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou 1984, de George Orwell, é perceber uma forma muito mais sutil de totalitarismo, uma que não se liga somente aos regimes que tomaram conta da Europa em meados do século passado. Trata-se da “indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético — a moral do senso comum”, segundo as palavras do jornalista Manuel da Costa Pinto, que assina o prefácio da obra. Graças a esta percepção, Fahrenheit 451 continua uma narrativa atual, alvo de estudos e reflexões constantes.
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