Julie Andrews no clássico da Disney Mary Poppins, de 1964. — Imagem: Disney/Reprodução

Julie Andrews não é Poppins

Como o livro de P.L. Travers mudou a minha visão da babá mais famosa da cultura pop

Publicado em 1934, o livro Mary Poppins é a obra mais conhecida da australiana Pamela Lyndon Travers, que também foi atriz e jornalista. A história da mágica babá britânica inspirou várias obras, entre elas, o clássico filme da Disney de 1964, no qual Julie Andrews interpreta Poppins, o que lhe rendeu um Oscar de melhor atriz.

Assim, é surpreendente que baste apenas alguns minutos lendo Mary Poppins para que você tenha um dos maiores choques que já teve ao ler um livro: Poppins não é uma Julie Andrews sorridente que canta e saltita. Pode se jogar um balde de água fria se é isto que você espera ao ler o livro de Travers, pelo contrário, o clima criado pela autora no livro é mais obscuro e bem menos simpático que a colorida versão imaginada por Walt Disney.

A história é uma velha conhecida de muitos. Outra babá vai embora da casa da família Banks e eis que quando as esperanças já acabaram uma nova babá surge inesperadamente na velha casa da rua Cherry Tree Lane, Número Dezessete. Esta babá, Mary Poppins, não só cuidará das quatro crianças Banks — Jane, Michael e os Gêmeos — , como abrirá os olhos deles para a magia e os mistérios que os cercam.

Depois do jantar, Jane e Michael se sentaram na janela à espera do sr. Banks voltar para casa, e ouviram o som do Vento Leste soprando através dos galhos nus das cerejeiras na rua. As próprias árvores, girando e se mesclando à meia-luz, pareciam ter enlouquecido e dançavam, arrancando suas raízes do chão. […] No instante em que a silhueta passava pelo portão, o vento pareceu levantá-la no ar, atirando-a perto da casa.

Mary Poppins é, aqui, uma figura ácida, vaidosa e com um quê ditatorial, em um estilo bem mais inglês do que aquela interpretada por Andrews. Mesmo que ela se preocupe com as crianças e lhes apresente ao seu mundo mágico, ela não se esforça para saí-los agradando e sendo carinhosa com eles.

O livro todo possui um tom misterioso, assim como o que cerca Poppins, que chega e vai embora com o vento. A narração de Travers é um pouco diferente da maioria dos demais autores de livros infantis, inclusive de seus contemporâneos. Os capítulos parecem não ter ligações diretas uns com os outros, mas que são amarrados juntos pelo final, enquanto que as suas descrições são mais subjetivas, indiretas; e isto é algo positivo. Desta forma, a autora consegue tornar o livro mais único para cada um, fazendo com que ele evoque suas lembranças e experiências para dar forma ao mundo escrito pela autora.

A edição da Cosac Naify é incrível, como já é costume da editora. As ilustrações feitas pelo estilista Ronaldo Fraga são bonitas e casam bem com o texto, a diagramação é ótima para leitura, o papel é amarelado e a lombada do livro é um tanto o quanto diferente…

Mary Poppins, de P.L. Travers, é uma leitura gostosa de se fazer, ainda que surpreenda pelas diferenças com a sua versão cinematográfica. Sendo o primeiro de uma série — mesmo que a história deste livro seja fechada — e com o fim da Cosac Naify, fica a dúvida se veremos os demais livros sendo lançados no país.


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