O realismo fantástico de Fitzgerald

Em “O Curioso Caso de Benjamin Button”, autor de “O Grande Gatsby” vai inverter a lógica da vida

Preciso confessar uma coisa, mesmo que saiba separar uma obra da outra, sou uma dessas pessoas que prefere ler o livro antes de ver o filme. Não sei o porquê, mas sempre que sai uma adaptação de algum livro que ainda não li e eu quero assisti-la, me escondo das redes sociais enquanto não terminar de ler o que quer que tenha originado o que vou ver nos cinemas, seja romance, conto ou novela. Mas, às vezes, acontece de se assistir algo sem saber que aquela história, boa ou não, veio de algum romance e eu me pegue sabendo disso só meses ou até anos depois.

Outra coisa que preciso confessar nessa resenha: curto o trabalho do David Fincher. Como diretor ele fez alguns dos meus filmes favoritos, como Se7en e Clube da Luta, e já participou em outras funções de filmes como A História Sem Fim, Star Wars: O Retorno de Jedi e Indiana Jones: O Templo da Perdição.

Onde quero chegar com esses dois parágrafos? O Curioso Caso de Benjamin Button, é um dos melhores filmes de Fincher, que só descobri há três meses ser um conto de Fitzgerald, o que fez com que me apaixonasse mais uma vez pela história, dessa vez, como leitor.

Somos apresentados ao personagem do título quando o Sr. Button vai ver sua esposa no hospital, que acabou de dar à luz, e percebe que os funcionários do hospital estão nervosos, o que ele compreende quando vê que o seu filho não é um belo bebezinho, mas um senhor de idade rabugento. Assim, em O Curioso Caso de Benjamin Button, o tradicional sentido da vida, no qual, em tese, as pessoas nascem, crescem e morrem é subvertido, e vamos acompanhar Benjamin enquanto ele “desenvelhece“, tornando-se mais novo, até chegar o derradeiro momento em que ele se tornará um bebê e deixará de existir.

– Bem — arquejou o sr. Button — Qual deles é o meu bebê?
– Aquele! — falou a enfermeira.
Os olhos do sr. Button acompanharam o dedo apontado da mulher, e eis agora o que ele viu. Enrolado num volumoso cobertor branco, e parcialmente imprensado dentro de um dos berços estava um velho que aparentava ter cerca de setenta anos de idade. O cabelo ralo era quase branco, e de seu queixo pingava uma longa barba de cor esfumaçada, a qual oscilava absurdamente para lá e para cá, soprada pela brisa que entrava pela janela.

Bem diferente de sua contraparte cinematográfica, o conto foi escrito pelo norte-americano F. Scott Fitzgerald, conhecido principalmente por O Grande Gatsby, e torna fácil entender os motivos que fizeram esse autor ser um dos grandes expoentes da chamada Geração Perdida, ao lado de Hemingway, T.S. Eliot e Ezra Pound. A história não só é interessante e se utiliza do realismo fantástico para retratar a sociedade da época (e que, infelizmente, ainda representa muito da nossa realidade), como é rica em metáforas e simbolismos para nos contar a história de um homem que nunca se encaixa em lugar algum, ao mesmo tempo em que nos fala tanto sobre nossos preconceitos e sobre a finitude da vida.

Grande parte da beleza de O Curioso Caso de Benjamin Button é justamente que Fitzgerald espreme toneladas de pensamentos, reflexões e observações sobre a vida em pouco menos de cinquenta páginas, que embora sejam fáceis de serem lidas em apenas uma sentada, por assim dizer, estão abertas à reflexão do leitor e certamente o farão pensar por um bom tempo.

A edição que li foi publicada pela Folha de São Paulo e integra a coleção Grandes Nomes da Literatura, trazendo um acabamento gráfico competente, com capa dura, diagramação confortável e páginas amareladas. Além disso, o texto foi bem editado e não notei nenhum erro na tradução de Rodrigo Breunig ou na revisão.

– Vá procurar algumas roupas para o seu filho na cidade.
A voz do filho do sr. Button o seguiu pelo corredor:
– E uma bengala, pai. Eu quero ter uma bengala.

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