
Hitchcock e os Bastidores de Psicose
Stephen Rebello cria um relato sobre um dos principais diretores da história do cinema e a sua obra mais famosa
É difícil imaginar uma pessoa que não conheça a música-tema ou nunca tenha visto a famosa cena do chuveiro da obra mais conhecida e icônica de Hitchcock, Psicose fez — e continua a fazer — história mesmo quase 60 anos após o seu lançamento. E a ideia por trás de Hitchcock e os Bastidores de Psicose, escrito pelo jornalista e roteirista Stephen Rebello, é justamente acompanhar todo o processo de concepção do filme, seu lançamento e impacto na cultura pop em geral e no cinema.
Não nego que sou fã de cinema e apaixonado pela filmografia de Hitchcock e seu legado na forma como o cinema é produzido e é consumido, logo não é surpresa que esse livro tenha se tornado uma das minhas (re)leituras favoritas dos últimos meses, Rebello consegue se aprofundar em cada ponto da produção do longa — da cinematografia a trilha sonora — sem soar repetitivo. A quantidade de material e de fontes, inclusive vários dos integrantes da equipe de produção e dos atores, conseguem recriar com exatidão o clima do set de Psicose e o peso do filme na vida do diretor. Aliás, um dos pontos reforçados por Rebello é o quão indissociável é a figura de Hitchcock de seus projetos, principalmente desse.
O filme foi baseado no livro homônimo escrito por Robert Bloch, publicado em 1959, que o escreveu baseado em um caso chocante que aconteceu em um pequeno vilarejo de Wisconsin, nos Estados Unidos, onde houve um grande caso na época envolvendo um serial killer — Ed Gein — que possuía vários pedaços do corpo humano espalhados pela casa. O livro atingiu um certo sucesso e a história chamou a atenção de Hitchcock, que na época já tinha vários filmes grandiosos e com orçamentos gigantescos (e que também entraram para a história do cinema), como Janela Indiscreta (1954) e Um Corpo que Cai (1958).
Após alguns fracassos comerciais, como o próprio Um Corpo que Cai, a Paramount não estava disposta a financiar um orçamento grande para mais um filme do diretor, temendo um outro fracasso, o que faz com que Hitchcock, bem crente na sua ideia (e com uma segunda rejeição, quando ofereceu um processo de produção mais barato), banque a produção do filme inteiro a partir de suas economias, utilizando os estúdios da Universal-International e só a distribuição ficando por conta da Paramount, o que o levou inclusive a arriscar perder sua própria casa. A partir disso, Hitchcock passa a produzir o filme em um curto espaço de tempo e buscando ao máximo unir qualidade a um baixo custo, que o levou a tomar várias das decisões pelo qual o filme se tornou famoso, inclusive.
Rebello consegue demonstrar em seu livro que Hitchcock teve o apoio de um elenco fantástico e de verdadeiros gênios em cada uma das áreas da produção, como o Bernard Herrmann, que trabalhou na trilha sonora de filmes como Taxi Driver, do Scorsese, e Cidadão Kane, do Welles, e que por isto o filme consegue ser tão icônico. Porém, por outro lado, o autor também reforça a ideia de que o diretor se preocupou e se envolveu nos mínimos detalhes de cada parte da produção, imprimindo sua assinatura em cada frame do filme e sendo o grande responsável por fazer Psicose ser aquilo que é hoje.
Um dos pontos mais interessantes abordados no livro são a campanha de marketing do filme, que mudou até alguns dos hábitos comuns dos frequentadores de cinema da época: o trailer era uma apresentação do próprio Hitchcock passeando pelos cenários do filme, a proibição da entrada de pessoas que perdessem a entrada do filme, a compra massiva de exemplares do livro para que ninguém soubesse o final da história e a campanha que pedia para que os espectadores guardassem o segredo do filme.
Outro é a descrição do trabalho do diretor enquanto filmava, demonstrando passo a passo como foi gravada aquela que é, possivelmente, a cena mais icônica do cinema. Mostra como o suspense de Hitchcock influenciou e inovou nas técnicas de composição de cenas, no movimento da câmera, nas edições, e como eles são usados pela indústria ainda hoje, o que pode fazer até com que os filmes dele soem meio conhecidos.
Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose, de Stephen Rebello, é uma leitura fácil e ágil, fundamental para quem gosta de cinema, ainda que não tenha um caráter mais técnico, sendo uma verdadeira aula ao mostrar a construção das narrativas visuais por meio do grande cineasta que foi Hitchcock. Há ainda um tom mais pessoal, que lembra uma biografia, em determinados momentos do livro e que demonstram o quanto a vida pessoal do diretor e a produção deste longa-metragem são um só.

Autor: Stephen Rebello
Tradutor: Rogério Durst
Editora: Intrínseca
Ano: 2013
Número de páginas: 256
Sinopse: Psicose, de 1960, entrou para a história do cinema como uma das obras mais importantes do mestre do suspense Alfred Hitchcock. No livro, o jornalista e roteirista Stephen Rebello desvenda os bastidores da produção considerada pelo American Film Institute o melhor thriller de todos os tempos, conta a impressionante história real que inspirou o filme e revela a decisão do cineasta, após a recusa do projeto pela Paramount, de bancar ele próprio as filmagens, atraindo estrelas famosas por uma fração do cachê habitual, marca de sua obstinação artística e determinação.