Cena da adaptação de 1914 do livro Um Estudo em Vermelho, dirigida por George Pearson — Imagem: Reprodução/BFI UK

Este é Sherlock Holmes

Um Estudo em Vermelho, de Conan Doyle, nos apresenta ao detetive mais famoso do mundo

Dr. Watson, após um longo período servindo ao exército no Afeganistão, está à procura de alguém para dividir um apartamento, afinal, ele retornou ferido da guerra e a pensão dada pelo Estado é pouca para que ele continue pagando o hotel onde está hospedado. Assim, quando cruza um velho conhecido seu, que diz conhecer um “pseudo-químico” que havia dito a mesma coisa naquela manhã no laboratório do hospital, ele logo parte para encontrá-lo. É desta forma que Watson conhece Sherlock Holmes e temos o início de uma das duplas mais famosas da literatura.

Surpreso (e um pouco desconfiado) desde o início com a habilidade dedutiva de Holmes, Watson só descobre a real ocupação do curioso indivíduo dias depois de dividirem o número 221B da Baker Street: detetive consultor, ou seja, alguém consultado por outros detetives para ajudar a resolver casos, aparentemente, impossíveis de serem solucionados. É desta forma que Holmes apresenta seu método de dedução, explicando a Watson como soluciona os casos, mas este ainda continua duvidando e só passa a realmente acreditar nas habilidades do detetive com a solução do mistério.

Dividido em duas partes, Um Estudo em Vermelho narra, inicialmente, o encontro entre estes Holmes e Watson, a apresentação dos outros personagens e a resolução de um assassinato, para que depois, na segunda parte, Doyle se aprofunde e nos conte o motivo por trás do crime, por meio de um narrador em terceira pessoa. Ambas as partes são bem distintas e é até possível achar que o autor se perdeu no meio da narrativa, porém o final entrelaça as duas partes e, provavelmente, conquista o leitor de uma vez por todas.

Justamente esta divisão em duas partes diferentes, mostrando ângulos distintos de uma mesma história, da maneira que é colocada por Conan Doyle foge um pouco do esquema mais comum dos romances policiais. A escrita objetiva e ágil do autor, faz com que o crime permaneça interessante do início ao fim sem que seja preciso dar voltas ao redor da história. Tanto que mesmo com o assassino sendo revelado no meio do livro, fica difícil não devorar as páginas até o final.

Para mim, o cérebro humano, em sua origem, é como um sótão vazio que você pode encher com os móveis que quiser. […] É um engano pensar que o quartinho tem paredes elásticas que podem ser estendidas à vontade. Chega a hora em que, a cada acréscimo de conhecimento, você esquece algo que já sabia. É da maior importância, portanto, evitar que informações inúteis ocupem o lugar daquelas que têm utilidade.

A diferença gritante entre o olhar dedutivo de Holmes e Watson é gritante e coloca o leitor entre estes dois, como é comentado na própria apresentação da edição Bolso de Luxo da Zahar, instiga quem lê a permanecer atento aos detalhes e a tentar resolver o crime por si próprio, ainda que seja para ser surpreendido pelo autor mais uma vez ao final da história.

Este não é o meu livro favorito do autor, tão pouco é um dos mais indicados pelos fãs do personagem, mas aqui temos não só o encontro inicial entre uma das duplas mais famosas da literatura, temos também um romance policial fenomenal, que só comprova a relevância do trabalho de Doyle e o porquê Holmes é praticamente sinônimo de investigação.

Um Estudo em Vermelho, de Arthur Conan Doyle, é o romance de estreia do autor e de um dos personagens mais famosos da literatura mundial. Tão inteligente quanto o seu personagem mais famoso, Doyle consegue criar uma história com um mistério instigante, que prende o leitor da primeira até a última palavra.


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Autor: Arthur Conan Doyle
Tradutor: Maria Luiza X. de A. Borges
Editora: Zahar
Ano: 2013
Número de páginas: 192
Sinopse: Publicado originalmente em 1887, Um estudo em vermelho chegou a ser considerado uma espécie de “livro do Gênesis” para os casos de Sherlock Holmes, pois marca não só a primeira aparição pública do detetive mais popular da literatura universal como o primeiro encontro entre Holmes e Watson. Ao buscar conhecer melhor seu novo amigo, em pouco tempo Watson vê-se envolvido numa história sinistra de vingança e assassinato…

Essa edição traz texto integral e cerca de 30 ilustrações originais. A versão impressa apresenta capa dura e acabamento de luxo.