Umberto Eco — Imagem: Reprodução/WikiCommons

Umberto Eco e o mau jornalismo

Em “Número Zero”, autor aponta um holofote para o descaso com o leitor

Dentro do jornalismo existem os números zeros, edições experimentais onde são montados protótipos e modelos do projeto, que pode ser um jornal ou revista, para apresentar a prováveis patrocinadores, fazer testes e pesquisas com o público e obter aprovação para a execução do projeto. Mas e se alguém criasse um número zero com o intuito de chantagear e colocar figurões italianos contra a parede para conseguir vantagens e entrar em um grupo seleto de pessoas poderosas. E, na Itália de 1992, um redator-chefe convida Colonna, nosso protagonista, para participar da criação de um número zero de um jornal chamado “Amanhã”, criado justamente com este intuito pelo dono de vários negócios, incluindo quase duas dúzias de revistas, porém, não possui influência nenhuma, os canais de televisão que possui, são locais e passam a noite transmitindo leilões e televendas, por exemplo.

O Comendador quer entrar para o clube de elite das finanças, dos bancos e, quem sabe, dos grandes jornais. O instrumento é a promessa de um novo diário disposto a dizer a verdade sobre todas as coisas. Doze números zero, […], impressos em pouquíssimos exemplares reservados que o Comendador vai avaliar e depois dará um jeito para que sejam vistos por pessoas que ele lá sabe.

A partir deste ponto, Umberto Eco se aproveita desta redação pequena e que desconhece motivo real por trás da existência do Amanhã — mesmo assim um exemplo de mau jornalismo — para criticar a manipulação de fatos, favorecimentos em troca de favores políticos, descaso e menosprezo pelo leitor e tantos outros pormenores que distinguem os bons dos maus jornalistas. Pessoalmente achei que algumas das situações foram um pouco exageradas justamente para tornar a crítica mais evidente na leitura.

A maioria dos personagens é introduzida na trama com um papel, uma função bem definida para cumprir ali e até o protagonista acaba sendo descartável, o que facilita que Maia e Braggadocio destaquem-se. A primeira é uma jornalista meio avoada e com uma visão única de mundo, que veio de uma revista de fofoca e esperava que o Amanhã fosse um local onde teria a chance de fazer grandes reportagens e se realizar profissionalmente. Já o outro é um jornalista mais velho que enxerga conspirações em tudo e começa a montar uma teoria que remonta ao cadáver de Mussolini — que, segundo ele, não seria do Duce — e vai até ao assassinato do Papa João Paulo I. Ele é um personagem hiperbólico, até meio caricato, com suas teorias que parecem loucas em um primeiro momento, mas que são provadas, ao menos em partes, pelo narrador.

Aliás, as conspirações de Braggadocio também acabam quebrando o ritmo do livro em vários momentos, o personagem conta suas teorias sem parar para tomar o fôlego e colocando uma informação sobre a outra e o maior problema é que para o público brasileiro, elas dificilmente farão total sentido, já que Umberto Eco usa várias personalidades e organizações italianas muito específicas que são pouco conhecidas por nós para fundamentar a história inventada pelo personagem de que o Duce não foi assassinado, mas um sósia, e que ele teria fugido para a Argentina. Desta forma, uma pesquisa sobre o que acontecia na Itália durante a época em que se passa o livro, e um pouco antes, pode ser de grande ajuda para que o leitor não se perca nas longas explicações de Braggadocio e entenda o quão conturbado foi o período.

Até então eu só tinha lido textos acadêmicos do Eco sobre cultura de massa para a faculdade e a minha primeira experiência com esta outra faceta do autor foi boa. A sua decisão de iniciar a história em um ponto futuro e retornar alguns meses para explicar como se chega àquilo, funciona bem na trama e instiga o leitor a continuar a leitura, aguardando pelo ponto de virada.

Número Zero foi uma boa experiência para conhecer o Umberto Eco como romancista e me deixou mais ansioso para ler outro livro dele o mais rápido possível. A trama acaba servindo como um holofote que recai sobre o mau jornalismo, apontando seus problemas e o descaso com o leitor.


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