Happy SouthBy II

Dirty Sixth Austin, março 2018

Outro ano, outra semana, a mesma Austin. A garçonete da taqueria se lembra do seu pedido. E eu pergunto se você aprendeu alguma coisa. Você viu robôs ficarem mais adoráveis, inteligências artificiais ainda mais inteligentes, realidades cada vez mais virtuais e aumentadas, e até descobriu que a computação quântica pode ajudar a encontrar a cura do câncer. Será que vai encontrar a cura da amnésia? Você lembra de quando tinha curiosidade pelo outro? Quando se importava de verdade, quando não estava anestesiada e tinha uma real necessidade de se conectar com outros humanos sem a ajuda de aparelhos? Tinha tanta gente no festival este ano que camuflou aqueles que se hospedavam nas ruas. Mas antes de todos os visitantes chegarem, e de madrugada, quando todos dormiam, você viu homens velhos e jovens com barbas desgrenhadas, sujos e cansados nas calçadas, com suas capas escuras de frio. A pobreza esquecida pelo brilhante Vale do Silício. Dentro do centro de convenções, fala-se do futuro de tudo e de nenhum presente. Quando vamos consertar o presente? Metade de você desiste, metade vibra. Nos palcos, você vê poderosas mulheres negras e brancas e amarelas e trans, incorporando o que é ser mulher hoje. Quando você era menor, só havia um jeito de existir e agora parecem ter tantos. Onde eles se escondiam? Você vê políticos, ativistas, cientistas, acadêmicos, que parecem saber de todas as repostas e verdades que o mundo precisa. Por que ninguém os ouve? Ou serão apenas palavras? Palavras para um mundo surdo. Você fica hipnotizada com a mulher que traduz as palestras para a linguagem de sinais. Você não sabe se todo aquele trabalho se destina a alguém, se ali havia alguém que não ouvia. Quantos dias o seu dia se parece com o dela? A arte há de nos salvar. Bruce Sterling, o profeta da distopia prega. À noite, nos shows de música, a esperança se renova. Você vê um inglês branco e magricela dominar um trompete como nunca antes na história, e como ele sequer piscava enquanto soprava sem respirar. Ao lado dele, mãos fortes e virtuosas no cello, seguindo uma trilha impossível. E ouve a voz daquela mulher negra e suas tranças dançarinas fazer chorar homens crescidos. De onde vem essa força suave? Você ouve jazz, folk, instrumental etéreo, música que não emociona robôs, mas que te cala. Você se acalma. De repente, a rua parece tão silenciosa. Com as cervejarias artesanais fechadas, as máquinas de café gourmet desligadas, as bicicletas encostadas, Austin vira uma cidade neon. Você vê as pessoas que realmente vivem aqui. Mexicanos em sua terceira ou quarta geração que transformaram o taco no verdadeiro café da manhã almoço e jantar americano. Cubanos e indianos que vieram atrás de um clima mais ameno, e suavizam a cidade mais azul do sul. Americanos buscando um lar. Você pensa como seria tê-los como vizinhos. Houve um incidente em Austin, caixas sem destinatário foram entregues e explodiram na porta de uma casa. Parece manchete de um jornal de editorial duvidoso, mas é real. A inquilina pede que tenha cuidado, te escrevem de longe perguntando se tudo está bem, você faz piadas com o excesso de zelo. Você e seus amigos ainda tem direito de brincar nesse mundo. Você brinca com seus devices de última geração, seus drones que tiram selfie, seus cachorros de plástico e de luz. E Austin sempre vai ser o seu playground.