Índios gays no Brasil, uma história não contada

Livro de Estevão Fernandes e Barbara Arisi lança luzes sobre um tema pouco explorado pela literatura científica brasileira

Rico Machado

O livro Gay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of Indigenous Sexualities (“Índios gays no Brasil: As histórias não contadas da colonização das sexualidades indígenas”), lançado em maio de 2017 pela editora Springer, trata-se de uma publicação tão importante que já no pré-lançamento já batia recordes de vendas no site da Amazon. A obra é de autoria de Estevão Rafael Fernandes, Antropólogo e professor no Departamento de Ciências Sociais na Universidade Federal de Rondônia; e de Barbara Arisi, Antropóloga, jornalista e professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Foz do Iguaçu, rio Paraná.

Sobre as inspirações para escrever o livro, Barbara conta que fez sua pesquisa etnográfica de doutorado com os Matis, na Amazônia, que eram curiosos como “nós”, os brancos, fazíamos sexo e que nesta época ela conversava “sobre tudo com as mulheres e com os homens na aldeia”. Em outra ocasião, em Santa Catarina, ela passou a noite na casa de uma família Guarani e uma jovem espontaneamente contou como foi sua iniciação sexual. “Aprendi mais com ela do que lendo todos volumes do ‘História das Sexualidades’, do Foucault”, relata a antropóloga.

Ao ser questionado sobre o vanguardismo da obra, Estevão ressalta que há, de forma dispersa muitos trabalhos sobre o tema e que espera que este livro possa trazer alguma nova contribuição. “Sabemos que um esforço de arqueologia da sexualidade no Brasil (incluindo a ação da colonização sobre negros, ribeirinhos, quilombolas, populações rurais e interioranas diversas, etc.) renderia um trabalho bastante interessante, mas com mais gente, tempo e recursos do que tivemos e temos à disposição”, analisa o pesquisador.

Apesar da obra estar publicada inicialmente em inglês, pela editora Suíça Springer, os autores buscam uma editora que publique o estudo em português, a um custo acessível aos leitores. Os professores concederam entrevista à jornalista Elenice Dueñas, publicada no Jornal Já, de Porto Alegre. Clique para ler o texto na íntegra.


ENTREVISTA COM ESTEVÃO FERNANDES E BARBARA ARISI

Elenice Dueñas: Como vocês receberam a notícia de que o livro “Gay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of Indigenous Sexualities” (Índios Gays no Brasil: as Histórias Não Contadas da Colonização das Sexualidades Indígenas) já consta na lista dos mais vendidos no pré-lançamento da Amazon?

Estevão Fernandes: Surpreso e feliz, mesmo porque acho que nem a Barbara nem eu esperávamos por isso. Mas até aqui temos avaliado o impacto como extremamente positivo. Trata-se de uma temática importante para (re) pensarmos não apenas os fundamentos sobre os quais nossos paradigmas a respeito de gênero e sexualidade se fundam, mas, também, pôr em evidência o papel que o colonialismo teve — e tem — nos processos que levaram à subalternização e invisibilidade de indígenas os quais não se enquadram nos padrões impostos, historicamente, ao longo do processo de colonização. O livro é, certamente, um ponto de partida para que essas questões possam ser devidamente aprofundadas, de preferência partindo das reflexões dos próprios indígenas sobre quem tais processos incidem cotidianamente. Uma boa repercussão que se seguiu à publicação do livro é que vários deles têm nos procurado ou feito postagens em redes sociais se reconhecendo no percurso apontado em nossas pesquisas. Talvez tenhamos aí coisas interessantes surgindo, e esperamos que nosso livro seja um primeiro passo nesse sentido.

Barbara Arisi: As pessoas querem saber sobre as coisas sobre as quais pouco é escrito. Há um desejo em conhecer mais sobre outras possibilidades de relacionamentos afetivo-sexuais. Acho que também muitas/os homossexuais querem saber sobre a diversidade sexual entre povos indígenas, pois a propaganda colonial conseguiu solidificar uma mentira de que a homossexualidade é ou era algo importado. Será ótimo se conseguirmos trabalhar destruindo mais tabus e tratando sobre diversidade sexual abertamente.

“O tema é pouco abordado de forma sistemática, apesar das várias referências na literatura histórica e etnográfica”

Elenice Dueñas: O que os inspirou a pesquisarem e se aprofundarem neste tema?

Estevão Fernandes: Em princípio provavelmente o fato de que o tema é pouco abordado de forma sistemática, apesar das várias referências na literatura histórica e etnográfica. Tentar entender o porquê disso, e o que isso nos permite compreender sobre sexualidade, gênero, mas também sobre colonização, contato interétnico e como o conhecimento se (re)produz na academia, acabou parecendo um bom ponto de partida.

Barbara Arisi: Sem sexo, não nasceria ninguém. Escrevi sobre sexualidade na minha tese, pois os Matis com quem estudei antropologia queriam saber como fazíamos sexo, queriam comparar as sexualidades deles com a minha. Estavam vendo filmes pornô na aldeia e achavam exótico o que viam, quando cheguei para morar com elas e eles na Amazônia, aproveitaram para perguntar sobre tudo, como beijamos usando a língua, como as mulheres ficam em cima durante o sexo, como eu tinha apenas uma filha, sobre desejo entre homens, mulheres, trans. Conversei sobre tudo com as mulheres e com os homens na aldeia. Certa feita, em Santa Catarina, passei a noite na casa de uma família Guarani e uma jovem espontaneamente resolveu se abrir contando sobre sua iniciação sexual, aprendi mais com ela do que lendo todos volumes do “História das Sexualidades”, do Foucault. Completei minha especialização organizando um evento Transday em Foz do Iguaçu com minhas doutoras amigas lésbicas e trans, aprendi muito com as sofisticadas teorias de quem aprendeu vivendo no próprio corpo a diversidade. Adoro gente que leva a vida fora das convenções e prisões sociais. Na universidade, fiz um pós-doutorado no Núcleo de Identidades, Gênero e Subjetividades, coordenado pela prof. Miriam Grossi; dela e das colegas do núcleo recebi minha formação mais acadêmica. Quando li pela primeira vez um texto do Estevão, comentei-o com todo o cuidado e assim a gente se conheceu e começamos nosso diálogo e co-autoria. Acho que a gente se complementa na forma como refletimos e como aprendemos com nossas experiências e nossos corpos sobre o tema.

Elenice Dueñas: Há pouco material e estudo sobre o assunto? Vocês tiveram que “garimpar” muito até encontrar fontes bibliográficas? Pode-se dizer que vocês são os precursores?

Estevão Fernandes: Outra boa surpresa! O que achamos foi, justamente, o oposto disso! Tem muita coisa escrita, aqui e ali. Fontes primárias desde o século XVI — incluindo um manuscrito escrito pelo Gabriel Soares de Sousa em 1587 e publicado em 1839 como “desconhecido”! O que talvez falte seja uma sistematização mais aprofundada sobre o tema, mas, ainda assim, muita gente boa — como Luiz Mott e João Silvério Trevisan, por exemplo — já havia dado alguns passos importantes no sentido de sistematizar esse material. Sem falsa humildade, se há “precursores”, nesse sentido, certamente são eles. Esperamos, sim, ter dado alguma contribuição — mas sabemos que um esforço de arqueologia da sexualidade no Brasil (incluindo a ação da colonização sobre negros, ribeirinhos, quilombolas, populações rurais e interioranas diversas, etc.) renderia um trabalho bastante interessante, mas com mais gente, tempo e recursos do que tivemos e temos à disposição. Articular e realizar isso seria um sonho!

Barbara Arisi: A gente se apoia no ombro de outras e outros. Como publicação escrita por acadêmicos latino-americanos em inglês, talvez sejamos precursores. Esperamos estar logo em boa companhia, pois o conhecimento é algo coletivo.

Elenice Dueñas: O que vocês destacariam ou o que mais surpreendeu vocês durante o trabalho de campo?

Estevão Fernandes: Os casos de violência, o enorme número de suicídios e, sobretudo, os casos de coragem dessxs indígenas.

Barbara Arisi: Para mim, o trabalho de campo é permanente sobre sexualidades, a partir de minha experiência com o meu corpo e com as pessoas com quem me relaciono. Aprendo muito também escutando as vidas alheias, tenho um amor antropo-psicanalítico em escutar as outras pessoas e como elas experienciam seus corpos e desejos nesse mundo, vivo em estado de surpresa.

“Em todas as culturas, se experimenta e se vive relações homo-afetivas e homossexuais”

Elenice Dueñas: Como a homossexualidade é vista pelos indígenas?

Estevão Fernandes: Difícil e mesmo impossível generalizar. Historicamente, o que se vê, é como o queer não era considerado degradante e como essas pessoas não eram vítimas de preconceito dentro de suas culturas — ao contrário, em várias culturas ou situações era relacionado a um papel religioso. A discriminação é algo que se deve, de modo geral, ao processo de contato e às formas como a colonização foi e é gerida. Hoje, de um modo geral, várias nações indígenas não encaram essas sexualidades fora do modelo hegemônico como um problema, mas, por outro lado, outras já internalizaram o preconceito — e isso ocorre de dois modos: o primeiro seria denominando essas pessoas por palavras que, em suas línguas nativas, referem-se ao veado (animal) ou fazem menção ao ânus; enquanto o segundo seria por meio de agressões mais diretas, associando o queer ao pecado e/ou à perda da cultura, chegando, muitas vezes, a agressões físicas e morte.

Barbara Arisi: Acho que em todas as culturas, se experimenta e se vive relações homo-afetivas e homossexuais. Conheci trans indígenas muito respeitadas por suas comunidades, mas também soube de muitos relatos de violência. Ninguém é, infelizmente, tão diferente assim. Seria bom conhecer culturas onde não há violência contra homossexuais, mas creio que nenhuma será exceção. Moro na Holanda, primeiro país a regulamentar o casamento gay no mundo, em 2001, e recentemente esse ano houve um novo caso de agressão e violência contra um casal de homens.

Elenice Dueñas: Os indígenas encaram e lidam com a própria sexualidade de maneira diferente da nossa sociedade? Há pontos comuns e divergentes, pode citar alguns exemplos?

Estevão Fernandes: Essa pergunta renderia muito! Vou tentar responder de forma sintética, fazendo um gancho com a resposta anterior. Uma das coisas que percebemos é que sexualidade não pode ser encarada como uma esfera à parte da religião, da cosmologia, da pessoa, da história, etc. Assim, a “homossexualidade” e/ou a “sexualidade” não existem fora de inúmeras camadas de significado, de contextos diversos e de uma conjunção de nuvens discursivas e construções diversas…. se há algo que os movimentos queer indígenas norte-americanos nos ensinam é que uma das chaves de interpretação da questão se dá ao se deslocar as interrogações do eixo da sexualidade nos “nossos” termos para eixos relacionados a cosmologia, história e colonização. O problema (ou um dos problemas) — e sei que aqui vou arranjar briga com gente graúda, mas é algo que urge ser dito e devidamente enfrentado nos círculos hegemônicos da academia brasileira — é que tendemos a reproduzir uma episteme euronorcentrada desde a qual questões como gênero e sexualidade fazem sentido — quase sempre uma narrativa branca, de classe média e com um sotaque blasé. Desse modo, tende-se a não se encarar essas sexualidades-outras (rurais, quilombolas, ribeirinhas, indígenas, etc.) em seus próprios termos, pois elas nos desafiam a pôr em xeque justamente essas noções hegemônicas e as redes de poder que as sustentam. A heteronormatização compulsória alcança essas coletividades desde outros dispositivos os quais, uma vez evidenciados, nos provocam a pensar outras chaves — politicas, inclusive — fora das caixinhas epistemológicas reproduzidas cotidianamente no mainstream. Falando assim parece uma simplificação da questão, mas ilustrativo nesse sentido é termos, de modo geral, tão poucos autores feministas negras e/ou latinas, ou indígenas queer nas cadeiras sobre gênero e sexualidade nas Universidades, enquanto outro conjunto de pensadores tem lugar garantido nessas disciplinas. Como dissemos antes, seria um sonho conseguirmos articular uma rede nesse sentido!

Barbara Arisi: Concordo com o Estevão em tudo. Mas apenas gostaria de acrescentar que a reposta depende de quem consideramos ser os ‘povos indígenas’ (há tantos e tantos povos, com suas maneiras muito diversas, além disso, há variedade interna, na experiência pessoal de cada um/a). Também depende quem entra no termo “nossa sociedade”. O Brasil é um país que trata mal suas mulheres e seus pobres, incluindo nessa categoria as/os trans. É uma violência impressionante, caso de denunciar o País por violação de direitos humanos internacionalmente como na comissão de direitos humanos na OEA e no Tribunal Internacional de Justiça em Haia. Mas, infelizmente, verificamos entre muitos povos indígenas também violências contra os homossexuais, violações perpetradas por não-indígenas, mas também por indígenas. Parafraseando e transformando a afirmação da autora famosa feminista Gayle Rubin que afirmou que infelizmente não havia uma “teoria que desse conta de analisar a opressão às mulheres em suas tão variadas formas e monótona similaridade”, podemos afirmar que as violências contra os LGBT são variadas, mas apresentam uma similaridade também que chega a ser monótona, tragicamente similar em todos cantos desse mundo redondo. Porém somos otimistas, pois as culturas são dinâmicas e podemos combater a banalidade da violência. Stonewall que marca o início do levante gay em nível mundial contra a violência policial em Nova York provocou muita mudança positiva, muitos direitos foram conquistados e mantidos, como união civil legal de pessoas do mesmo sexo, adoção homoparental, entre outros.

Elenice Dueñas: Por que este tema é relevante para toda a sociedade e não só para os indígenas?

Estevão Fernandes: Por inúmeros motivos, mas destaco dois: entender esses processos nos chamam a atenção para um aspecto pouco abordado da colonização — ou seja, como a colonização impõe, de diversas formas e partindo de diversos paradigmas, um determinado padrão de sexualidade visto como “normal”, ao intervir direta e cotidianamente na gestão moral dos povos indígenas (o que chamamos de “colonização das sexualidades indígenas”). Um segundo motivo seria a possibilidade de aprendermos com os povos indígenas a convivermos com outras formas de ser, viver, parecer, amar… sem discriminação ou agressões… neste sentido, eles nos impelem a compreendermos e combatermos a gênese dos preconceitos sobre os quais se assentam valores e normas de nossa própria sociedade — em especial nestes tempos sombrios, nos quais homofobia, racismos, intolerância e discursos xenofóbicos e de ódio têm se tornado uma constante. Mais do que um exercício analítico de compreensão e reflexão analítica, a questão do enfrentamento é algo a ser enfatizado aqui. Esse ciclo de violências e de imposição de um sistema moral branco, hetero, cristão, euronorcêntrico e capitalista-liberal não é algo recente, muito pelo contrário, pois é preciso desvelar esses processos para enfrentá-los e romper com eles.

Barbara Arisi: Para combater a violência e o abuso e punir quem comete tais violências.

“Mesmo a esfera mais íntima de alguém, o íntimo e o interno de nosso corpo, pode ser foco de colonização”

A entrevista na íntegra pode ser acessada no site do Jornal Já.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.