Diga-me com quem protestas, e eu te direi quem és.

Para fazer a diferença na história do Brasil, é preciso transformá-la e não repeti-la.


Quando se afirma que os movimentos que culminaram no protesto de hoje têm sua origem nas elites econômicas, não se está fazendo uma afirmação apenas quantitativa, como se não houvessem indivíduos de classes mais baixas presentes. Ao contrário, é bem sabido historicamente que as demandas mais contundentes se dão entre os que conseguiram sair de uma situação que só lhes permitia focar nas necessidades imediatas e, finalmente, ganhar tempo para assumir um novo projeto vital e para querer mais. Muitos dos que protestam ali, portanto, são parte da “nova classe média” — nascida também graças a diversas ações sociais afirmativas — que busca se aproximar cada vez mais das classes de maior poder econômico, que as inspiram.

E o que inspira a “revolta” das elites? Creio que os últimos anos de governo as colocaram em segundo lugar, priorizando as ações mais contundentes nas camadas mais carentes da população. Se, porém, suas reivindicações se pautassem apenas pela busca de maior prioridade, sua postura seria bem diferente, ainda que estivessem fazendo uso do velho e oligárquico discurso de que “a melhor maneira de ajudar os mais pobres é facilitar a vida dos mais ricos”. Mais grave ainda é o ímpeto conservador e autoritário de buscar isto “a qualquer custo” ainda que este custo extrapole a esfera daquilo que é democrático.

Não é coincidência que, na história do Brasil, os movimentos mais contundentes da classe média conservadora se deram justamente nos períodos em que houve ganho substancial no poder de compra pelas classes mais baixas, como na era Vargas e como em 64, cujo resultado nos é (ou deveria ser) bem conhecido.

Não é fácil, porém, fazer com que o alto preço de um carro, de um videogame ou dificuldades em enriquecer rapidamente especulando na bolsa, tornem um país inteiro simpático à causa de quem vive bem ou sem nenhuma preocupação que não seja a de buscar formas de ganhar mais.

Por isto, tais grupos se aproveitam de evidentes falhas técnicas e morais do governo atual e do histórico problema da corrupção na política e buscam com isto monopolizar a indignação com a corrupção e o próprio patriotismo, criando um ambiente em que aqueles que não são vistos ao seu lado, são tidos como “coniventes” com a corrupção e “traidores” da pátria por não priorizarem o que é “melhor para o país”.

Buscam, assim, subverter o que seria uma causa legítima, transformando-a em uma ferramenta para atingir interesses nada populares. Não à toa, portanto, o discurso catastrofista, como se o Brasil estivesse, de fato, prestes a implodir. Ora, como bem sabe qualquer pastor que seja farsante, quanto mais feio o Diabo for pintado, mais extremadas poderão ser as ações do Salvador. Tal discurso é visto por eles como necessário, creio, porque aquilo que realmente os motiva não seria suficiente para mobilizar quem está de fora.

Por isso, o recado é simples: proteste, mostre sua indignação, critique, manifeste-se. É legítimo e faz parte do jogo democrático. Mas cuidado ao se aliar a alguém ou a adotar algum discurso apenas por uma aparente convergência de interesses, pois você pode acabar brigando por interesses que vão muito além do que aquilo que realmente o motiva a protestar e, como quem conclui o ensino médio sabe, pode acabar dando um tiro no próprio pé.