Direitos dos animais: Mais razão e menos emoção?

Você acha incoerente um ativista pró-animais matar uma barata sem dó? Pense de novo.


NO ÂMBITO DO DEBATE ACERCA DO USO DE ANIMAIS em experimentos científicos, encontrei algumas vezes uma colocação que me deixou incomodado: a de que há muita emoção e pouca razão entre aqueles que defendem a completa substituição de quaisquer procedimentos científicos que envolvam animais vivos por procedimentos alternativos. Colocações semelhantes podem ser encontradas também em debates sobre o veganismo e, também neste âmbito, na maioria dos casos em que li ou presenciei essa colocação, ela fora usada para reforçar o argumento de que haveria uma suposta hipocrisia nos ativistas, uma vez que, embora façam uso de argumentos lógicos (falaciosos, segundo seus críticos) estes na verdade seriam ativistas apenas por se deixarem levar pela emoção diante de “cachorrinhos bonitinhos” usados em certos experimentos, mas seriam, por exemplo, menos contundentes ou até indiferentes ao uso de ratos e outros animais com menor apelo estético ou afetivo.

Como o tema é amplo, cumpre antes deixar claro o escopo do que aqui exponho: Isto não é uma declaração de posicionamento contrário ou favorável a causa alguma, e também não é uma defesa de qualquer sistema moral específico. O que me interessa é apenas demonstrar que essa acusação de hipocrisia sofrida por alguns ativistas tem por base um argumento falho e que isso em nada contribui para o avanço do debate.

É evidente que uma emoção não pode ser usada como ferramenta de análise crítica, pois uma emoção não articula ideias, não organiza dados nem estabelece conclusões lógicas. Porém, é um grande erro afirmar que a emoção não tem ou não deveria ter qualquer participação em um questionamento ético ou sistema moral. Basta notar que, sem o apelo à emoções, não conseguiríamos sequer justificar por que seria errado matar outro ser humano! Se deixarmos de lado as emoções envolvidas tanto para uma vítima, quanto para seus entes queridos, soa assustadoramente fácil transformar um assassinato em algo razoável.

Da mesma forma, aquele que acusa os ativistas de se guiarem pela emoção, esquece-se de que ele mesmo, embora carnívoro e defensor de sua dieta, só não mata e come seu próprio cachorro por causa das emoções envolvidas.

Adicionalmente, é preciso compreender que o debate sobre o uso de animais em experimentos ou sobre seu consumo em larga escala não é um debate sobre qual a natureza do homem (se carnívoro ou não, se no topo de uma cadeia criada por ele mesmo ou não) mas sim um debate sobre como deve ser o mundo em que queremos viver, e isso inclui decidir como queremos que seja nossa relação com os outros animais nas próximas gerações, e isso pode ser pensado de forma razoavelmente independente de como ela foi até agora. Nossa natureza, nossos instintos são ora enaltecidos, ora reprimidos em nossa sociedade, e isso porque no decorrer de nossa história, “optamos” por lidar com eles dessa forma porque os benefícios coletivos (no âmbito da ética) mostraram-se superiores.

Se, portanto, a emoção é um fator indispensável neste debate e deve estar presente em qualquer fórmula presente em uma moral, seja qual for o peso que lhe seja atribuído, isto significa que é perfeitamente possível elaborar uma moral em que seja razoável ser contra o consumo em massa de animais ou contra seu uso em experimentos e ainda assim, achar perfeitamente aceitável que se mate uma barata sem dó, assim como é perfeitamente possível defender o consumo de certos animais ou o uso de alguns em experimentos e julgar tenebroso a ideia de consumir ou permitir o uso de outros. Negar o papel das emoções não altera a natureza do papel por elas exercido, dado que elas estão sempre lá, tenham sido explicitadas ou não.

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