Django Livre, Downton Abbey e a classe média brasileira.

Ter sucesso na vida pode não ser bem o que imaginamos.


Stephen, interpretado por Samuel L. Jackson em Django Livre sequer aparece na maior parte do material produzido para promover o filme. Apesar disto, consegue se tornar uma das figuras mais destacadas e odiosas do filme. Negro em tempos de casa grande e senzala, jogou com esperteza e conquistou seu espaço na casa grande. Como todo oprimido deseducado, fez dos poucos metros de corda que recebeu a mais na sua coleira o suficiente para tornar-se opressor. É por iniciativa dele que os escravos apanham quando não se comportam, e é ele que mantém tudo funcionado com “necessária” — e prazerosamente violenta — mão de ferro.

Stephen.

Charles Carson, interpretado por Jim Carter, é o mordomo de Downton Abbey, em uma época de declínio da aristocracia à qual ama servir. Durante sua vida, soube jogar bem pelas regras e conquistou seu lugar no topo da sua carreira, ao lado dos seus senhores, que ficam felizes de ter alguém no “espaço dos criados” para defender os valores, costumes e práticas que os mantém como aristocratas. Conservador, nostálgico e orgulhoso de sua história, Carson sabe que não pode sequer sonhar tornar-se um aristocrata, mas não à toa, defende a necessidade da existência de uma aristocracia e dos valores a ela ligados: é graças a ela que pode considerar sua vida um sucesso.

O que Carson talvez não admita é que foi a própria cultura da aristocracia que lhe impôs os critérios que utiliza para julgar sua história como sendo a de alguém bem sucedido. Não por acaso, as práticas e tradições que fazem com que um servo possa ser visto como “bem sucedido” são as mesmas que buscam perpetuar a existência da própria aristocracia. Quanto mais útil lhes for e quanto mais legitimar seu poder, mais valorizado será.

Stephen talvez tenha uma visão um pouco diferente. Sabe que foi lançado no mundo numa condição de extrema desvantagem e sabe muito bem que isto não é nada justo. Ao contrário de Carson, não tinha nenhuma hierarquia a escalar ou sequer um conjunto de regras que, se adequadamente seguidos, lhe daria chance de obter uma melhor posição. Foi mantido de fora do jogo desde o berço. O fato de estar de fora, porém, não o fez odiar o jogo, mas apenas sua posição. Por isto mesmo, por mais esperto que tenha sido, ele também teve muita sorte quando alguém — seu senhor — em dado momento o colocou para dentro do jogo. Stephen sabe muito bem o que constitui as bases de sua permanência e por isso, o espírito ressentido, perigoso e violento que se revela na senzala se dobra e afina a voz quando se dirige ao dono da casa grande. Stephen também defende as práticas e tradições que permitem que seu senhor seja mantido onde está, talvez apenas com maior consciência do que Carson, o que pode ajudar a explicar porque extravasa seu ressentimento nos pobres diabos que a ele são obrigados a submeter-se.

Tanto Stephen quanto Carson me lembram comportamentos análogos da classe média brasileira. É nela que se concentra o grosso do conservadorismo brasileiro. É ela que defende não mais a casa grande como Stephen, e não mais a aristocracia como Carson, mas suas versões contemporâneas, seus “herdeiros”, constituídas por aqueles que detém a maior parcela da riqueza e do poder político.

Defende porque, embora saiba que as chances de tornar-se um senhor da casa grande, um aristocrata, ou um multimilionário sejam ínfimas, quer se manter o mais próximo que for possível destes “senhores”. Não é à toa, portanto, que tomam para si os valores, práticas e tradições do grupo que invejam pois investem suas vidas em manter-se ao seu redor.

Tal qual no contexto de Stephen e Carson, as práticas e os valores que buscam facilitar a vida — e mesmo justificar a existência — das classes mais privilegiadas são travestidos em valores nobres e caros que devem ser seguidos por qualquer um que queira se julgar “digno” de conquistas e de melhores condições de vida. Stephen, que nasceu podendo olhar todo o jogo “de fora”, provavelmente sabe muito bem disto, mas uma vez que foi colocado no jogo, prefere aproveitar das vantagens que isso lhe trouxe. Carson provavelmente não se dá conta do que realmente motivou os valores que defende em sua sociedade. Foi devidamente adestrado para segui-los e considera indigno quem não o faz.

Na classe média brasileira, não são raras posturas análogas tanto à de Stephen quanto à de Carson. São pessoas que confundem seus interesses pessoais de enriquecimento e sucesso com os interesses coletivos da sociedade, e fazem isto tentando travestir as práticas que facilitam a vida dos que já estão no topo como sendo as práticas que permitem a todos uma vida mais justa e com maior liberdade. Não é algo perfeitamente consciente para os Carsons da vida, que foram adestrados para tal, mas é algo visível para os Stephens, que enxergam ali uma oportunidade de colocar-se acima dos demais. Trabalham duro, crentes de que este é o caminho adequado e justo para uma vida melhor. Não se dão conta de que lutam por migalhas, por alguns metros a mais de coleira, e que o grosso do resultado do seu próprio suor não é dado a eles, mas a quem já está no topo.

Sem problema. Uns afagos do chefe e a energia está novamente renovada.

Tirinha por Laerte

A classe média, imersa nesta ideologia, toma as necessidades e interesses dos nichos em que atua como sendo as necessidades e interesses da sociedade. Confundem as regras que buscam limitar o poder dos que estão no topo com regras que buscariam limitar sua própria liberdade de “chegar lá”. Rechaçam como sonhadores, utópicos e desequilibrados qualquer um que ouse levantar-se contra as regras do jogo a que se apegam tão ferrenhamente, dizendo que, embora imperfeitas, constituem a melhor alternativa. Não enxergam a si mesmos como ovelhinhas exploradas, mas sim como “senhores em potencial”.

Não é à toa que encontramos mais conservadorismo e ressentimento entre os que estão “quase lá” do que entre os que estão “lá”. Ao se dar conta disto, Carson ficaria horrorizado enquanto o próprio Stephen daria risada de sua ingenuidade.