Educação para o PIB versus Educação para a democracia.

Charge do Latuff

Em conversas sobre economia e política com amigos, não são raras acusações de que iniciativas como o Bolsa Família sejam mero populismo, uma forma de manipular uma massa de pessoas mantidas propositadamente na ignorância. Seria verdade se tal iniciativa fosse isolada e destinada a perpetuar-se, e não parte de uma estratégia econômica mais ampla[1] (frequentemente ignorada pelos seus detratores), mas evidentemente não é o caso.

O que me chama atenção de forma mais aguda é a perspectiva do bolsista, do mais pobre, como uma massa de manobra, como um conjunto de vacas leiteiras mantidas sob controle para fornecer votos. Por trás desta perspectiva está a noção da tal massa como deseducada, ignorante, alheia à própria realidade e, por isso, facilmente manipulável. Há alguma verdade nisto, sem dúvida, mas a forma sob a qual estas denúncias acontecem deixa transparecer uma concepção muito limitada e distorcida do que é ser educado. Em geral, tais pessoas são consideradas ignorantes ou deseducadas pela observação do grau de escolaridade formal e o acesso às informações relevantes por meio de jornais, revistas e da internet. Os que não atendem estes requisitos mínimos estão sujeitos à manipulação “populista”. Sem dúvida é difícil defender o contrário. Mas muitos parecem acreditar que suprir estes dois critérios é suficiente para que se tenha uma visão crítica da própria realidade e para ser um cidadão efetivo, e nisto estão seriamente enganados.

Por trás destes critérios, parece haver uma confusão entre duas concepções distintas de educação: uma voltada para o crescimento econômico e outra voltada para a cidadania e a democracia. Uma tem por foco o treinamento em habilidades que são úteis aos mercados, isto é, busca essencialmente gerar mão de obra para gerar então um PIB cada vez maior. A outra tem um foco distinto, sem fins lucrativos, buscando desenvolver uma capacidade refinada de refletir, de criticar, de imaginar a experiência do outro, de colocar-se em seu lugar, de conseguir olhar sua cidade e seu país de uma perspectiva mais humanizada e global, sem restringir-se apenas à esfera econômica.

Não é por acaso que a educação voltada para o crescimento econômico soe obviamente indispensável a muitos de nós, enquanto a educação voltada para o exercício da democracia soe como um discurso vazio, ou mesmo um amontoado de coisas obviamente importantes, mas que estão ligadas ao caráter de cada um. São questão de bom senso, de família, e não de educação formal. Quando alguém me fala algo assim, me questiono se esta pessoa acredita que, nos primórdios, associamo-nos em comunidades com o fim último de criar e maximizar um PIB. Basta ver como alguns reagem diante de propostas que busquem colocar o crescimento econômico como o meio que é, e não como um fim: ações afirmativas; projetos de redistribuição de renda e outros. Não se faz isso sem ser chamado de “esquerdinha”, “petralha”, “comuna”, “bolivariano”, “doutrinador marxista”, nem mesmo sem ser acusado de defender uma economia planificada “comunista” nos moldes da antiga União Soviética ou ainda de flertar com a ditadura cubana. Ou seja, a adoção de valores distintos, como os que realmente colocam a educação para o crescimento econômico lado a lado com uma educação voltada para o exercício da democracia, e não acima dela, não são tomados como um posicionamento racionalmente justificável. Ao invés, estes lhes aparecem como uma ideologia vazia e carcomida, coisa de gente ignorante ou hipócrita.

Antes que pensem que estou advogando contra a educação para o crescimento econômico: não estou. Estou lembrando que os dois modelos de educação não são mutuamente excludentes, mas sim complementares. Eles podem e devem conviver se queremos permanecer em uma sociedade democrática. O erro está em achar que uma sociedade consegue se manter democrática focando apenas na educação para o crescimento econômico, quando na verdade não há qualquer ligação entre uma coisa e outra. Produzir e sustentar crescimento não é produzir e sustentar democracia. Evidência disto, aliás, é o fato de que não raro os que elogiam a ditadura militar no Brasil usam do crescimento econômico que nela se obteve como argumento.

Não é preciso ir longe, mesmo no Brasil, para encontrarmos espaços em que as humanidades, as disciplinas cujo foco não é a aquisição de habilidades úteis para o crescimento econômico, incluindo artes, literatura e filosofia, são tomadas como antros de ideologias macabras. Para alguns, é difícil até entender como pode haver disposição para gastar recursos públicos em algo que “não serve para nada” e questionam sua existência no ensino médio e nos bacharelados, pois só pode ser “coisa de vagabundo” ou coisa de gente que quer viver “mamando no Estado”. Como se não bastasse, são também portas de entrada para ideologias perigosas. Alguns com postura mais “branda” podem até considerá-las importantes, mas julgam inconcebível que alguém possa viver ou se sustentar por meio delas. Ou contribui diretamente para o crescimento do PIB, ou não é digno de parcela alguma dele.

Se focarmos apenas no ensino superior, o que temos fora dos cursos de humanidades são pessoas que passaram alguns anos em uma universidade qualquer estudando cada mínimo detalhe de cada uma das tecnologias que compõem seu smartphone ou carro favorito; ou estudando conjuntos de técnicas e ferramentas para lidar com problemas específicos, sejam ligados à administração empresarial, sejam ligados à saúde humana. Treinamentos técnicos em geral lidam com ferramentas e problemas, seja o problema um componente eletrônico, uma doença ou um índice de produtividade. Passam anos estudando sistemas fechados e aplicando fórmulas bem definidas, tomando-as como “o jeito certo de fazer as coisas”. Sendo o que aprenderam consistentemente não apenas no ensino superior, mas desde o ensino fundamental, acreditam que podem fazer uso deste tipo de ferramenta para lidar com todos os problemas da sociedade, inclusive os políticos. Não há espaço para perspectivas alternativas: quem discorda de sua abordagem o faz por desconhecimento das ferramentas e, portanto, está errado. Defende uma política econômica que não priorize o crescimento? É porque não entende de economia. Defende limites para o quão rico alguém pode se tornar? Não entende nem de economia, nem da natureza humana, que se resume ao homo economicus. Não por acaso, quando se fala em política ou economia, tratam dos outros seres humanos ora como ferramentas, ora como partes de problemas a se resolver. Tais atividades só são efetivas enquanto abstratas, enquanto envolvendo números e fórmulas sem rosto.

O ensino fundamental e o médio, sucateados como estão no Brasil, não conseguem fazer nada muito diferente disto. O exemplo do ENEM de 2015 demonstra bem o jogo de forças a que me refiro aqui: com um Ministério da Educação tentando manter as humanidades em campo (apenas até certo ponto, pois a prioridade dos últimos governos sempre foi a educação para o crescimento econômico) e acusações de “doutrinação marxista” diante de qualquer elemento ou conteúdo que busque fazer pensar fora da lógica produtiva.

Se a educação for levada adiante desta forma, o que ela produz senão um verdadeiro adestramento técnico? O que será ela senão a imposição de uma dada forma de ler o mundo, tomada como “imparcial”, “objetiva” e “correta”, nos moldes das ferramentas e técnicas aprendidas, mas que não passa de uma falsa consciência? Quem só aprendeu a usar martelo, vai fazer de tudo um prego antes de admitir seu próprio despreparo para lidar com as coisas como são. Admitir ser incapaz de versar sobre engenharia naval é fácil, mas sobre política? Isto é raridade. Mas quem está preso a esta lógica não tem condições de fazer críticas mais refinadas do que a “massa de manobra” que tanto critica. Teve acesso ao ensino superior, mas nele só aprendeu técnicas específicas para resolver problemas específicos ligados à produção de bens e serviços. Tem acesso a informações de toda sorte como jornais, revistas, televisão e internet, mas não tem condições de lê-las criticamente, engolindo e absorvendo a visão invariavelmente interessada que lhes é apresentada, e tomando-a sempre como se fosse sua.

Ocorre que uma capacidade refinada de refletir, de criticar, de imaginar a experiência outro são essenciais à manutenção da democracia. Se há uma forma de estupidez que interessa a quem controla recursos suficientes para afetar a opinião pública, é esta incapacidade para uma critica refinada somada a uma crescente capacidade produtiva. É ela que nos faz assimilar tradições culturais sem qualquer questionamento, sem qualquer pensamento ativo que as analise, seja para negá-las, seja para reafirmá-las, agora sim como suas (o que é bem diferente de aceitá-las como suas apenas com base da autoridade do meio em que se vive). Que melhor massa para manobrar do que aquela que aceita pacatamente tudo o que recebe, engolindo e se apropriando de tudo que lhe é dado como se fosse fruto de uma escolha sua? Esta incapacidade de crítica refinada é o que permite que se fale tanto em crescimento econômico, ignorando o problema da distribuição, fazendo crer que a igualdade de condições já esteja dada ou que um progresso econômico nulo ou pífio na vida de alguém se dá pela falta de esforço e vontade daquela pessoa. A incapacidade de um olhar verdadeiramente global, humanizado, somado à capacidade de se colocar no lugar do outro é que faz com que tantos tomem sua própria realidade particular como sendo aquela do país em que vivem. Números são descrições da realidade e ferramentas para lidar com ela, por isso não convém humanizá-los. É mais fácil tratar as pessoas como números, como ferramentas se foi assim que se aprendeu a enxergá-las desde cedo. Desta forma, agem tal como acusam agir os que recebem Bolsa Família, mas de graça ou, no máximo, por promessas de valorização do seu esforço no futuro, o que é análogo a um escravo que sonha com sua carta de alforria, como se ela dependesse do quão bem realiza o que lhe ordenam.

Notas

[1] Um exemplo daquilo a que refiro aqui é o fato de que o complemento na renda fomenta um consumo maior e mais estável, o que é vantajoso para as indústrias locais, que recebem incentivos para novos investimentos via empréstimos a juros subsidiados.