Sobre falácias e a pobreza dos debates na internet

Tão ruim quanto debater com quem confunde o que sabe com o que consegue procurar rapidamente no Google, é conversar com quem acha que tudo é um debate.


Tenho um palpite de que é possível adivinhar com razoável precisão o quão bom foi o aproveitamento escolar de alguém com base na forma como dialoga na internet. Há um traço que me é marcante dentre alguns dos que tem por hábito participar de debates na internet e que possuem algum conhecimento em falácias argumentativas: a postura policialesca que assumem.

Se você não está familiarizado com o tema, basta saber que falácias argumentativas são erros de natureza lógica em argumentos que, a despeito disto, aparentam ser corretos. É possível encontrar listas com dezenas delas, mas bastam alguns exemplos de falácias comuns para entender a ideia:

  1. ad hominem: quando, diante de uma argumentação, tentamos atacar o argumentador ao invés de refutar o argumento. “Claro que você é a favor da criminalização da homofobia, afinal, você é gay”;
  2. apelo à autoridade: “Quem você pensa que é para discordar do Papa?”;
  3. depois disso, logo, causado por isso: “Eu comecei a rezar e a chuva forte passou em seguida”;

É evidente que, em um texto argumentativo, falácias lógicas não são bem vindas, mas nem todo texto é argumentativo, ainda que contenha afirmações. É possível também fazer uso de vários recursos linguísticos para expor e justificar um ponto de vista. A própria filosofia não depende da lógica de maneira fundamental. A única ferramenta fundamental para ela é a linguagem. A filosofia exemplifica esta possibilidade na abordagem terapêutica de Wittgenstein e nos aforismos de Nietzsche.

Neste texto, porém, não vou me dirigir àqueles que cometem falácias lógicas em suas argumentações, mas sim àqueles que, mesmo conhecendo-as e tendo decorado seus nomes, não sabem reconhecer os contextos e os gêneros textuais a que elas se aplicam.

Esta condição é encontrada em um perfil particularmente comum na internet: o de quem tomou gosto por uma determinada causa e, no intuito de defendê-la, começou a estudar estratégias argumentativas. No processo, aprendeu a reconhecer falácias nos argumentos dos outros. Como, porém, seu estudo foi muito raso, ele passou a encarar tais falácias como se fossem regras universais de estruturação da própria linguagem, tratando quaisquer expressões significativas sobre sua causa favorita como se fossem argumentativas ou como se todo comentário ou expressão de uma opinião fosse uma defesa argumentativa logicamente estruturada daquilo que embasa aquela opinião.

Isso gera resultados tão caricatos que por vezes tenho a impressão de que o indivíduo é capaz de acusar um cozinheiro de usar da falácia de apelo à autoridade numa receita de cozinha ou de acusar a própria mãe de utilizar um argumento ad hominem quando esta lhe manda sair da internet.

Evidentemente, há variações quanto ao perfil, mas trata-se de uma limitação muito comum. Caso igualmente ilustrativo do que aponto é o daquele que julga ser este (o conhecimento sobre falácias) alguma espécie de conhecimento arcano ao qual ele teve acesso por meio de alguma revelação sobrenatural pois, para ele, não basta apontar a falácia no texto do outro, sendo necessário também mostrar o quanto ele a domina, explicá-la e apontar fontes da Wikipédia ou coisa parecida, deixando transparecer uma empolgação sobre algo que acabou de aprender e também o quão limitado foi este seu aprendizado.

Sua falha no reconhecimento dos gêneros textuais e contextos em que se pode falar em falácias lógicas faz com que saiam por aí apontando “falácias” em comentários de redes sociais que meramente expõem opiniões sem objetivar fundamentá-las ou em aforismos — como os que Nietzsche costumava fazer — que antes de qualquer coisa, objetivam instigar o pensamento e não estabelecer uma conclusão. Chegam a fazê-lo até mesmo em textos míticos ou bíblicos, como se aqueles fossem ensaios filosóficos escritos dentro da racionalidade contemporânea.

A abordagem também não raro demonstra grande ignorância sobre o tema, fazendo com que qualquer um verdadeiramente interessado em debater algo com seriedade prefira se abster. Afinal, quem discutiria noções de estatística com alguém que demonstra não dominar conceitos matemáticos básicos? Além disso, normalmente a mera recusa em dialogar com um destes por causa de seu pensamento tacanho gera provocações e acusações de ad hominem, o que me faz pensar que o indivíduo, além de tapado, é carente.

Resta lembrar a ele que as grandes questões da humanidade não foram respondidas ou refutadas por meio de argumentos que as respondiam diretamente, mas sim superadas por meio de processos que mais se assemelham a uma terapia — em sentido similar ao proposto por Wittgenstein — do que a uma refutação direta. Ninguém jamais respondeu de maneira definitiva — e isenta de crítica — qual o sentido da vida, assim como ninguém jamais solucionou o problema dos universais da filosofia medieval: o problema é que deixou de ser um problema quando surgiram novas narrativas, novas abordagens e novas perspectivas. Essa abordagem terapêutica, aliás, pode ser uma boa reposta para quem tenta travestir todas as formas de expressão humanas em lógica formal.

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