Para entender aquele seu amigo que gosta de filosofia.

O que faz com que alguém leve a filosofia a sério?

Para uma ampla maioria, esta parece uma pergunta tão difícil quanto desinteressante. Não à toa, poucos se dão ao trabalho de tentar respondê-la, e os que o fazem se contentam com algum palpite despretensioso que resulta do uso de algum dicionário imaginário do senso comum, onde encontramos definições como:

Filosofar: ato ou efeito de se recolher a um canto, baixar a cabeça e pensar, sem qualquer método ou critério de acerto e erro, no assunto que lhe der na telha. Refletiu? Pensou na vida? Está filosofando.
Filosofia: Do grego: filo (auto) e sofia (ajuda). Brincadeira. É filo (amor) e sofia (saber): amor ao saber, ou seja, é gostar de ter sabedoria para viver melhor. Logo, é a mesma porcaria que auto ajuda.
Filósofo: Como filosofia é gostar de saber das coisas, filósofo é aquele que gosta de aprender e faz isso usando técnicas consagradas como: virar ateu, comunista e brigar com a família, principalmente com aquele tio conservador, em todo jantar de Natal.

A ansiedade de não ter uma resposta superior a um palpite sem qualquer fundamento na ponta da língua vem à tona quando é um amigo ou um parente (do subgrupo dos que são gostáveis) que resolve dedicar-se à filosofia, seja profissionalmente, seja como hobby. Chamá-lo de louco ou perdido, como se faria com um desconhecido qualquer, não serve. Ficar em silêncio, ir embora e nunca mais voltar, também não. É preciso reagir. É preciso dizer algo. Mas o quê? A sensação é parecida com a da primeira vez em que se pegou um bebê no colo: você não faz ideia do limite entre o que o faz sorrir e o que o faz chorar.

Algumas reações típicas são:

“Ah.………….Bom. Se você gosta”. — Diz você, certo de que ele levou aquela história de “fazer o que se gosta” longe demais.
“Já que você gosta tanto de ler, porque não cursa Direito?”. — Diz você, realmente acreditando que seu desconhecimento sobre o tema te legitima a dar um conselho de vida.
“Bem, acho que toda forma de conhecimento é válida”. — Mente você.

Evidente que as diferentes reações possíveis são incontáveis. Não pretendo e nem teria como abarcar todas as possibilidades aqui. As que apontei acima servem apenas para ilustrar algumas das reações que podem surgir por uma causa comum e muito específica: a ansiedade causada por quem se recusar a admitir que não faz ideia de como segurar um bebê, mas que antes de admitir isto, prefere jogá-lo pela janela e usar o calor do quarto como justificativa.

Este texto, portanto, é sobre um certo conjunto de pessoas que entende a filosofia de forma semelhante à exposta acima (o que é diferente de dizer que todas pensam assim) e que, ao mesmo tempo, tem consideração para com o amigo que resolveu se interessar por filosofia a ponto de buscar entender o que aconteceu com ele. Se você for um bom amigo, talvez tenha até checado um dicionário de verdade ou procurado algum texto introdutório sobre filosofia para tentar aprender um pouco, mas provavelmente não achou nenhum com menos de duzentas páginas e desistiu na terceira.

O mais importante por hora é: não tente demonstrar empatia com a decisão do seu amigo dizendo que você vai ler, já leu ou lembra de ter ouvido falar do livro “O Mundo de Sofia”. É como falar pra alguém que acabou de sair do armário que você já assistiu “Priscila, a rainha do deserto”.

Eu acredito que o segredo para entender a decisão do seu amigo um pouco melhor não é ter uma definição clara do que é filosofia, mas sim entender como pequenas dúvidas banais e comuns que mesmo você tem podem um dia, por qualquer motivo, se mostrarem mais importantes do que meras curiosidades, tendo algum efeito direto real em suas decisões. Isto pode levar a questões mais profundas e acabar fazendo com que você esbarre no trabalho de algum filósofo.

Mas por que ninguém consegue responder de forma simples o que é filosofia?

Pela mesma razão que você não consegue responder de forma simples o que é um “jogo”. Apesar disso, você consegue apontar exemplos de vários jogos e compreende as frases que usam esta palavra, não?

Há inúmeros tipos de jogos. De tabuleiro, de dados, de cartas, competitivos, cooperativos, solitários, em dupla, em grupos mas cada um por si, grupos contra grupos etc. Se você tentar dar uma definição abstrata para o que é um jogo, isto é, se tentar determinar uma lista de características como sendo a lista “daquilo que todos os jogos tem em comum” de maneiras que possamos chamá-los de “jogos”, aposto que ou deixará alguns jogos de fora ou acabará chamando de “jogo” coisas que não tem nada a ver com o que normalmente tomamos por jogos (como um debate, por exemplo).

Isto porque todos os jogos parecem ter características em comum, mas nenhuma delas parecer ser comum a todos eles. Ainda assim, não temos dificuldade alguma em reconhecer algo como um jogo. Não ficamos na dúvida sobre do que exatamente alguém está falando quando usa a palavra “jogo”, apenas por não termos elaborado ou lido uma definição precisa.

É mais ou menos assim com a filosofia. Sempre houve quem tenha tentado defini-la, mas sempre acabava ou deixando algo de fora ou trazendo pra dentro dela conteúdos que nada tinham de filosófico, e mesmo nos dias atuais você encontra diferentes concepções. Mas isto não significa que não haja uma espécie de conexão que vem se desenvolvendo com o passar do tempo, sempre mantendo alguma familiaridade com seu passado, mas nem por isso se restringindo a ele (como no caso dos jogos).

Um concepção que atualmente me agrada, por exemplo, é a ideia de que a filosofia objetiva eliminar confusões conceituais. A ciência “faz perguntas” ao mundo e anota as repostas, gerando conhecimento. A filosofia ajuda a organizar os conceitos que são usados para fazer as perguntas.

Imagine que você tem uma moeda em sua carteira, e que sua carteira esteja no seu bolso. É correto supor que a moeda está dentro do seu bolso? Sim, claro. Mas imagine agora que você tem uma dor no pé, e que seu pé esteja calçado. É correto supor que a dor está dentro do seu sapato?

Se você acha que sim, estará fazendo grande confusão conceitual, e o problema ficará sério se algum cientista concordar com você e sair por aí propondo experimentos que busquem a localização da dor dentro do seu sapato.

Se acha que não, descobrirá que não é tão fácil explicar porque não é o caso. No começo parece fácil: a dor não é um objeto físico, logo, não pode estar “dentro” do sapato.

Mas o que ela é, então? Uma “sensação”? Quer dizer que ela é alguma coisa que está dentro de você, talvez no cérebro? Posso dizer então que uma sensação é uma coisa física, permitindo que eu diga que a dor está “dentro” do seu boné, por mais que você a sinta dentro do sapato? Se não, o que é ela? Um objeto mental? Significa que ela não é física? Seria o que então? Existe uma “outra dimensão” onde ficam as coisas mentais? Como essas coisas mentais se relacionam com as coisas materiais? Você tem algum tipo de portal dimensional no seu pé ou no seu cérebro que conecte coisas mentais e coisas físicas? Ou ao invés de mente, podemos dizer que a dor é parte de sua alma? Você está me dizendo então que precisamos acreditar em almas para podermos explicar por que a dor não está no seu sapato? Aliás, o que isso explica? Que a dor do seu dedão na verdade está na sua alma? E essa dor de cabeça que você deve estar começando a sentir agora?

Repare que, neste exemplo, não basta apelar para a ciência, pois ela parece supor que todos saibam quais são os possíveis candidatos à resposta para então saber que evidências precisa encontrar, e mesmo o que serve de evidência. Para isso, precisamos ter clareza sobre o que estamos tentando mostrar. A ciência deve procurar pelo que e onde? É mais ou menos assim que você descobre que as questões mais banais estão ligadas profundamente aos “grandes problemas” da filosofia em toda história da humanidade.

OK. Digamos que eu chegue a uma resposta e possa explicar porque é errado dizer que a dor está em meu sapato. Qual a utilidade disso?

Esta sensação de inutilidade é típica quando não se percebe que problemas banais como o da dor no sapato estão profundamente entrelaçados a uma infinidade de outros problemas, tanto os banais quanto as “grandes questões”.

Mas talvez agora seja mais fácil perceber que, quanto mais elementos utilizamos para responder a questões banais (mente, corpo, alma, matéria, ciência, evidência, linguagem etc) menos banal a questão se torna e mais transparece a influência que problemas deste tipo podem ter sobre a vida das pessoas. Instituições de pesquisa, por exemplo, podem perder tempo e recursos escassos procurando pela coisa errada no lugar errado devido a uma confusão conceitual. Para um exemplo um pouco mais concreto, pense em quantos elementos teóricos você precisa usar para dizer o que é “vida”, e pense agora em como essa sua concepção de vida, seja qual for, guiaria os experimentos que você teria de fazer para demonstrar que ela é a “correta”.

Assim, meu palpite é que seu amigo “filósofo” provavelmente encontrou um ou mais problemas que lhe interessaram de maneira especial, e começou a investigá-los de maneira racional e aprofundada, detectando então problemas conceituais. Também provavelmente, foi capaz de encontrar solução para o tal problema em poucos dias, só para descobrir em seguida que sua “solução genial e revolucionária” já foi pensada, questionada e jogada na lixeira antes, e talvez por gente que morreu há mais de dois milênios e andava em público enrolado numa toalha. Daí uma das principais razões para se estudar a história da filosofia em profundidade: estamos sujeitos às mesmas armadilhas psicológicas e lógicas que nossos colegas do passado, e se quisermos de fato contribuir para algum tema, precisamos aprender a evitar seus erros e aprender com seus acertos.

Se você chegou até aqui — coisa rara em tempos de internet, onde um texto que se leve mais de 30 segundos para ler é tido como longo e cansativo, independentemente de sua qualidade — você já deve saber como reagir ao interesse manifesto por seu amigo: basta pedir que lhe conte a história de como ele se interessou por um dado problema ou assunto que acabou levando-o a pesquisar textos filosóficos. Fácil como fazer um bebê rir.

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